CRIMES NO ESQUECIMENTO?

Depois de atrasar as vacinas para crianças, pelo único intuito de agradar seu chefe, o Queiroga anuncia a chegada de nova partida de vacinas não causando mais qualquer espanto na mídia. É a instituição da mentira como pós-verdade. Comemora-se as vacinas entregues com atraso como se fosse um adiantamento.

A normalização da pós-verdade é assustadora. O país foi tomado pela indignação causada pela CPI da Covid onde foram exibidas as tripas apodrecidas de um governo nefasto que fez parceria com a pandemia e responde pela maioria dos mais de seiscentos mil mortos levados pela Covid. A responsabilidade de ministros e escalões de governo em corrupção que aproveitavam a pandemia para não comprar vacinas legalizadas e armar arapucas para a compra de vacinas superfaturadas com atravessadores desmascarados nas sessões da CPI. Negacionistas irresponsáveis que construíram um ministério da saúde paralelo e tramaram dentro do Palácio do Planalto para desacreditarem as vacinas e distribuírem um tratamento precoce ineficaz. Investimento de laboratórios oficiais para a fabricação da cloroquina com desvios de recursos para o combate eficaz da doença. A falta de oxigênio em Manaus, com a população doente morrendo asfixiada e o ministério da saúde receitando um tratamento precoce sem serventia. O escândalo da Prevent Senior e as tentativas de assassinatos de pacientes por cloroquina ou como alta por óbito. As valas abertas para o sepultamento de pilhas de corpos em cenas dantescas nas TVs. A CPI clamando para a punição dos responsáveis e os alçando aos olhos da justiça. E o que aconteceu? A pós-verdade anulou toda aquela dramática CPI. Fez com que ela não tivesse acontecido. E nenhum – sequer um só – ato consequente tivesse efeito. E aqui estamos nós conformados com um escândalo que nem aconteceu.

Já não se fala mais daquela CPI. Tanto barulho por nada, diria o dramaturgo inglês. A naturalidade com que a pós-verdade nos apresenta os fatos esquecidos num passado recente, tornado longínquo, é assustadora.

Apesar dos pesares a capacidade vacinal de nosso Programa Nacional de Imunização do combalido SUS conseguiu vacinar 70% da população. Esquecemos os mortos que ficaram pelo caminho e não conseguiram a imunização tão desejada por absoluta culpa desse governo desastroso e culposo de assassinato. Agora partimos para a imunização das crianças, com o atraso necessário que o governo providenciou – além das mentiras desacreditando a imunização – com o acordo tácito de silenciar os crimes perpetrados de um negacionista que supostamente dirige a nação e de seu ministro lambe-botas, capacho de merda.

Fui médico por quarenta anos do Ministério da Saúde. Conheci ministros da ditadura, um polêmico ministro do Sarney pós ditadura, os ministros de vários matizes políticos. Havia neles uma preocupação com a saúde, em diferentes cores, mas nunca na ausência delas. Posso garantir que nunca houve um ministro pior do que o Queiroga (Pazuello não foi ministro, mas um general no cargo). Queiroga é um ser desprezível. Um médico que abdicou do seu papel para exercer a figura de fiel capacho e lambe-botas de Bolsonaro. Se Pazuello – o general submisso ao capitão – ficou famoso pela frase “um manda, o outro obedece”, Queiroga repete o erro do chefe com a ênfase descarada de que “é melhor perder a vida do que a liberdade” de não se vacinar! Como pode ter a coragem de dizer tal asneira?

Queiroga é cúmplice de assassinato! Tal qual médicos que serviram ao nazismo. Um embusteiro que brinca com a vida humana, que mente para deixar crianças sem vacinas e expostos a uma doença que pode matar.

Não é possível que a pós-verdade esqueça esses crimes. É preciso julgar os assassinos cúmplices da pandemia. É preciso julgar os crimes apontados pela CPI da Covid. Não se pode esquecer.

2 comentários em “CRIMES NO ESQUECIMENTO?

  1. Meu caro
    Brilhante texto como sempre são seus textos …
    Hannah Arent, grande filósofa já havia dado um nome para a pós modernidade: “banalidade do mal”. … Tudo que estamos vivendo pode ser sintetizado neste conceito . Absolutamente tudo. Criminosos são o mal e o mal é banal. Queiroga obedece ao seu chefe e isto é normal… o carrasco dos campos de extermínio obedeciam a ordens . Eles inclusive nada tinham contra os judeus, disse o carrasco no julgamento de Nuremberg. Apenas obedeciam a ordens. Paciência… assim ficamos . O SUS, construído por uma meia dúzia de comunistas aí está. Mas, quem se importa por apenas este bemol? Grande abraço ao grande dr. Edmar …

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