POR UMA PSIQUIATRIA COMUNITÁRIA DA ATENÇÃO PSICOSSOCIAL

Tenho debatido com alguns psiquiatras que abraçaram a Reforma Psiquiátrica e têm uma prática de atenção psicossocial exemplar, tanto na atividade de ponta quanto na Academia. Só que na Academia sabemos do embate com uma psiquiatria biológica mais afeita à neurobiologia; e nos serviços, não raramente, nos encontramos com psiquiatras com dificuldade de uma prática psicossocial.

E, ultimamente, tanto a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), quanto o Conselho Federal de Medicina (CFM) estão alinhados ao governo federal na destruição da prática de Atenção Psicossocial e Comunitária, e têm trabalhado eficientemente para a revogação de portarias que amparavam a Reforma e do retorno do hospital psiquiátrico, que todas as vezes que ressurge resulta inevitavelmente no manicômio. Pratica asilar que o movimento reformista levou quase quarenta anos para tirar sua hegemonia e que pode ressurgir quase em um passe de mágica.

Na história da Psiquiatria sempre a temos aliada ao controle social, a experiências e experimentos antiéticos; e, não raro, servindo de anteparo a regimes totalitários com práticas condenáveis numa democracia. Experiências da prática libertária na psiquiatria são contadas nos dedos e nunca se fizeram hegemônicas. Basta examinar o terror que a psiquiatria proporcionou no “gulag” soviético, nas experiências terrificantes do nazismo, ou mesmo entre nós nas ditaduras Vargas ou a Militar de 64, que durou mais de vinte anos. Experiências libertárias como as de Laing e Cooper, que tentaram criar uma antipsiquiatria; ou as de Tosqueles, Franz Fenon, Nise da Silveira ou Basaglia, não se tornaram hegemônicas. Sobreviveram como uma prática marginal.

E a Psiquiatria Tradicional, que defende o hospital psiquiátrico e o arsenal terapêutico, quer da contenção física ou química, nunca respeitou a prática da Atenção Psicossocial e se essa prática avançou entre nós nos últimos trinta anos, muito se deve a uma ação direta dos órgãos oficiais ligados aos governos progressistas de centro-esquerda que tentaram colocar a Reforma Psiquiátrica como política de Estado, instados por uma militância aguerrida. Esse cenário foi destruído pelos governos autoritários após o golpe de 2016. E respaldaram essa destruição justamente a ABP e o CFM, como se pode acompanhar na aliança da representação médica e psiquiátrica oficial às políticas de destruição do bolsonarismo. E respaldaram essa destruição precisamente para colocar o hospital psiquiátrico de volta ao cenário assistencial, o que resulta na ressurreição do manicômio.

Portanto, nós da Atenção Psicossocial temos uma encrenca com a Psiquiatria Tradicional que vai muito além da divergência politica (esquerda/direita), mas pode ser encontrada na constituição histórica da consolidação dos saberes nos dois campos. Quando a Atenção Psicossocial, que se quer como uma Psiquiatria Comunitária, sai do campo da Psiquiatria Tradicional ela inevitavelmente funda outra prática, que parece não se comportar como uma extensão da Psiquiatria Tradicional. Na minha modesta opinião, a grande encrenca é querer fazer uma alternativa à outra.

(Aqui um parêntese: já tenho um longo caminhar nesses quarenta anos e conheci a psiquiatra Nise da Silveira pessoalmente. Eu ainda era um garoto e tentando agradá-la comentei que eu admirava a “Psiquiatria Alternativa” que a doutora fazia. Ela me olhou séria e disparou zangada na sua autoridade: “meu filho, eu não faço uma psiquiatria alternativa. Nada do que eu faço pode ser alternado pela outra, eu substituo aquela psiquiatria, faço outra psiquiatria”. Essa lição me foi inesquecível e me ajudou muito no meu percurso. Fecha parênteses)

Bom, das conversas que mantenho como os psiquiatras do campo Psicossocial, acompanhei a saída desses médicos da ABP e a fundação de uma Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME) como se fosse possível daqui contrapor a ABP. Mas, por perder a identidade de médico numa associação de trabalhadores da saúde mental, alguns falam em retomar a ABP (de fato ela já foi um pouco simpática à Reforma Psiquiátrica) ou fundar uma espécie de ABP do B. Com efeito, nos falta uma associação profissional se não estamos dentro da ABP.

