A CIDADE VERMELHA E A REAÇÃO VERDE-AMARELA

Quando da pandemia escolhi Maricá, cidade do litoral norte fluminense, início da região dos lagos, para um isolamento voluntário. O bairro, Itaipuaçu, numa beira mar, ainda por ser isolado e perto do Rio. Apenas 60 km até a minha casa em Laranjeiras. Depois fui ficando, mas acho que já é hora de partir.

Após três administrações de esquerda, assisti à reeleição com quase 80 % dos votos do atual prefeito. Apesar de estar perto do movimento de extrema-direita, incensado por uma imprensa partidária, que elegeu Bolsonaro, era uma eleição diferente, a de Maricá. Ainda contaminados por uma onda antipetista, muitos eleitores contrários ao partido, souberam separar o prefeito petista de Maricá, pela boa administração.

Durante a pandemia o governo local criou um Programa de Amparo ao Trabalhador que pagou um salário-mínimo regional para garantir que o trabalhador, mesmo o autônomo, pudesse ficar em casa. Esse milagre foi possível com a criação de uma moeda social, o Mumbuca, com circulação local e pareada ao real, que se impôs com ampla aceitação no comércio local. Mesmo depois da pandemia, o Banco Mumbuca (nome de um rio e bairro da cidade) garante benefícios e penduricalhos ao salário do trabalhador. Tudo indica que o programa foi bem-sucedido e já é copiado por outras prefeituras. Não lembro de ter visto morador de rua em Maricá. O desempregado pode ser socorrido com o Mumbuca.

E na Cidade Vermelha, cumprindo uma promessa de campanha, a gestão atual instituiu os vermelhinhos, ônibus urbanos tarifa zero. Isso mesmo, são mais de trinta linhas com curtos intervalos no horário e sem engarrafamentos de pico, que ligam os pontos mais distantes entre os bairros, com ônibus gratuitos. E mais, aquelas bicicletas do Itaú, que se alugam nas grandes cidades, aqui são as magrelas vermelhas da prefeitura e se retira grátis por até duas horas, depois de um cadastramento no aplicativo. Gratuitas também. As vagas de estacionamento de carros na orla e nos setores comerciais custam dois reais por duas horas pagas e fiscalizadas por aplicativo moderno. Quem vai ser flanelinha quando se tem Mumbuca?

Na Saúde, até porque tenho atenção especial de ofício, a cidade conta com 54 equipes de Saúde da Família, alcançado a recomendação do Ministério da Saúde com 100% de cobertura. Não estando em casa, quando foi me feito uma visita domiciliar pelo programa, recebi um comunicado da visita, com o telefone da Agente de Saúde, me pedindo que ligasse se precisasse. Tenho um amigo aqui que tem plano de saúde, mas prefere se tratar no SUS pelo bom atendimento. Dois grandes hospitais públicos, um recém inaugurado durante a pandemia, o Hospital Municipal Dr. Ernesto Guevara.

Na educação tenho notícia que a inclusão de crianças especiais em turmas comuns se faz com uma acompanhante nas escolas públicas para CADA criança especial. Isso sempre foi o sonho de quem pensou uma educação inclusiva. Como são poucas as escolas particulares, parece que o município tem um bom programa de educação e creches.

A cidade vem passando por renovação de avenidas e estradas, com ciclovias e pistas para caminhada, além da construção de praças em vários locais com atenção para a criança e o idoso.

E o que um observador desses avanços pôde interagir com os moradores locais? Quebrei a cara. Porque na minha chegada elogiando a cidade recebi respostas dos insatisfeitos. Juro que quase não encontrei satisfeitos. Num primeiro momento culpei o meu pequeno entorno. Mas não, quanto mais me movia mais críticas ouvia de insatisfeitos com a cidade. Só num outro momento me achei numa cidade vermelha, habitada por verdes-amarelos bolsonaristas não diferentes de onde vim. No Rio, Lula empatar com Bolsonaro já é lucro. E por que o PT ganhou a última eleição para prefeito em Marica, se a onda de extrema-direita já acontecia? Parece que há um reconhecimento de que as coisas boas são do prefeito e as coisas ruins, do partido. Ou ainda, repetindo a tendência nacional, foram os muito pobres e pobres que abandonaram Bolsonaro; a classe média e os mais ricos, meus interlocutores maiores, são de direita irremediavelmente. E os pobres já sustentavam a Maricá vermelha que, quando melhoram de vida, abandonam a esquerda, num paradoxo só compreendido pelo racismo estrutural de Jessé de Souza.

