ARMAS PARA TODOS E O EXTERMÍNIO DELIBERADO DOS POBRES, QUASE TODOS PRETOS

Na matriz o filme se repete. Jovem completa dezoito anos, compra dois fuzis, atira na avó – que está em estado crítico – entra numa escola e abate 18 alunos e uma professora, ao tempo em que é abatido na fuga e morto pela polícia em rápida ação.

Como sempre, algum senador propõe a limitação de acesso às armas, mas uma maioria bipartidária não vê relação entre esses repetidos crimes e a facilidade do acesso à armamento em lojas de shopping. Ou enxerga mais o lucro que a fabricação desses brinquedos proporciona patrocinando suas candidaturas.

Por aqui, imitamos a parte ruim da matriz e as armas se multiplicam nas mãos da milícia e dos homens de bens registrados em clubes de tiros. O suposto presidente arma a população para garantir a liberdade (de atirar). Até um ex-ministro pastor evangélico atirou num aeroporto enquanto procurava a Bíblia na pasta de mão.

E nem precisávamos de matanças como já teremos imitando a matriz. Em Pindorama a polícia, desde que matava escravo fujão, é encarregada de matar pobres, quase todos pretos, mantendo as comunidades carentes sob estrito controle e coação violenta com a desculpa moderna de uma guerra às drogas.

Ainda ontem, com ordem explícita do governador, policiais militares e com o apoio da Polícia Federal adentraram na favela de Vila Cruzeiro no subúrbio da Penha para enfrentar possível suspeitos que se reuniram na comunidade, com a cumplicidade do STF – segundo o porta-voz da polícia. Como havia uma decisão de suspender essas incursões policiais (nunca respeitada) durante a pandemia, pelo Supremo, alegava a voz da autoridade policial, os bandidos fizeram uma festa e, mesmo os de fora, chegaram para a reunião do Rio de Janeiro.

Na madrugada a ação começou impedindo que os moradores saíssem para trabalhar. Como se fosse um burgo da idade média, as tropas policiais cercaram a favela e atiram em quem se mexia, tendo sido computado já 25 cadáveres, dentre eles uma mulher noutra comunidade, que uma bala perdida achou seu corpo negro mesmo dentro de casa. A justificativa foi que apenas uma vítima fatal era inocente e a maioria eram suspeitos de relação com o tráfico de drogas.

Basta senhores! Pelo menos sejam claros no seu objetivo: não é uma guerra às drogas como se anuncia na tv. É o extermínio da população pobre da periferia. Foram apreendidos 22 fuzis e 5 pistolas. No condomínio em que mora o suposto presidente foram apreendidos 115 fuzis e nenhum morador precisou ser morto. E a autoridade policial classifica a operação na favela como de “inteligência” na maior cara de pau.

Quando trabalhei na favela de Manguinhos vi algumas dessas operações e seus resultados: o meu trabalho era também consolar mãe que perdiam seus filhos para essa maldita guerra. E mães soluçando no meu consultório mostravam indignação porque o filho não era bandido. O meu trabalho sempre foi aumentar essa indignação: “que fosse, mãe, dizia eu – o Estado não tem o direito de matá-lo covardemente (quase sempre o que chamam confronto é execução). O Estado só tem o direito de prendê-lo para que seja julgado. O policial não é juiz e autor da pena de morte para esses jovens.”

Participei – ao meu modo – da guerra e também perdi. Me revoltei quando o Estado me usava para consolar mães desesperadas, para manter a situação sob controle, para amortecer a covardia dessas chacinas. Essas mães não precisavam de psiquiatra, mas de justiça.

Já me aposentei. A chacina continua, ontem, hoje, amanhã. Nunca foi uma guerra às drogas, mas o extermínio – pelo Estado – de populações marginais. Apenas um exemplo cruel de castigo para que fiquem sob controle.  

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Desenho: Antônio Máximo

2 comentários em “ARMAS PARA TODOS E O EXTERMÍNIO DELIBERADO DOS POBRES, QUASE TODOS PRETOS

  1. É duro, caro Edmar! Neste nosso país nos acostumamos a contar os mortos, os deixados pra trás. Nestas bandas acho que nos habituamos às tragédias que acontecem com os outros. A extrema direita só deixou tudo mais visível, mais escancarado !

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