E SE APERTAREM O BOTÃO DA INSANIDADE?

O fascismo é a experiência colonial trazida de volta à Europa”

(Aimé Césaire)

Não entendo de geopolítica, não encontrarão aqui opinião abalizada sobre nada. Mas quero falar dessa guerra. E do ruído ensurdecedor que ela provoca. E dos desatinos que tomou o ocidente de assalto, que vivencia uma situação kafkiana. Nunca foi tão irônico pensar aqui que, se apertarem o botão da insanidade, só sobrarão as baratas…

Suspenderam a turnê que o maestro russo Valery Gergiev tem na Europa e Estados Unidos. Nos EEUU foi cancelado. Na Europa deram um ultimato de que ou ele renegaria a invasão russa até 28 de fevereiro ou seria também cancelado (imagino a não resposta do maestro). Chegarão a queimar livros da literatura russa como fizeram os nazistas?

O mais absurdo é que desde o fim da URSS, a OTAN, que deveria ter perdido a necessidade de existência, vem cercando a Rússia com bases militares em quatorze países, como se o que sobrou do fim do comunismo representasse uma ameaça. Talvez imaginem que ele possa renascer das cinzas, dando o braço a torcer a uma ideia de solidariedade que não deveria morrer. Ou apenas o aforismo de que precisamos de um inimigo para viver (e vender armas).

E, o mais absurdo de tudo, um velho decrépito que perde a popularidade vertiginosamente, cutuca o urso adormecido, propondo colocar bases da OTAN no corredor de contato da Rússia com a Europa e querendo impedir seu acesso ao mar Negro. Talvez, lá nos EEUU, esse esforço de guerra para aquele povo etnocentrista melhorasse a popularidade do velho senil, mas a Europa embarcar nessa canoa, para o mundo dito civilizado é incompreensível!

O parlamento europeu engolir essa provocação, sem nem mesmo colocar em discussão a louca proposta é inacreditável! Fecham-se em copas à liderança do Império Americano, sem mesmo se perguntar se ele não está prestes a ruir e por isso provoca; sem mesmo perceber que a guerra podia eclodir no quintal deles.

O urso se mexeu, não na defensiva, mas atacando um estado soberano. Só para entender essa questão delicada,  Mikhail Matveev, do Partido Comunista da Duma russa,  disse, logo após a entrada russa na Ucrânia, que votou pelo reconhecimento das províncias separatistas da Ucrânia, que “votou pela paz, não pela guerra” e votou “(…)para a Rússia se tornar um escudo, para que o Donbass não seja bombardeado, e não para Kiev ser bombardeada”[1]. Mas esses cuidados de Matveev ninguém mais quer escutar, nem de um lado, nem de outro. Deve já ter sido calado na Rússia. Não tem eco na Europa.

Putin, cutucado, partiu para a tática desportiva que a melhor defesa é o ataque. A mídia europeia, seguindo incondicionalmente a mídia americana, transformou Putin num sanguinário assassino comparado a Hitler, a Ucrânia numa santa imaculada e o comediante que a dirige num líder valoroso, apagando o apoio de milícias fascistas ao seu governo e todas as contradições belicistas do portal da eurásia. Mais, se a Rússia controla as notícias em seu território, o “mundo livre” baniu os sites da Rússia de entrarem no ocidente.

Daí ninguém sabe mais nada. Com a verdade assassinada, cada lado conta sua mentira. Sobra o horror da guerra via satélite e a incógnita se e quando os botões da insensatez serão apertados.

Como disse no começo, não entendo nada de geopolítica. Historiei o meu modo de entender os fatos e já me acostumei com a ideia de que não ser partidário de opiniões binárias, tão comuns nessa era de incertezas. E o meu entender complexo pode está todo errado, mas não tenho lado numa guerra pela minha natureza pacifista. A guerra é o horror. Provocá-la é horrível, quaisquer que sejam os motivos (lembrem da posição do Matveet, para mim a mais sensata e que nem foi comentada por quem entende de geopolítica e ignorada pela esquerda).

Mas o impressionante aqui é a postura da Europa civilizada. Deixou o confronto cair no seu colo. E está tomada de medo porque, como disse um comentarista político de lá, não é um conflito no mundo árabe ou africano, mas numa cidade “relativamente civilizada, relativamente europeia” na Ucrânia. Embora tenha depois se retratado, o ato falhou na concordância que o “civilizado” pode submeter o “bárbaro”, nunca um dos seus. Uma guerra que mata loiros de olhos azuis traz a lógica colonial para o quintal da civilização. E como aqui a lógica colonial não pode ser aceita é preciso personalizar o mal.

Daí é preciso colocar a culpa num bárbaro. O urso foi acordado para esse papel. E colocaram nele a personificação do mal, esquecendo os milicianos fascistas que apoiam o poder na Ucrânia. E como o mundo “civilizado” se uniu contra Hitler, está desde já unido contra Putin. Só que o velho urso tem as armas da insensatez. E nem está tão solitário assim. Um império no oriente pode começar a pensar em substituir o império ocidental, jogando com as mesmas armas do capitalismo predatório, agora estatizado.

Ou sobrarão só as baratas?


[1] Conferir: https://asiatimes.com/2022/03/ukraine-a-conflict-soaked-in-contradictions/?fbclid=IwAR3ePtwe–2_eldDJrlJDPoFucJYjdX46PZ1yumHHf9OgAlFqx4sENbH1rU

Desenho: Gervásio

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