PREVENT SENIOR: EXPERIÊNCIA MACABRA

A minha geração, nascida no pós-guerra e o começo da guerra fria, passou o último terço do século passado se perguntando como foi possível ter existido fascistas e nazistas que tomaram a Europa no começo do século XX. E saímos aqui de uma ditadura com a sensação aliviada de que o mal ficara no passado. Mas o jovem século XXI mostra, antes de ganhar a maioridade, que o mal retorna com toda sua banalidade anunciada por Hannah Arent, e o jovem adulto no novo século notifica que o mal que saiu do coração dos homens levará muito tempo para ser amordaçado novamente.

O medo do que nem vimos no passado, mas assistimos a farsa de uma ditadura assassina, nos aparece no futuro, para desespero dos velhos de minha geração que insistiram em viver demais, como uma pós-verdade que se concretiza sem tempo de ir embora.

O caso conhecido como “Prevent Sênior” traz as práticas do nazismo sem câmera de gás, mas modernizado e banalizando a crueza da perversão de experiências dignas do médico alemão Josef Mengele.

Sob a fachada de um plano de saúde, aceito por nossas autoridades fiscalizadoras, o “Prevent Sênior” já se instala de forma irregular. O que os empresários da saúde teriam visto no nicho da atenção médica para velhos, quando todos os planos de saúde não aceitam esse segmento por motivos óbvios, quanto a saúde é tratada como mercadoria?

Se não fosse essa mania idiota de se nomear produtos oferecido no mercado com o idioma inglês, talvez se mostrasse mais claro e não tivesse atraído tantas vítimas para a arapuca. Já se anunciava ali uma medicina preventiva para ancião. Uma imitação da atenção básica do SUS, mas com uma fachada de hospital. E a arapuca estava armada de forma a atrair a clientela: piso antiderrapante, banheiros, camas e mobiliário adaptado para a clientela. Corpo clínico atencioso para tratar hipertensão, diabetes, pneumonias, e doenças possíveis de serem tratadas na atenção básica. O problema era a complicação e a necessidade de procedimentos hospitalares de maior custo. Como velho morre, mesmo, isso ia passando despercebido.

E aí veio a pandemia. Por si só, lá no começo da Covid, esse hospital chamou atenção pelas mortes. Como naquela época a doença atacava mais os velhos, esse primeiro escândalo foi abafado. Se tivesse a fiscalização chegado mais próximo veria que o tal hospital em São Paulo era mais um asilo de luxo que propriamente um hospital.

Livrando-se dessa primeira derrapada, seus donos, muitos próximos do poder (a ponto de participarem do gabinete paralelo denunciado na CPI) partem para experiências mais audaciosas. Primeiro, deixar a Covid circular entre os velhos (orientando trabalhadores contaminados a trabalharem doentes) para provar a “imunidade de rebanho”, tese a gosto do presidente genocida. O que provocou o aumento das mortes no asilo, como também acontecia aqui fora pela negativa em comprar vacinas já existentes.

Não satisfeitos, com uma experiência que já mostrava o fracasso, o tal Prevent parte para testar o uso do kit covid (na base da cloroquina) para tentar provar a tese do tratamento precoce defendida na televisão, até entre emas do palácio, pelo presidente criminoso.

Só que a tal experiência não respeitava qualquer metodologia da ciência, menos ainda a ética. Nem os pacientes, nem os familiares sabiam que eram cobaias de uma “pesquisa”. Com o agravante de demitir médicos que se recusassem prescrever o kit-cloroquina, mudarem a prescrição de médicos que não o receitavam, fazendo enfermeiros e auxiliares se passarem por médicos na prescrição ambiciosa de uma prova que jamais viria.

Aí já temos uma montanha de crimes, dignos dos laboratórios do nazismo, com médicos tendo um comportamento antiético, eugênico, infringindo códigos profissionais sem que as entidades de classe tomassem qualquer providência. Talvez a CPI ajude a buscar uma punição para esses crimes hediondos e odientos. E tudo em comum acordo com a família presidencial(1).

Volto aos que, como eu, teimaram em viver até aqui. Já é possível entender as indagações do passado no presente.

Essa extrema-direita fascista nunca morreu. Estava escondida e envergonhada quando a hegemonia da centro-esquerda construía a democracia. Ela retorna desavergonhadamente no neoliberalismo, porque este já não precisa da democracia. E você se pergunta: de onde saiu toda essa gente capaz de violar preceitos civilizatórios?

Bem ali e aqui entre nós. Na nossa família, nos nossos amigos, no nosso trabalho, no bar da esquina, no cabelereiro, na vizinhança. Não se formou um exército de mentes desumanas. Eles estavam aqui entre nós. E já eram possuídos pelo mal. E são os que carregam a maior característica do humano: o único predador da própria espécie. Ou como já nos alertava Terêncio, quase duzentos anos antes da contagem secular: “nada do que é humano me é estranho”.

_____________________

(1) Veja o twitter retirado, mas com print publicado por Marcelo Freixo

______________________

desenho de 1000TON

3 comentários em “PREVENT SENIOR: EXPERIÊNCIA MACABRA

  1. Esta gente saiu do que deixamos escapar por mera distração e por não ter compreendido bem Hannah Arent quando nos alertou exatamente sobre a banalidade do mal . E deste princípio de «  neutralidade » neoliberal onde parece que as coisas são assim e não tem jeito de ser de outro jeito!
    A ilustração do seu excelente texto é perfeita !

    Curtir

  2. Nada a comentar, a não ser que Edmar Oliveira fez um diagnóstico e uma anamnese perfeitas do que nos trouxe até aqui. Só um acréscimo: se os partidos de centro/centro-esquerda/esquerda quiserem concentrar as energias, é bom que não gastem tempo, energia nem retórica tentando convencer um bolsonarista/fascista/nazista a abdicar de suas convicções sectárias. Não há registros na história sobre nazistas arrependidos.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s