HÁ LOUCURA NO FASCISMO?

Os protestos a favor de um golpe por “patriotas” – que adotaram a camisa da seleção e a bandeira do Brasil como uniforme – tendem ao ridículo desde o “passeio” de um “patriota” colado ao pára-brisa de um caminhão; orações e rezas dirigidas a um pneu ou carretas estacionadas; socos ou gritos às portas de quartéis pedindo uma intervenção militar; marchas de “pelotões patriotas” em círculos hilários na frente de quartéis; até uma sinalização coletiva das luzes de celulares nas cabeças dirigidas a um “general sideral” pedindo uma “intervenção alienígena”.

Partes contrárias nas redes sociais transformam essas manifestações em memes e ridicularizam pedidos de golpe militar, enquanto muitos tratam o comportamento dessas pessoas como se tivessem enlouquecidas, vítimas de uma doença mental e pedem de forma inadequada uma “intervenção psiquiátrica”. É desse ponto que quero tratar aqui.

Não estamos em condições clínicas de rotular as pessoas individualmente como doentes mentais (isso requer estudo de cada caso e não pode ser confundido com o fenômeno grupal).

O fenômeno de um comportamento grupal usado politicamente na história foi estudado, não no campo da psicopatologia, mas da psicologia. Freud, tomando por base o trabalho de Gustave Le Bon publicado vinte e sete anos antes, escreveu em 1921 “Psicologia das Massas e Análise do Eu” tentando sistematizar o comportamento das massas e demonstrar que a massa é capaz de provocar a perda da identidade individual no grupo, em contraponto e arrastando a psicologia de cada indivíduo, que se sujeitaria voluntariamente ao comportamento de rebanho grupal.

Para o “aprisionamento” do indivíduo ao grupo seria necessária uma crença conservadora, uma tendência à irracionalidade, um desejo de ser chefiado por uma figura autoritária, propensão a obediência a um líder violento, a quem devota obediência cega.

O sujeito para sobreviver no grupo adota o comportamento do rebanho e facilmente chega à estupidez e à violência. No grupo, mesmo um indivíduo com alguma cultura torna-se tosco, primitivo e facilmente deixa argumentos para adotar um comportamento violento.

Enquanto Le Bon foi lido por Hitler, no tempo em que escrevia Mein Kampf, aproveitando seus ensinamentos para liderar o nazismo, os escritos de Freud são utilizados para o entendimento de movimentos autoritários e úteis no combate ao nazifascismo.

Sem levar a Psicologia das Massas ao entendimento estúpido da massa política atual, se você gosta de futebol, certamente já se comportou à beira dessas explicações freudianas. O seu time é o melhor e, como massa da torcida, você geralmente procede conforme a direção do comportamento da massa de torcedores iguais a você, quase perdendo a sua identidade. Se isso não lhe aconteceu, certamente você conhece as tragédias de torcidas organizadas.

Portanto é disso que se trata. Ao campo da psicologia e não da psicopatologia individual. Poderíamos falar de uma histeria coletiva, de uma distonia da percepção da realidade como inerente ao comportamento da psicologia das massas. Nunca como fenômeno da psicopatologia individual e doença mental dessas pessoas.

O que se pode supor é que esses grupos facilmente sequestram a subjetividade de vidas fúteis, rasas e desprovidas de significado existencial importante. E, muito pior, muitas dessas pessoas encontram uma razão existencial exatamente no pertencimento a esses grupos “patrióticos religiosos”. Uma razão para viver.

Para sorte da nossa democracia, o “mito”, o líder identificado por espelhar os preconceitos dessa gente, não é um estudioso nem tem competência para a condução do processo fascistoide a que foi alçado. Ele pode encerrar sua carreira de ditador melancolicamente.

Mas é necessário que as instituições ajudem. Há golpistas à solta tramando na permissividade da lei. Um membro do Tribunal de Contas da União trama com os quartéis, o general Braga Neto pede paciência e persistência aos golpistas patriotas em seus movimentos ridículos. O senador eleito e vice-presidente Mourão quer o espólio do “mito”. Empresários do setor agropredador fecham estradas. Militares da ativa se manifestam politicamente nas redes sociais a favor de um golpe. E vamos passando o pano nesses acidentes, chamando de manifestação o que é movimento golpista e que deveria ser reprimido por ameaçar a democracia.

Sorte ainda que o mundo já deu posse a Lula. Mas nada impede um movimento golpista desesperador nacional. Pé de pato, mangalô três vezes.

Mas se isso acontecer, o que enxergamos como delirante nas massas, deixa de ser. A possibilidade é pouca, mas existe. Aí os delirantes seríamos nós…

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desenho: 1000TON

3 comentários em “HÁ LOUCURA NO FASCISMO?

  1. Edmar, eu acredito que eles continuarão tentando melar, mas como você bem disse, o mundo já deu posse ao Lula e isso faz toda diferença, pra nossa sorte. Um grande abraço !

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  2. Precisamos acreditar que cansarão do ridículo verde amarelo a que expõem cores que foram tão caras e identitárias, nalgum momento e, os mandantes patriotarios do poder financeiro terão que curvar-se ao efeito Democrático das eleições, do mundo acenando as Liberdades civis e nosotros corroborando , com um sentimento que poderíamos Ser, nós Brasis de toda a gente brasileira, mais que facistoides alimentados pelos pastos de agropredadores da vida saudável…

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