NARRATIVAS DA HISTÓRIA. AINDA O TERROR DA VERMELHA

Acabei de receber da editora Cancioneiros o belo livro “História, sentido e acontecimento – narrativas” que logo identifiquei a capa num inconfundível desenho do meu amigo Antônio Amaral. Agradeço aos autores que tiveram a lembrança e muito me honra a consideração do envio do livro pelos correios.

O livro é organizado por Edwar de Alencar Castelo Branco, doutor em história da Universidade Federal do Piauí (que tive o prazer de conhecer da penúltima vez que estive na terra), Marcus Pierre de Carvalho Batista e Cassio de Sousa Borges. As narrativas são ensaios históricos no sentido, “tal qual uma bordadeira ou o passarinhar do passarinho, sai da tecelagem do tempo que os historiadores fazem e refazem incansavelmente” – como define um dos autores.

Claro que vou ler o livro com vagar e sem pressa como o passarinho que faz o ninho, mas dois ensaios me saltaram de pronto de dentro de suas páginas, e acho que foi por eles que me mandaram o presente. Trata-se do texto intitulado “Terror da Vermelha: corpo e subversão política” de Geraldo Blay-Roizman e “Arte como arma expressiva: reflexões de Torquato Neto sobre a identidade cultural brasileira” de Daiane Rufino Leal e Edwar Castelo Branco.

No primeiro, sobre o Terror da Vermelha do meu querido amigo Geraldo Blay, creio ser de um microrresumo de sua monografia ou tese acadêmica sobre o filme, que ainda não tive o prazer de ler. Conheci Geraldo no Rio de Janeiro, quando ele me telefonou para ficar em frente ao protagonista do filme em que ele se debruçara. Eu já velho e muito longe do menino que ele descreve tão bem como se o conhecesse à época. Fico impressionado com a quantidade de interpretações que já se produziram academicamente para falar daquele filme em super8 de 1972. Como se fossem vários psicanalistas tentando a cura do mesmo paciente, as descobertas são admiráveis. E como faço parte do objeto de estudo, procuro entender o que fizemos de tão importante àquela época que mereça atenção, mas não estou no papel de refutar as intenções misteriosas do meu amigo Torquato Neto. Estamos falando dele, não de mim.

Mas quero aqui destacar dois aspectos. O primeiro nem é abordado por Geraldo Blay, mas por outros historiadores que querem dizer que o poema VIR VER OU VIR, inserido no início do filme e que serviu de montagem (a emenda dos rolos de super8) ou roteiro do filme, teria sido feito antes da filmagem. Não é verdade. O poema foi feito depois que Torquato viu os rolos de filme aletoriamente e decidiu que eles se emendariam assim. E ele não chega a ver os rolos emendados, como são apresentados no filme (Carlos Galvão os emendou conforme descreve o poema). Isso tem implicação com um segundo aspecto, este da interpretação de Blay. O final cômico (“chapliniano” – no dizer do autor – “como negatividade de tudo o que veio anteriormente”) foi filmado por Arnaldo Albuquerque (quase toda filmagem é dele) apenas para acabar o rolo porque tínhamos pressa em vê-lo. A cena de brincadeira não faz parte do filme. Assim como “uma ponta de filme – calças amarelas, quarto número seis sete cidades” do poema foi uma filmagem acidental. Se a última ponta está no poema, este não se refere à cena “chapliniana”. É só um esclarecimento para a história. Quem sabe Torquato a deixaria nessa intenção? Não temos a resposta.

No ensaio sobre “Arte como arma expressiva” os autores se debruçam sobre artigos culturais publicados em um jornal de Teresina quando Torquato tinha 23 anos. A série de artigos de Torquato são de fevereiro de 1964, antes do golpe militar que flexiona a vida de muito de nós. O movimento Armorial de Suassuna, com o qual os autores fazem uma ponte louvável com o Torquato jovem não sofreu a ruptura política em 64. E essa inflexão vai distanciar o Torquato (que eu conheci) de Suassuna num espaço tendendo ao infinito.

O texto me levou a considerações a respeito da nossa relação com Torquato e me ajudou muito. Quem pensava como o jovem Torquato quando ele nos encontrou, éramos nós. Estávamos presos àquelas questões retratadas no ensaio e Torquato ajudou a nos afastar daquilo que ele tinha se afastado. Quando o conhecemos, ele já tinha 27 anos (morreria aos 28) e nós vinte e um, dois. É esse Torquato maduro, que via na arte da contracultura a armadura contra a ditadura e não mais a arte popular como identidade cultural (essa era ou deglutida – como o foi por um bom tempo Suassuna – ou liquidada ao nascedouro). Era preciso encontrar brechas na ditadura para resistir. Claro que Suassuna resiste à deglutição e muito mais tarde vai se impor com seu movimento armorial, afastando-se do nacionalismo cultivado na ditadura. Torquato, me parece, nem tinha tempo para tanto e o movimento que ele incorporou tinha urgência. E ele vai pegar o seu pensamento anterior para a diluição necessária nas canções. Também o Cordel não é abandonado por Torquato e sua famosa coleção explica a importância que ele dava ao fato. Mas são dois Torquatos que se enfrentam pós-ditadura. O maduro tinha que comer o yê-yê-yê e vomitar o bumba meu boi. Antropofagia & modernismo, isso era o Torquato da Navilouca.

Entretanto, essas escrituras ajudam ao entendimento daqueles tempos e agradeço aos autores permitirem que eu conheça seus estudos. Como já tive oportunidade de dizer, memórias são esfumaçadas pelo tempo e afetadas por sentimentos inquietantes que carregamos, enquanto nos afastamos da cena que tentamos recriar. O fato nunca é alcançado pelas versões dos participantes e a única versão que se impõe ao fato são as escrituras dos estudiosos interessados se alguns atos banais afetaram, de alguma forma, a construção da história que tracejamos enquanto vivemos.

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