CORAÇÃO MACABRO

Numa das vezes que estive em Lisboa fiquei hospedado no Bairro Alto, que à noite vira uma espécie de Lapa portuguesa, com fado a toda esquina. Na rua que estava hospedado, um restaurante era meu pouso das horas vagas. Uma comida excelente (lembro aqui o polvo à lagareira insuperável), um “imperial” (como se chama o chope por lá) bem tirado e gelado. Pelo tempo que por ali passava, tornei-me conhecido do dono ou um gerente do local (não sei bem sua função, mas era de mando). Trocávamos algumas palavras, que o tempo gasto me fê-lo conhecer melhor.

Seu maior feito na vida (tinha o prazer em contar) era ter participado ainda como militar (agora estava aposentado) da equipe que fez o translado das exéquias de Pedro IV (lá o nosso primeiro é o quarto) do Porto para o Brasil. O fato ocorreu nas comemorações dos 150 anos da Independência do Brasil, no ano da graça de 1972. Contava com detalhes o voo oficial, as cerimônias no Brasil, o périplo por várias capitais do país e o enterro no Monumento à Independência em São Paulo, no Museu do Ipiranga, local onde teria se dado a Independência. Sabendo que eu era brasileiro, essas histórias ganharam uma versão em capítulos, com novos detalhes, sempre que eu fazia hora no restaurante.

Para que o assunto não se esgotasse em novidades, enquanto durassem minhas visitas, o entorno da história foi surgindo espontaneamente. E o saudosismo sofrido do salazarismo surgia, enquanto ridicularizava a Revolução dos Cravos como traição e se queixava de uma democracia que favorece aos ladrões. Quando passou ao outro lado do Atlântico, a exaltação da ditadura no Brasil me fez mudar de ponto de passar as horas. Estávamos em bons anos democráticos e pensava no meu confidente como uma anomalia de um passado morto e enterrado.

Não tinha a menor noção de que estava redondamente enganado. O mundo estava planificando o retorno do que fora recalcado pela “intelligentsia” das esquerdas e suas teorias arrogantes.

O Neoliberalismo trouxe com ele a exaltação do individualismo, a falsa noção de empreendedorismo, liquidou quaisquer resquícios da proteção aos direitos sociais pelo Estado, reativou conceitos de raça e intolerância, reorganizou noções de um conservadorismo bíblico criacionista, favoreceu a patriotismos conservadores excludentes, semeou o ódio entre os desiguais. Com isso refundou uma extrema-direita que parecia impossível após o trauma do nazifascismo e o mundo retrocedeu na escala civilizatória, chegando em alguns países a imprevisível situação da democracia eleger líderes autoritários num paradoxo que pode estar provocando a própria morte da democracia.

O protótipo do homem de extrema direita estava lá em Lisboa há uns dez anos falando comigo e eu sem querer acreditar no retorno das exéquias do autoritarismo de plena ditadura militar que vivi aqui desesperadamente. Não deve ser à toa que é nesse momento em que temos o nosso governo de extrema-direita que o coração de Dom Pedro atravessa o Atlântico atrás do seu corpo como um presságio macabro.

Conservado em formol desde a morte precoce por tuberculose aos 35 anos, o coração de Pedro saiu do Porto para Brasília em mãos me militares saudosos da ditadura. Vão adorá-lo e expor ao público uma peça litúrgica de um santo que teria se sacrificado pelo Brasil. Mas o que os autoritários festejam é o nascimento do Império e não nossa Independência. Como fizeram ao corpo há cinquenta anos.

Ainda bem que o coração macabro volta à Capela-Mor da Igreja de Nossa Senhora da Lapa em Porto, Portugal logo depois do 7 de setembro. Que não inspire aventuras autoritárias enquanto aqui estiver. E que por lá fique, como queria o próprio Dom Pedro.  

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desenho: 1000TON

2 comentários em “CORAÇÃO MACABRO

  1. Bem que procurei um adjetivo para essa coisa de trazerem o coração do Imperador.

    Macabro. Arrepiante. Repulsivo. Doentio.

    Nada disso. É apenas oportunista. Como, de resto, tudo o que sai desse governinho irresponsável e medíocre. No subtexto fica muito clara a opção pela morte. Em momento algum, desde a posse desse sujeito, celebrou-se a vida. Tudo, mas tudo mesmo, da liberação das armas ao combate às vacinas, da devastação da Amazônia ao elogio à tortura, tudo só remete à morte, já perceberam?

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    1. .D. Pedro deve estar pensando na letra de GOTA D’ÁGUA: Deixe em paz meu coração. Ele é um pote até aqui de mágoa. E qualquer desatenção. Faça não. Pode ser a gota d’água.

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