NÃO ERA A TERRA PROMETIDA, MAS O RACISMO QUE INVENTOU UM PAÍS

Moïse não encontrou a Terra Prometida, mas a memória do país onde seus ancestrais foram escravizados. E Moïse carregava uma herança viva de atributos dos primeiros negros que aqui chegaram: nasceu no Congo, trazendo com ele a malemolência que resultou no samba e a lembrança dos primeiros negros escravizados como se tivesse desembarcado de um navio negreiro no Valongo ainda há pouco. Logo, ele encarnou o escravizado antigo desse país que foi inventado pelo racismo.

Foi despertado o capitão do mato adormecido que comandou o ataque de 39 pauladas no lombo daquele negro acintoso que não conhecia seu lugar. Como ousa cobrar uma dívida que nunca existiu para um escravo, ou, se não assim aconteceu, com que direito abriu o freezer do patrão para com sua mão negra tirar uma cerveja sem pagar? Merecia um castigo, não que a intenção da tropa do capitão do mato fosse matar o negro desobediente, mas apenas para que ele conhecesse o lugar que lhe cabia naquela sociedade racista. Afinal, um negro medido em arroubas aguenta apanhar no lombo como um animal teimoso. Mas Moïse era um negro pequeno e fracote que não aguentou a lição, ou apenas um negro morredor, daqueles que sucumbiram no navio tumbeiro e não chegou à terra firme.

Moïse, do alto das tábuas da lei, imaginava um país miscigenado, onde seus ancestrais contribuíram para a formação daquele povo, que herdou a escola de samba e o futebol de ginga muito melhor que o dos inventores. Moïse imaginou uma jovem democracia que o receberia no colo de mãe gentil e lhe acalentasse na saudade de África. Mas não foi isso que encontrou.

A democracia havia sido golpeada e a alma adormecida que inventou esse país racista acordara, sem que Moïse percebesse, para assombrar o homem cordial que parecíamos ser. O racismo estrutural tinha aflorado e juntara os preconceitos num presidente eleito pelos criadores de um mito inominável que representava os seus eleitores: racista, misógino, homofóbico, odiento, ignorante, vulgar, violento, enfim, um homem de bem que detesta todos os outros homens que não lhe sejam semelhantes. E o mecanismo fascista transformou mesmo os que não eram tão assim em fantoches que representavam os piores instintos que possuíam.

Num estado muito próximo do fascismo, foram incentivadas e armadas as milícias que já dominavam várias partes da cidade maravilhosa. Elas se sentiram à vontade de ganhar território em outras cidades. Aqui, tiveram a ousadia de não exercer o domínio apenas em comunidades carentes, já abandonadas pelo Estado, mas de entrarem nos bairros mais privilegiados de classe média. Claro que sob as vistas benevolentes das forças de segurança – que em muitos casos tem uma relação simbiótica com as milícias.

Na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio, o Rio Orla – empresa responsável pela concessão de quiosques na praia – admite que estão quase todos ilegais, sem que se saiba a quem mais pertença a concessão, já que houve transações de titularidade ilegais. Se o poder público não controla mais a organização dessas concessões, se não se sabe mais a titularidade dos donos dos quiosques, isso se transforma num ótimo empreendimento para o controle miliciano que cobra taxas e nomeia a titularidade real, embora não conste no CNPJ.

E onde a milícia coloca sua mão, faz parte do negócio – e é quem garante o poder miliciano – a segurança é privada. Porque a milícia exerce seu poder pela força ilegal. Quando não há uma parceria inacreditável com a segurança legal.

E essa foi a Terra Prometida que Moïse imaginou enganosamente na beleza da Barra da Tijuca. As folhas dão notícias de que outros três negros – não migrantes – foram recentemente assassinados naquela região sem nenhuma consequência. Faz parte do poder miliciano: pela força impõe sua lei. Se por um lado Moïse representava o escravo a ser abatido pelo racismo que inventou esse país, por outro lado o caso veio às mídias por ele ser um refugiado moderno.

As 39 pauladas representaram o ódio ao diferente, mesmo que a cor da pele fosse igual. O racismo se estrutura em camadas de mando: o remediado querendo ser o freguês de classe média; esse, querendo ser o morador do condomínio na Praia; o morador do condomínio defendendo a elite que o mantém no cabresto. O negro desvalido morre. Quem se importa?

Não importa o motivo pelo qual Moïse foi assassinado. Pode ser banal, pode não existir. Importa que ele estava num território à margem da lei. É assustador ver Moïse sendo assassinado ao lado da barraca, enquanto o barraqueiro serve cerveja aos fregueses. Moïse está na zona fantasma. Ele não existe para quem bebe a cerveja, para os donos da barraca.

Essa é a desgraça dessa história. Ou se toma esse território de volta para a legalidade ou outros negros continuarão morrendo.

E se a milícia matou Marielle há quase quatro anos e não elucidou quem foi o mandante até agora, já estão presos os paus mandados para matar Moïse, mas não acredito que se descubra o mandante, nem que se desarticule a ilegalidade que provocam as mortes à margem da lei.

2 comentários em “NÃO ERA A TERRA PROMETIDA, MAS O RACISMO QUE INVENTOU UM PAÍS

  1. Foi o comentário q fiz q me chamaram pra a passeata no dia 5 02 22,na Barra…Marielle uma representante de uma Política,chefe de gabinete aliás…mão de ferro de Freixo ñ acharam,ficam nós enganados c peças de canalha…..Imagino o q farão por Moisés…Ficaram 3 anos o povo idiota esquece…irao fazer mas barbaridades …As mentes doentias nem irei me expressar…Bravo EDMAR….

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