UM PAÍS DOENTE

Logo que saiu a notícia do affair da namorada do trainner com o mendigo, lamentei pela exposição da moça. Talvez levado por minha prática clínica, onde conheci vários casos de psicose bipolar, repletos de comportamento extravagantes com repercussão social que culpabilizam a vítima, situação que necessita de intervenção terapêutica mais importante do que o surto original da doença.

Depois, o desdenhar do morador de rua revelou o profundo desconhecimento da sociedade sobre essas figuras humanas em que a riqueza interior de uma pessoa pode contrastar com papeis sociais aceitos por uma sociedade individualista e meritória. Conheci pessoas em situação de rua de uma riqueza intelectual invejável, que essa sociedade competitiva descartou por não se enquadrar em papéis reconhecidos.

Já agora, memes apareceram repletos de inveja machista, com o mendigo passando do deboche a herói da masculinidade. Já circula entrevista de rádio com o herói da hora, sendo dado voz e glória misógina com detalhes sórdidos; além de boatos (não me surpreendem se forem sérios) de políticos oferecendo legenda ao macho festejado.

Tudo isso afasta a preocupação com o provável transtorno mental da moça e a situação de vulnerabilidade também do morador de rua para evidenciar uma doença mais grave que atinge a sociedade desse infeliz país. O Brasil está muito enfermo. Nossa sociedade está padecendo de escrotidão aguda. Já deu no saco de cada um. Sintomas de machismo doentio, misogenia naturalizada, homofobia transversa, racismo estrutural e fundamentalismo conservador aliado a malcaratismo individualista moldaram um “homem de bem” absolutamente maligno.

É a esse “homem de bem” que todos devem ser sacrificados. Esse “homem de bem” doentio deseja contaminar para que alguns eleitos sejam como ele. Quem não aderir ou resistir à doença deve ser eliminado. Para isso as armas de fogo foram liberadas, as milicias incensadas, a polícia enlouquecida, as forças armadas atacadas de insânia para manter no poder a representação máxima desse “homem de bem”.

Bolsonaro é apenas a ideia desse “homem de bem”. Ela está entranhada em quase 30% da população. Mesmo que Lula ganhe essa eleição a insatisfação dos “homens de bem” continuará a adoecer essa nação. Os ovos da serpente já eclodiram e são muitas as serpentes que escaparam do controle da sociedade. Parece tarde.

A vulnerabilidade da moça com possível transtorno mental e a do morador de rua já não resistem a categorias sociopsicológicas do passado. Ela é imediatamente transformada em vadia e ele levado a assumir um papel que talvez nunca tenha pensado para si por estar à margem. Mas já foi moldado ao comando do “homem de bem”: esperto, bem-falante, que talvez assuma um personagem machista, campeão da virilidade que não possuía. E sob aplauso de uma sociedade doente num Brasil acima de tudo e Deus acima de todos sem nenhuma compaixão por nosso destino.

3 comentários em “UM PAÍS DOENTE

  1. Excelente texto! Nada acrescentar, só concordar . Estamos vivendo num país onde a fratura social é tal ordem que se expôs finalmente no que deu a ideia de que é possível conviver a riqueza consumista do supérfluo e a miséria de quem não entrou na cena perversa . Não há saída honrosa possível .

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  2. A doença do Brasil foi provocada por um mentecapto que insiste em dividir nossa sociedade entre o bem e o mal. Nao existe mal maior para uma Nação do que a divisão de seus súditos. Chegou a hora da resistência. Nao se pode negar a ninguem o direito à oportunidade e é o que está sendo apregoado. A continuar este estado de coisas dentro em breve teremos dois extratos sociais. Os muito ricos e os muito pobres. Lamentável.

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