MORTE E VIDA NUM PLANO DE SAÚDE: CASO TADEU

Tadeu Andrade, 65 anos, segurado no plano de saúde Prevent Senior, contraiu covid, mesmo tendo feito uso do kit preventivo distribuído pela seguradora. Com o agravo do quadro foi internado e submetido a medicações do chamado, pelo plano de saúde e negacionistas de todos os matizes, tratamento precoce. Mesmo assim, o quadro de pneumonia complicou com diminuição da capacidade respiratória, quando foi intubado e transferido para leito do Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do hospital.

Com o avançar do período de intubação, excedendo o limite custo/benefício do segurado ao plano, a família foi chamada ao hospital para autorizar a retirada do paciente do CTI. Deveria ser colocado em um leito de cuidados paliativos, conforme informaram os responsáveis pelo leito, para melhor conforto do paciente, visto que seu caso não teria solução, com prognóstico de óbito e desnecessário prolongamento de sua vida pelos aparelhos a que estava ligado.

As duas filhas de Tadeu não aceitaram a solução encontrada para o fim da vida do pai e ameaçaram entrar na justiça para mantê-lo no CTI. Para evitar um escândalo, os responsáveis aceitaram a permanência do paciente no tratamento intensivo, não tendo sido necessário recorrer à justiça.

Tadeu melhorou, surpreendentemente contra o prognóstico anterior, tendo se recuperado das doenças desencadeadas pelo vírus. E é ele quem conta essa história aos periódicos, louvando as filhas por insistirem numa decisão que lhe salvou a vida. Venceu os efeitos colaterais dos tratamentos preventivos e precoces, escapou das complicações do perigoso vírus, e não apresenta sequelas da doença, a não ser a raiva contra o plano de saúde que poderia tê-lo matado.

Infelizmente essa não é uma história excepcional, a não ser pelo desfecho surpreendente: quem era para estar morto, escapou do prognóstico do plano de saúde, e goza de saúde hoje. A parte trágica, com o resultado fatal, certamente já foi vivida por muitos leitores desse texto. Melhor desligar os aparelhos para evitar um sofrimento desnecessário.

Num serviço público, pressionado por uma demanda ambiciosa de resposta pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o desligar de aparelhos de uma unidade de tratamento intensivo está condicionado à morte cerebral – onde já não existe sofrimento do paciente e não adianta o prolongamento da vida vegetativa. Não há a escolha baseada num prognóstico que está sendo influenciado – mesmo inconsciente ou cinicamente medido – pelo custo/benefício, quando saúde é apenas uma mercadoria que pode ser descartada quando dá prejuízo.

Portanto, senhores usuários de plano de saúde para a classe média, que quase sempre esconde uma arapuca medida em cifrões, quando de um acidente de trânsito, vascular cerebral ou qualquer outro quadro de urgência que exija um especialista, deixe a ambulância ou corpo de bombeiros encaminhar o paciente para o serviço público.

Medicina é cara. Um neurologista, por exemplo, só pode estar disponível num plantão num hospital público. No privado, ele está alcançável para uma emergência que irá acontecer a qualquer hora do dia. Nesses casos, a distância entre o acidente e a atuação clínica pode fazer a diferença entre a vida e a morte ou as sequelas.

No hospital público você está no corredor, numa maca desconfortável entre várias urgências e gritos, mas a triagem bem-feita pode encaminhar esse paciente ao especialista encurtando a distância entre a ocorrência e a ação. No hospital privado, depois, e só depois de provar burocraticamente que seu seguro está em dia, você vai ter com o plantonista (às vezes um clínico geral). Você estará num ambiente tranquilo, bem-atendido pela equipe, no ar-condicionado, mas até o especialista ser conectado e chegar pode aumentar a distância entre a ocorrência e o atendimento com perigo para a vida ou as sequelas que seriam evitáveis.

Mas devo confessar que, com o sucateamento que assistimos acontecer no SUS, não sei mais se esse conselho é razoável. Então, se você puder não deixe de lutar pelo SUS. Ele é o que resta de esperança para a saúde de nosso povo.

O que eu sei é que não existe plano de saúde bom. Qualquer plano de saúde médio (desses perseguidos loucamente pela classe média) terá práticas ANTIÉTICAS próximas às do Prevent Senior, que no limite da responsabilidade nazifacista chocou a sociedade. Infelizmente, mas naturalmente também.

Saúde transformada em mercadoria gera procedimentos que infringem a ética do cuidado, buscando diminuir custos, o que leva rotineiramente (e que infelizmente, nos acostumamos com eles) processos judiciais, como ameaçou as filhas do Tadeu para serem atendidas nos cuidados intensivos que queriam para o pai.

Para esses planos, manter a vida, ou não, é a justa medida de custo da mercadoria saúde. Seu plano nunca será bom. A não ser se você for de fato rico que possa pagar uma medicina de ponta, exclusiva da elite (lembre-se que se você trabalha não é elite), e que implique em tratar o resto da sociedade (nós,  os 90 e muitos %) como cidadãos de segunda categoria. Se você está lendo essas linhas não faz parte dessa elite. E você e os entes queridos que você tenta proteger podem sofrer situações absurdas, como a que viveu o Tadeu e sem o final feliz que ele teve.

Portanto, lute pelo SUS, o único plano que se pode confiar e que deveria ser de fato o ÚNICO.

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Desenho: 1000TON

2 comentários em “MORTE E VIDA NUM PLANO DE SAÚDE: CASO TADEU

  1. Vc definiu uma luta pelo SUS e suas diferenças do privado. Bradesco saúde, Amil, Unimed fizeram doações a campanhas de políticos sedentos por dinheiro e essas companhias TB . O brasileiro só vai lembrar da importância do SUS, o dia que não tiver mais. Vamos lutar pelo #sus enquanto podemos. Infelizmente esse plano de extinguir o sus vai liberar as hienas com fome de dinheiro a abocanhar de vez seu bolso

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  2. É isso Edmar ! Talvez está mesma classe média que menospreza o SUS porque, afinal de contas, «  é coisa pra pobre » ou «  só serve para pegar remédio na farmácia popular » tenha começado a compreender o alcance de um sistema de saúde que é capaz de vacinar um país que é do tamanho de um continente. E que tenha também começado a se inquietar tendo notícias do que os empresários – se podemos chamá-los assim – dos planos de saúde são capazes de fazer para extrair seus lucros de qualquer jeito ainda que causando a morte das pessoas . Parabéns mais uma vez pela lucidez que você oferece na sua análise ! Obrigada !

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