Mas retomemos a nossa encrenca e me deixem comparar com outra que foi bem resolvida.

A medicina comunitária que na década de 70 do século passado encantou o mundo com os “médicos de pés descalços” chineses e cubanos saiu de dentro da formação do Clínico Geral Tradicional. É bom acrescentar que o Clínico Geral Comunitário foi reconhecido nos países desenvolvidos que ainda praticavam o Estado de Bem-Estar Social, como o “Family Practice” da reforma do sistema de saúde da Inglaterra do pós-guerra. Entre nós, foi ainda no ano de 1981 que a Comissão Nacional de Residência Médica reconheceu a Medicina Geral Comunitária como especialidade em formação nas Residências Médicas. Em 2002 ganha nova nomenclatura por uma resolução conjunta do CFM, da Associação Médica Brasileira e da Comissão Nacional de Residência Médica, representada na Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.

Portanto, quero discutir com meus pares, porque não uma formação em Atenção Psicossocial e Psiquiatria Comunitária, de fato apartada da Psiquiatria Tradicional, assim como o Médico de Família e Comunidade foi separado do Clínico Geral Tradicional do hospital e do consultório privado. Afinal o Psiquiatra Comunitário formado em Atenção Psicossocial vai trabalhar no serviço público comunitário e não na medicina privada.

Enfim, chamo para a discussão de que não temos a mesma prática da Psiquiatria Tradicional. Se pra ela o diagnóstico baseado em guias classificatórios está primariamente tendo que se identificar para começar uma ação terapêutica, não é esse o nosso raciocínio. Nosso diagnóstico, além de sindrômico, vai se constituindo, pode mudar no tempo e a ação terapêutica já se faz presente enquanto isso. Na Atenção Psicossocial não dividimos o paciente em vasos comunicantes conforme esteja em crise, hospitalizado ou no ambulatório. O usuário comunitário não pode ser esquartejado dessa forma e a nossa atenção é integral. Mesmo a utilização do arsenal medicamentoso se faz bastante diferente nas duas formas de abordagem do usuário, sendo que na Atenção Psicossocial tanto a relação do usuário e da família com a medicação e discutida e não receitada como definitiva. E há, basta um olhar acurado, muitas outras diferenças entre as duas abordagens.

Isso posto, gostaria de pensar uma forma de sairmos desse embate entre a Psiquiatria Tradicional e o nosso campo. É claro que os colegas da academia terão uma melhor opinião sobre esse assunto.

Dois obstáculos, que de fato existem, não podem nos paralisar para resolver um problema que volta e meia nos atropela e sabota uma prática que se quer absorvida uma pela outra. O comodismo da posição alcançada na academia; e, o que é muito grave, deixar que a dualidade, se nos atrapalha na prática pública, pode nos fazer atuar nos dois campos com vantagem econômica para a prática privada.

Como disse a doutora Nise da Silveira, não se pode alternar as duas formas que se excluem.

Um comentário em “POR UMA PSIQUIATRIA COMUNITÁRIA DA ATENÇÃO PSICOSSOCIAL

  1. Nise tinha razão ! A psiquiatria alternativa foi uma tentativa infeliz de apaziguar o campo e em nada ajudou em lutar contra a concepção da loucura como uma doença como qualquer outra . Quando Claude Bernard disse que a medicina deveria ser não a arte de curar os doentes mas a ciência de curá-los a psiquiatria «  alternativa » tornou-se uma saída sem saída . Resultado: a medicina com os recursos tecnocientificos hoje disponíveis e capazes de intervir pesadamente mudando toda a química cerebral e neste mundo das soluções protéticas o «  tratamento » da loucura contribui hoje, mais do que nunca, para os « bons negocios » Nada mais adequado que retornar ao hospital. É aí que infelizmente nos encontramos hoje. Tudo muito triste !

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