PRECISAMOS VOLTAR À DEMOCRACIA

“Esta ditadura reduz a inteligência coletiva do Brasil. (…) O ditador conseguiu impor um comportamento idiota em um país muito inteligente. Porque é isso que fazem as ditaduras” (Domenico De Masi)

Completaremos quatro anos em que não houve governo no Brasil. Cumprindo promessa de campanha, Bolsonaro destruiu a inteligência da máquina institucional; procurou incessantemente minar os poderes que garantem a democracia – chegando muito próximo de conseguir o intento; almejou um golpe – aliado a militares subornados com vantagens financeiras – todo o período em que esteve no governo e ensaiou – o quanto pôde – exercer o poder autoritário de um ditador moderno, que chegam ao poder por eleições.

As Instituições, às vezes sucumbiram ao desejo autoritário, mas – principalmente no judiciário – houve resistências que impediram a consumação. O Parlamento – de maioria governista e comprado com o orçamento secreto – não impediria o assalto autoritário, apesar de discursos que defenderam a democracia.

Tivemos assim, não a governabilidade da nação, mas um ensaio autoritário que a próxima eleição pode tentar barrar, principalmente se Lula – representando uma frente democrática – ganhar no primeiro turno. Não é uma garantia contra o golpe moderno, mas dificultará bastante a proposta autoritária, o que já é um avanço na condição que nos encontramos.

Para muitas pessoas, nas quais eu me incluo, o retorno à democracia é quase como o ar que nos permita respirar e que nos foi negado na pandemia e durante todo esse período. O pensador italiano Dominico De Masi nos alerta que esse ensaio autoritário de quatro anos nos impôs um comportamento idiota e reduziu a inteligência coletiva. E isso nos faz sentir completamente embotados, como se nos faltasse o ar do conhecimento.

Ter que discutir, ou mesmo só ouvir que existe, uma defesa de que a terra é plana e de que o criacionismo pretende se contrapor a uma teoria da evolução é como se regressássemos à idade das trevas em pleno século XXI. Ver ressurgir como por encanto um movimento irracional de antivacinas e um conservadorismo orgulhoso em defesa da família, da religião e da Pátria é constrangedor quando os amorais, os patifes e os canalhas quase sempre se refugiam na estruturação familiar conservadora, nos templos que iludem uma população aflita e no patriotismo que junta as bandeiras de Israel e dos EEUU para adoração, respectivamente.

Os preconceitos afloraram e voltamos a ter que discutir misogenia, homofobia e racismo, quando estas já pareciam questões, se não resolvidas no século passado, superadas no avanço do pensamento científico. É inimaginável que elas ressurjam para a pauta de costumes quando pensávamos que tinham sido, senão removidas da sociedade, ultrapassadas pela vanguarda do pensamento civilizado.

Pior foi o ódio despertado pela falta de argumentos que nos dificulta usar uma roupa vermelha, colar um adesivo de nossa preferência na janela ou ousar discordar do discurso de adoração ao que chamam de mito, resultado em agressões físicas descabidas. Ontem, no Recife uma janela foi quebrada a tiros apenas por ter uma bandeira do PT. Já tivemos mortes por intolerância política. Como se a idiotia tivesse vencido a inteligência por bem ou por mal.

Esses quatro anos que se completam em dezembro foram assim. Faltou-nos o ar do conhecimento.  Vivenciamos uma tentativa de negação do processo civilizatório.

Chega! É preciso abrir as janelas! Precisamos de um pouco de ar que perdemos na pandemia e nesse pandemônio irracional autoritário. Basta! Precisamos deixar o mundo evoluir. Quem não acompanhou que estude, que se recicle, que tente acompanhar. Deixar a terra rotacionar em seu próprio eixo e em torno do sol numa espiral evolutiva. Os antigos já sabiam que não nos banhamos nas águas do mesmo rio.

Temos muitas questões pela frente, enfrentar novas pandemias com vacinas e sem as mortes desnecessárias. Que a Funai volte a proteger os indígenas, tiremos os garimpeiros, o boi e a bala de suas terras e as desmarquemos definitivamente. Protejamos as florestas evitando a morte de seus protetores naturais. O estado é laico para garantir respeito a todas as religiões. Que a inteligência volte às universidades, às instituições.

Precisamos de um pouco de ar que só a democracia nos permite ter. Essa eleição não é entre Lula e Bolsonaro, mas define um projeto autoritário – insuportável para muitos de nós – ou a democracia. Não podemos nos submeter à vontade de qualquer maioria. Democracia é o sistema político que na vontade da maioria garante a existência de qualquer minoria. Menos da minoria que quer destrui-la. É preciso saber disso para não acontecer outra recaída autoritária.

Vamos às unas com essa vontade de renovar o ar e deixar esses anos em que a inteligência foi submetida a uma burrice irresponsável para trás. Queria para sempre. Aperta o 13 de democracia nesse plebiscito. Deixemos as trevas no raiar do novo ano.

___________________________

desenho: Gervásio

3 comentários em “PRECISAMOS VOLTAR À DEMOCRACIA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s