O GENOCÍDIO DOS POVOS ORIGINÁRIOS

O desaparecimento de um jornalista inglês e um indigenista funcionário público deve chamar atenção para o genocídio dos povos originários que está acontecendo agora e não pode mais esperar.

O governo atual retomou o projeto de invasão da Amazônia do governo militar (“esse vazio de civilização” no dizer de quem não reconhece os donos da terra e fomenta sua extinção) e foi mais além, retirando o papel da FUNAI de defensora dos povos originários para transformá-la – sob nova direção de militares da reserva – em parceira dos invasores, fazendo uma “parceria público privada” com mercenários, madeireiros ilegais, garimpeiros predadores e traficantes de minérios, madeira e drogas ilícitas.

Beto Marugo, representante dos povos indígenas do Vale do Javari (UNIJAVA), local onde aconteceu o desaparecimento do jornalista e do indigenista, tem preocupação do que pode acontecer com a população que representa, já que eles dependem da proteção do Estado e receia que é o próprio Estado quem traz a ameaça que torna inseguro viver na região. Há denúncia de distribuição de bebidas alcóolicas a povos isolados para estrupo de mulheres e não raros assassinatos impunes. Esse contato perverso pode significar o fim do povo guardião da floresta.

Bruno Pereira, servidor público da nova geração de sertanistas trabalhando na ponta do sistema, apesar de ter recebido ameaças dos invasores, entrou no mato com o jornalista inglês para fazer um documentário do que estava acontecendo na região. Desapareceram sem deixar rastro.

Uma nota do exército brasileiro na região dizia que só iniciaria busca por ordem de escalão superior, denotando a paralização da força pública submissa ao mando do poder central. O presidente do país declarou cinicamente que os desaparecidos podem ser vítimas de uma “aventura não recomendada”, transferindo para as vítimas a responsabilidade do que lhes pode ter acontecido.

Os rios da região foram tomados por garimpeiros e tráfego de veículos de tráfico ilegal de cocaína e armas pesadas que vão abastecer os centros urbanos. O agronegócio rouba terras e junto a mercenários garimpeiros e ladrões de madeira forçam a fronteira das terras dos povos originários e toda essa ilegalidade é admitida pelo governo como ocupação legal da Amazônia com o efeito colateral do genocídio permitido dos povos da floresta e de sua inquestionável função de protetores da mata.

Segundo o jornalista Rubens Valente, que há tempos cobre aquela região, “onde o estado não aparece, outro tipo de poder violento vai se impor. É assim não só na Amazônia, mas em outras partes do Brasil, como nas periferias das grandes cidades. Na dita Nova Funai o Estado se encolheu.” Segundo o jornalista as forças armadas são reticentes em se fazer presentes quando solicitadas pela Funai. Hoje, os ladrões de madeira, de peles, de terras, os garimpeiros se sentem empodeirados, sabendo que sua atividade não será reprimida pelo governo.

A tolerância com bandidos – aqui no Rio de Janeiro sabemos bem no exemplo das milícias – leva a crimes com difícil esclarecimento e a impunidade gera outros tantos crimes.

O desaparecimento de Bruno e Don Phillips chama a atenção para o genocídio acontecendo em terras dos povos originários. Ne não pararmos essa barbárie, logo não teremos a imprescindível presença dos protetores da floresta.

E esse genocídio é uma obsessão desse governo. Desde a pandemia em que foram deixados para morrer, os sobreviventes dos povos originários enfrentam o ataque do crime organizado agindo sob a proteção de um governo determinado a aniquilá-los.  

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Desenho: Gervásio

Um comentário em “O GENOCÍDIO DOS POVOS ORIGINÁRIOS

  1. Acho que chegamos a um ponto onde não haverá mais retorno caso este monstro seja reeleito . Fico perplexa em ver o estrago promovido pelo neoliberalismo no mundo todo , especialmente nos nossos países antes chamados de terceiro mundo. De um só golpe desapareceu qualquer sentimento de culpa, de responsabilidade e de respeito aos diferentes. Porque ainda que possamos explicar porque Bolsonaro foi eleito , resta aceitar a realidade de que sim, este monstro foi escolhido para ser o presidente deste país . E sinceramente, isto é um sinal de que uma parte de nós, brasileiros, considera razoável que ele nos represente … é muito triste.

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