RE-VISTA À VISTA: NAVILOUCA ENCONTRADA À MARGEM (50 ANOS DA REVISTA DOS AQUALOUCOS)

“A Navilouca foi o primeiro trabalho gráfico pós-construtivo de natureza pop no Brasil”

(Decio Pignatari)

Pois bem, faz tempo. Foi quando a Semana de Arte Moderna ainda fazia cinquenta anos, que a contracultura brasileira, nos anos mais asfixiantes da ditadura militar, resolveu marcar o tempo das artes & manhas numa revista definitiva: NAVILOUCA – primeira edição ÚNICA (avisava na capa), o Almanaque dos Aqualoucos – informava também. E na capa a fotografia de cada participante do movimento de vanguarda numa ousada espiral de colagem fotográfica: Lygia Clark, Jorge Salomão, Óscar Ramos, Luciano Figueiredo, Haroldo de Campos, Caetano Veloso, Décio Pignatari, Augusto de Campos, Torquato Neto, Stephen Berg, Luiz Otávio Pimentel, Duda Machado, Hélio Oiticica, Rogério Duarte, Waly Salomão, Ivan Cardoso e as “Ivanps”, Chacal.

Idealizada e editada por Torquato Neto e Waly Salomão, também eles (conversando com Oiticica por cartas) escolheram os participantes. “Conseguimos (eu e o Waly, que transamos juntos esse almanaque), conseguimos reunir um material de primeiríssima ordem. Foi uma luta: primeiro para driblar, recusar etc colaborações não requisitadas; segundo para fazer chegar as nossas mãos todas as matérias pedidas à “equipe” que selecionamos para a revista.” (carta de Torquato para Oiticica). Noutra carta mostrava o entusiasmo e a confiança no projeto: “Acho, seguramente, que será o acontecimento, no gênero, mais importante aqui dentro por esse tempo todo. Matérias fantásticas, absolutamente incríveis, tudo. E o trabalho de produção gráfica (Luciano, Óscar + mais Ana) está ficando alguma coisa como nunca apareceu antes por aqui.”

Mas a publicação, talvez com a sina marginal enterrada no umbigo, não saiu no ano de sua criação. Só dois anos depois, por conta de um esforço de Caetano Veloso foram feitos alguns números para distribuição a um público seleto. E só em 75 foi lançada timidamente num show de Caetano e Gal. São poucos os números existentes e uma raridade para colecionadores. Sabe aquela revista que todo mundo falou com encanto, mas ninguém quase viu? É da lenda.

Então. Agora que Navilouca completa cinquenta anos de existência, dentro dos cem da Semana de Arte Moderna, Isis Rost – pesquisadora e escritora gaúcha radicada no Maranhão[1] – nos brinda com a sua NAVILOUCA Re Vista[2], um verdadeiro inventário sobre a origem, montagem e edição da revista icônica, além de investigar a linguagem cifrada dos autores, “traduzindo” cada página do almanaque dos aqualoucos.

Um trabalho admirável pela tarefa hercúlea de revelar conteúdos fechados num trabalho de investigação sério e responsável, além de apresentar a proposta construtiva da produção de uma revista de artes, que além das literaturas, pudesse contemplar a vanguarda também do designer gráfico, do cinema e das artes plásticas sensoriais.

Não é à toa que o projeto pronto em 1972 não pudesse ser concretizado. Muito ambicioso e caro para a época, num trabalho gráfico personalizado de Óscar Ramos, Luciano Figueiredo e Ana Araújo, com cada artista escolhido tendo a liberdade para publicar suas páginas sem limites para o tamanho e conteúdo. Não surpreende que a revista não encontrasse um editor para a empreitada. Com o que chamamos de “boneca” da revista pronta, Torquato vai embora sem ver seu projeto editado. Waly e Ana insistem e só dois anos mais tarde foi lançado para testemunhar o agitado ano de 1972. Com uma fama maior do que a existência, ficou mais na nossa imaginação. O trabalho de Isis foi concretizar o que imaginávamos com argumentos sólidos de um projeto icônico.

Além da busca de interpretação do que ela chama de confluências entre literaturas, designe gráfico, cinemarginália e arte sensorial, nossa pesquisadora nesse trabalho de conclusão de um mestrado em letras, arquiteta o conceito de duas tríades onde a revista se ancora: a Tríade Concreta e a Tríade Experimental. Na primeira, a poesia concreta dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari, capturados para o projeto por Torquato Neto, dá a sustentação do modernismo que naquele ano de 1972 completava cinquenta anos de uma Semana que provoca discursões até hoje no seu centenário, e amparava e revigorava a linha de vanguarda que os idealizadores Torquato e Waly queriam imprimir à Navilouca. Na segunda, a Tríade Experimental avançava na proposta vanguardista. “A realidade tem suas brechas, olhe por elas” (Torquato). Nessa tríade, composta por Torquato, Waly e Oiticica, temos a estrutura medular da revista, já que o esqueleto ósseo estava no concretismo. “Na geleia geral brasileira alguém tem de exercer as funções de medula e de osso” (Décio Pignatari).

Mais duas coisas me obrigo a dizer sobre o livro necessário de Isis Rost. A primeira a fenomenal tradução que ela faz da prosa experimental Phaneron I de Décio Pgnatari e na dissecção das muitas páginas cifradas de Waly. As páginas de Waly (12 no total) sempre me pareceram incompreensíveis, não achando sentido em muitas delas. Pois aqui Isis executa uma tradução de época, como se tivesse achado a pedra da Roseta para a tradução do poeta. Impressionou-me.

A segunda coisa, já percebida, mas que primeiramente é enfatizada explicitamente, é a relação de Torquato com o ano de 1972 (quando se mata em novembro) entre sua participação na Teresina na feitura do super8 TERROR DA VERMELHA (no Piaui ficou os meses de maio, junho e julho) e a NAVILOUCA construída no Rio de Janeiro. Suas páginas na revista podem ser lidas como uma ponte para o filme. Ali e aqui, ver, vir, ou vir. Palavras destaques que aparecem nos dois trabalhos. Curiosamente Torquato sai da vida sem ver nenhuma de suas duas obras completadas. E elas estão unidas umbilicalmente.[3]

No mais, corra atrás do livro. “Essa revista vai ficar a coisa mais bonita, mais violenta e mais incrível que você possa imaginar. Deixe com a gente” (Torquato). Quem não viu antes, pode ver agora.


[1] O Risco do Berro – Torquato Neto, morte e Loucura (editora Passagens, Ma, 2018); Transas da Contracultura Brasileira, Org. de Isis Rost e Patricia Marcondes de Barros, editora Passagens, Ma, 2020.

[2] https://editorapassagens.blogspot.com/2022/02/navilouca-r.html – link para baixar o livro gratuitamente.

[3] No site da editora Passagens tem um fac-símile da NAVILOUCA original. O Terror da Vermelha: https://www.youtube.com/watch?v=x7xR20yNQSA&t=488s

PS. O autor desse texto, Edmar Oliveira, participou do movimento contracultural do Piauí nos anos 70, personagem da geração GRAMMA e ator do Terror da Vermelha. Costumo dizer que o psiquiatra tem um lado B.

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