O GADO MUGE E ACOMPANHA O CARRASCO AO MATADOURO

Com todo apoio de ampla representação da sociedade em defesa da democracia, o que faz a extrema-direita, representada por um político tosco, asqueroso, mentiroso, misógino, homofóbico, racista, omisso e responsável por dois terços das mortes na pandemia, ter quase a metade das intenções dos votantes de Pindorama? O apoio dos ricos e da classe média, cão de guarda da elite, não explica esse placar. É preciso ter voto no meio do povo, das parcelas mais pobres da população para se alcançar um patamar inimaginado por muitos de nós. Os atingidos pela tragédia econômica e do desemprego votam no seu algoz. Como explicar?

O plano de construção de um líder da extrema-direita Tupiniquim parece bem sucedido. As redes sociais foram o fio condutor da construção da liderança apequenada, mas eficaz.

Primeiro tem o “politicamente correto”. Tudo que esse líder não é, porque o politicamente correto constrange o “espírito brincalhão de nossa gente” e está atrelado a pautas identitárias não absorvidas nesse seguimento. Além dessas pautas serem identificadas à esquerda, numa gente que teme um comunismo inexistente e se identifica ao termo político de “direita”, antes impronunciável, mas que saiu do gueto e ganhou adeptos imediatamente. Ser de direita é ser patriota, pela família e ter valores cristãos contra a esquerda.

Nova surpresa no armário foi o combativo conservadorismo do brasileiro médio. Um conservadorismo atrelado a Deus, Família e Pátria, mas com a permissividade de ser burlado no escuro das devassidões cínicas, pelos canalhas que muito se parecem ao mito, assim nomeado. Religiosos com inimagináveis perversões; família submetida ao patriarca e suas (seus) amantes; patriotismo como refúgio dos ladrões do dinheiro público. Nada disso assusta a nossa gente, que se estivesse no lugar do político em quem vota faria o mesmo. Em nome da moral, os maus costumes. O mito é apenas o espelho da manada.

Do lado da construção da liderança de extrema-direita, a compreensão do vocábulo pós-verdade parece ter sido muito bem-sucedida. Pós-verdade não é apenas uma fake News. Pós-verdade é uma narrativa que atende às crenças e emoções a quem é endereçada, sem compromisso com a verdade. Se ouço uma narrativa próxima ao que acho, sem nenhum comprovativo de verdadeiro ou falso, facilmente sou preso a essa narrativa e ela se torna uma verdade inquestionável. Nesse quesito o discurso da extrema-direita foi altamente eficiente.

Outro enunciado que não tem eco no nosso homem comum é a noção de igualdade. Nessa sociedade fundada na escravidão sempre quero me diferenciar do outro. Daí a noção do outro sem direitos, do outro necessitado, diferente para que eu tenha identidade. Também o homem comum não se sente igual aos povos originários. Concorda que tem muita terra pra índio, e não o sensibiliza o incêndio da floresta, sua invasão pelos bandidos do agro, madeireiros e garimpeiros ilegais.

A mídia, para tirar a esquerda do poder, forçou o conceito de criminalização da política e alimentou o surgimento do político antissistema. O Jornal Nacional jorrando corrupção em tubulações na Lava-Jato ficou na memória do povo. Não agiu dessa forma contra o escândalo do “orçamento secreto” que, apesar de ser muito maior do que o “petrolão”, soa como insignificante ao lado deste.

Nessa altura do campeonato ter eleitores indecisos é uma amostra da insignificância da política para muita gente.

Nesse contexto, a esquerda pregou no deserto de almas simplórias e já absorvidas pela pós-verdade da extrema-direita.

Só um remédio salva futuras gerações, já dando essa por perdida: a educação. Só a educação explica que raça não existe, podendo extinguir a noção de racismo; só a educação nos dá tolerância para entender o desejo do outro, diferente do nosso; só a educação pode mostrar que o Estado laico é a garantia da harmonia entre as diferentes religiões; só a educação nos faz cidadãos, na verdadeira acepção do termo, para aceitarmos a igualdade e o respeito à liberdade das minorias como quer a democracia. Tente explicar porque, segundo pesquisa recente, 79 % do nosso povo prefere a democracia como regime e quase 50% escolhe o autoritarismo e a promessa de rasgar a constituição do tosco, asqueroso, misógino, homofóbico e genocida nas pretensões de reeleição do atual presidente? Ele não está enganando ninguém. Não querer ouvir é o problema.

No próximo dia 30 teremos a disputa entre democracia e autoritarismo. Se a democracia ganhar teremos que enfrentar ainda o esperneio do Verme e seus apoiadores. Se não porque o exército deixou para janeiro o veredito sobre as urnas? Não basta ganhar no voto, ainda teremos uma resistência do autoritarismo pela frente. E se ainda assim ganharmos não abrimos a porta do paraíso, apenas fechamos a porta do inferno para respirarmos melhor e traçar uma estratégia para o próximo governo.

Aí eu apostaria todas as fichas numa educação de qualidade retomando Paulo Freire. É preciso um banho de educação no nosso povo junto com a comida e o emprego. Não basta formar consumidor, é preciso forjar cidadania, que só a educação pode fazer. É preciso um SUS e sua capilaridade na educação pública. Com o governo federal elaborando políticas a serem aplicadas nas escolas de forma descentralizada, que atinja com universalidade, equidade e integralidade as faixas educacionais do básico e fundamental, à escola técnica e à universidade.

E mesmo na mais otimista das propostas é preciso nos prepararmos para a volta da extrema-direita. Ela veio para não nos deixar dormir.

Se na possibilidade de ela ganhar no dia 30, perderemos um país. Só temos duas opções. Ou ganhar, ou ganhar.

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desenho: 1000TON

3 comentários em “O GADO MUGE E ACOMPANHA O CARRASCO AO MATADOURO

  1. nunca uma revolução se faz tão necessária. pensar que o voto vai resolver nossos dilemas, é pensar como o dominado que confunde o trem que arremete contra si com a luz no fim do túnel. e já agora, a incompetência ululante dos ” marqueteiros ” do lula , levando um baile dos bolsoratistas – sim, os ” argumentos ” são sórdidos até não poder mais mas de uma eficácia onde até o humor se fez presente, ao contrário da campanha do lula completamente perdida, a ponto de engendrar uma peça com crianças de texto canastrao, sem nenhum pingo de verdade ou mentira percuciente, para responder a ” peça naturalista” do bolsorato que na reta final soube utilizar como ninguém os meios de comunicação. ora, um candidato que não sabe operar signos, semióticos e semântica na batalha presente ( e que ainda se deixa embaralhar por um tosco que não vai além do ” letreiro” ) merece ser presidente? lula e o pt mais perdidos que cegos em tiroteio forneceram as armas que o inimigo não se intimidou em usar.

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  2. Excelente artigo, caro Edmar! Sobretudo quando você sublinha a importância da Educação . Sim, educação pública de qualidade é a única defesa que poderemos ter contra o obscurantismo e o fascismo que tem procurado ferir de morte a nossa frágil democracia! Talvez estejamos pagando um preço muito alto por não termos enfrentado corretamente e com coragem a luta pela democracia . E a educação é com certeza a única e definitiva arma que pode derrotar esta extrema direita que surgiu muito silenciosamente em meio às ruínas deixadas pela segunda guerra. Neo fascismo ou seja lá o que for isto , só a luz da educação de todos pode derrotar as trevas que rondam nosso horizonte atual!

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