O ERRO DE SATANIZAR A POLÍTICA

A violência é sempre a destruição da política” (Hannah Arent)

Me dei conta que, nesta semana, estive muito mais disposto que antes. Mesmo já velho, entendi que muito ainda tenho por fazer. Fiquei mais leve, madrugando, mais alegre com os dias. Só agora, percebi que o pesadelo acabou e por isso estou melhor.

Reparo que até domingo último de outubro passado eu estava muito triste, vendo o mundo sem perspectivas. Mas não me dei conta, na contagem dos votos, que o pesadelo tinha acabado. O Verme podia resistir, mas foi atropelado pelo caminhão que pedia passagem na resistência insana e antidemocrática à moda do fascismo em que vivíamos. O caminhoneiro passou o bloqueio levando abraçado ao para-brisa um “já ir embora” que, enquanto era, nos assustava a alma democrática.

Foi uma eleição difícil porque não só se usou a máquina do estado, soltaram dinheiro atropelando a legislação eleitoral, comprou-se voto na promessa de um auxílio que iria acabar, a Polícia Federal fez bloqueio no Nordeste tentando impedir eleitores chegarem as urnas, as instituições não impediram o comportamento criminoso do governo aliciando eleitores num claro assédio eleitoral.

Justamente por termos instituições frágeis, o pesadelo se tornava mais intenso. Os crimes cometidos à luz do dia, pelo suposto presidente que ainda faz que governa, jamais foram cogitados para um impedimento do facínora por uma fidelidade canina do Procurador Geral da República (que assim se torna criminoso também) e pela subserviência de um parlamento comprado por um orçamento secreto (nunca impedido como inconstitucional).

Portanto foi uma eleição roubada por quem perdeu. Soa esquisito, mas assim se deu. Com pastores empurrando ovelhas para o matadouro, e uma liderança, chamada de mito, com a pele de um antissistema criado pela mídia, que demonizou a política para prender Lula, prisão aceita pelo medo de um judiciário ameaçado por um militar moribundo. E por um Congresso conivente, quando o Verme ameaçou Dilma em nome do pior torturador e exaltou a ditadura de forma impune. Saísse dali preso, não teríamos vivido o pesadelo.

“Mas a diferença foi pequena”, argumentam os céticos sobre a vitória acachapante contra o roubo, o suborno, o uso descarado da máquina pública. Pequena porque a pecha de anti-sistema aplicada ao fascista pegou. E uma multidão de abandonados da política, denominados “patriotas”, usando ilegitimamente a bandeira como se a pátria fosse um partido, atenderam aos seus instintos mais primitivos (parafraseando “Kid Jerfferson”) estampados no espelho da liderança mítica autoritária. E foram votar para salvar sua pátria confundida com seus preconceitos de homem de bem, em consonância com seu desprezo à política. Felizmente os politizados ganharam numa frente que juntou esquerda, centro, parte da direita, a rede Globo, o tal PIG e “que tais”. Como diria Paulo Freire, juntaram-se os divergentes para lidar com os antagônicos. E o mundo mítico caiu.

Daí eles demonstram a incompreensão política. Se meu partido é o Brasil, eu não posso perder. Vale qualquer coisa para manter os corações desamparados pela política. O desespero dos que rezam, dos que choram, dos que bloqueiam estradas, dos que pedem uma intervenção militar, dos que marcham tontos sem destino algum.

Bom, já sabemos que a morte da política traz a violência no lugar de argumentos. E essa violência é combustível do fascismo. Portanto é preciso evitar que o mal retorne.

E isso só é possível com a punição do criminoso que espelha sentimentos sórdidos de uma multidão apolítica. É preciso dizer para eles que não há liberdade para colocar em risco a liberdade do outro e que a punição é necessária para que se pague pelo erro.

Parabéns ao caminhoneiro que nos deu uma lição exemplar. Saímos do bloqueio causado pelo pesadelo com o caminhão em movimento atropelando o suposto presidente que espelha vontades apolíticas e liberdade para nossos preconceitos. O patriota atropelado pelo caminhão parece que se arrependeu: “meus filhos riem de mim e minha mãe me chamou de otário”. Caiu na real na marra! O mito que o inspirou merece cadeia.   

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desenho: Gervásio

Um comentário em “O ERRO DE SATANIZAR A POLÍTICA

  1. Acho também que temos que nos habituar a chamar a coisa pelo nome: extrema direita Assim, a luta que se avizinha a partir de agora deve ser chamada pelo que é: o combate diuturno contra esta extrema direita que desembarcou no Brasil definitivamente em 2018 e que saiu das eleições com milhões de votos. De agora em diante teremos que nos acostumar ao combate contra esta extrema direita como já acontece em muitos países . Vai ser difícil, melhor já começarmos a chamar a coisa pelo nome porque Bolsonaro é só um nome entre todos os outros que estarão dispostos a tudo !

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