Mas o que podia se falar de programas que achei maravilhosos? Bom, a Mumbuca é culpada por não se encontrar mão de obra na cidade. Mão de obra barata, claro. “Todo vagabundo agora tem renda“. Dos vermelhinhos, tarifa zero: “são uber para os pobres, vazios, gastam um dinheiro publico levando quem não tem o que fazer para passear na cidade. Estão dificultando a vida dos motoristas de táxis e de aplicativos”. Na saúde reclamam da dificuldade de falar com o médico. Não se reconhece o trabalho da enfermagem e do agente comunitário como parte da saúde da família. Da escola falam que o jovem depois não tem continuidade, o que é verdade, mas não é papel do município (sempre defendi um SUS na educação). Chegam a falar do alcaide como “prefeito-pracinha” por sua mania de intervenção urbana. Ciclovias que atrapalham o trânsito; praças, que segundo os críticos só servem para juntar desocupados.

Num restaurante popular se toma café por um real e se almoça por dois. Comentário que ouvi: “só se precisa de dois reais para viver um dia, já que para chegar no restaurante popular tem o vermelhinho grátis. Quem quer trabalhar?”

Conheci uma cidade que tem um número absurdo de Clubes de Tiros ou Ranchos, tipo texanos, de haras e restaurantes, bolsonaristas embandeirados de verde-amarelo nas fachadas das casas, uma memória viva de “Lula ladrão” e “PT nunca mais”, num mantra fabricado há quatro anos, apesar da inocência de Lula reconhecida pela justiça e da cuidadosa administração petista do município.  

Muito recentemente o município fez um acordo com Cuba para fabricar uma vacina contra o câncer de pulmão e um contrato com os chineses para uma usina termoelétrica que chamará indústrias para a cidade. Imagino o ódio bolsonarista a essa escolha “comunista” Cuba/China. Mais um motivo para os do contra crescerem.   

Só posso entender que estamos submetidos a um racismo estrutural que só será extinto pela educação de gerações e uma real democratização da cidade com conselhos de bairros funcionais e eleitos regularmente com influência no orçamento. Claro que pode ser um tiro no pé e Maricá seja forçada a recuar dos avanços alcançados. Mas é isso, a democracia só tem efeitos duradouros com uma velocidade mais lenta, onde se é possível convencer o resistente, que aqui são muitos.

Senão assim, só uma revolução, que não está no nosso horizonte. Maricá detém um paradoxo interessante nesse Brasil em que floresceu o conservadorismo. É preciso aproveitar esse paradoxo para politizar a cidade e seus moradores. 

2 comentários em “A CIDADE VERMELHA E A REAÇÃO VERDE-AMARELA

  1. ” deixa de ter alma de pobre” , fala de eduardo paes ao lula, quando este escolheu maricá para passar uns dias. e isso já explica um pouco o aparente paradoxo dos que favorecidos pela administração reclamam com? e sem razão. mais acertada deveria – fala de eduardo paes – ” deixa de ter alma de rico”.

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  2. Triste pensar que a reação verde amarela chegou à Maricá no meio de um trabalho tão bonito como a prefeitura de lá tem feito… Como você citou o Jessé eu me lembrei de algo tão importante e belo que li lá no final do livro dele sobre o racismo brasileiro. Falando sobre o que os alemães aprenderam , ele diz que é possível se orgulhar do fato de ninguém soltar a mão de ninguém, se orgulhar de universalizar as chances de vida para todos ! Eu, de fato, ando duvidando se um dia os brasileiros conseguirão chegar lá…

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