A PERMANÊNCIA INCÔMODA DO BOLSONARISMO

Bolsonaro até pode se despedir da vida pública depois dessas eleições e nunca mais voltar. Devia, inclusive ser impedido pela justiça pelos muitos crimes cometidos. Mas o bolsonarismo permanecerá entre nós de maneira incômoda e duradoura.

Chamamos aqui de bolsonarismo, essa massa amorfa, conservadora, preconceituosa, inculta, pseudo-religiosa de extrema direita por falta de nomeação melhor e por ter sido despertada para a ação política nas eleições de 2018 votando em Bolsonaro. Ela tem maioria masculina, branca, de classe média, mas é encontrada em mulheres, negros, pobres e ricos indistintamente, beirando aos quarenta por cento dos votantes, vivamente revelada se tivermos, esse ano, segundo turno para presidente. Por que é lá, na opção entre Lula e Bolsonaro que ela será obrigada a se revelar sem esconderijos entre terceira via ou candidaturas que parecem insossas, tipo Amoedo. E, entre os dois, considere-se voto em branco ao bolsonarista sem Bolsonaro.

Certo que essa massa amorfa estava entre nós a bem mais tempo do que possamos imaginar, cevada (no sentido de alimentada e conservada) pelo racismo estrutural que nos acompanha desde a escravidão, como quer Jesse de Souza. Aparecia naquela piada de preto, num machismo “brincalhão” sobre mulheres ou gays, em que ríamos todos da gracinha, mas não era a vero – dizíamos para nos enganar. E que parecia não se sustentar quando falávamos “a sério”.

Ser conservador não era uma declaração bem aceita quando ainda estávamos saindo ou recém-saídos da ditadura militar, na lembrança viva de um Deus, da Pátria e Família que tinham matado e torturado muitos brasileiros. Na medida em que nos afastávamos dessa lembrança fomos mais tolerantes com quem se dizia conservador até chegar a ser uma qualidade exaltada nas propagandas políticas de agora. Mesmo antes, uma pauta conservadora não evocava esse adjetivo. A classe média apoiou a ditadura militar, mas quando viu seus filhos morrerem nas mãos dos torturadores ficou contra. Como classe divulgadora de opinião, foi preciso esquecer a ditadura militar para voltar a ser conservadora orgulhosa.

Entretanto foi necessário um Olavo de Carvalho para chamar atenção de um “marxismo cultural”, acusação baseada em Gramsci e sua proposta de ocupação de espaço nas instituições pela a intelectualidade de esquerda, para que intelectual quase fosse sinônimo de “comunista”. Ao mesmo tempo ressuscitou um comunismo infantil do tempo em que “comia criancinha” durante a guerra fria e suas histórias espalhafatosas. Tal comunismo, que nunca existiu por aqui, foi “identificado” principalmente nos professores, estendido aos servidores da inteligência da máquina pública, e tornado o inimigo público a ser destruído.

Nessa conjuntura foi como tivesse saído de onde estavam escondidos e se revelaram à luz do dia o tiozão do churrasco e suas bebedeiras, agora tomadas de opinião de direita; a tia tornada defensora dos conservadores e religiosos; o vizinho que via comunistas nos corredores do condomínio juntos com maconheiros; o colega de trabalho, que de subalterno tornou-se arauto da burocracia e defensor da chefia; a manicure, especialista em ladrões do erário público; o frequentador do bar, defensor do porte de armas para resolver questões de legítima defesa; o taxista, especializado em identificar o comunista corrupto; o caixa do supermercado irritado com pedintes que “não querem trabalho”; a dona de casa incomodada com os que moram na rua.

Essa metamorfose perceptível de direita aconteceu no curto espaço de tempo da segunda eleição da Dilma, grudada no Aécio e na não aceitação do resultado eleitoral até o apogeu de ganhar o poder com Bolsonaro, ajudada por uma mídia que destruía um partido de esquerda colando nele a culpa pelo desvio de dinheiro público na corrupção, culminando com a prisão de Lula, depois demonstrada que foi uma farsa armada e sustentada pelas elites desse país.

Sob o governo Bolsonaro (ou falta dele) consolida-se a crença de que a ignorância pode ser ostentada com orgulho; o saber é apenas uma opinião que pode ser combatida; todo o racismo estrutural recalcado retorna numa política do ódio incontido; as armas são disparadas na falta de argumentos; o conservadorismo e a apologia familiar esconde o depravado; a religião torna-se a defesa do patife; o patriotismo, o último refúgio do canalha, como disse o literato inglês Samuel Johnson ainda no século XVIII.

A mídia não sabe o que fazer e parece arrepender-se de criar o monstro. Bolsonaro foi só o disparador ao poder dessa massa amorfa, conservadora, preconceituosa, inculta, pseudo-religiosa de extrema direita. Ganhou voz e reivindica espaço. O racismo estrutural se apresenta como o retorno do recalcado. Sem ter consciência do que é, só será vencido pela educação de futura gerações. Quanto a nós, somos condenados a conviver com este pesadelo.

Ou, – toc, toc, toc, esconjuro, pé de pato, mangalô três vezes – se o demônio for reeleito estaremos no inferno literalmente…  

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desenho: Gervásio

3 comentários em “A PERMANÊNCIA INCÔMODA DO BOLSONARISMO

  1. Caríssimo

    Nada a acrescentar ao seu brilhante texto! Chegamos até aqui, tão imperceptivelmente que apostamos com uma certeza incrível que não seria possível existir no Brasil uma força política tão poderosa e obscurantista como esta direita revelada em verde amarelo como ela se apresenta hoje. E o verde e amarelo parece estar aí para nos obrigar a abrir os olhos novamente e reconhecer que estas cores pedem passagem e não é só pra comemorar o 7 de setembro !
    Obs: também! toc toc toc , esconjuro mangalô três vezes !!!

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  2. enquanto o entendimento disto permanecer no ” rol dos letrados” vamos conviver ( ou ser dominados por isto ) por tempo demais. o grande problema da esquerda ou das forças progressistas neste país é não saber – ou não querer ? – levar o entendimento do processo de aniquilação destas mesmas “forças progressistas” ou de resistência a massa despertando nela o desejo de libertação, inclusive do tutoriado destas mesmas forças progressistas. sem o entendimento da massa dos processos de sua dominação jamais sairemos disto. e artigos como este não sairão de um círculo cada vez mais restritos e esteteis, pois sem a capacidade de multiplicação de forças. é preciso urgentemente fazer o trabalho de base. sair dos blogs e ir para as biroscas das periferias fazer o assunto ser a conversa ou ” a cachaça” do dia e noite.

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