O ódio ao SUS é um ódio de classe

SUS pode ser privatizado com publicação de novo decreto de Bolsonaro -  Agência Sindical

Uma notícia passou despercebida dentre a efusiva torrente do noticiário político sobre os escândalos descobertos todos os dias, que alimentam a CPI da Covid, e as boçalidades intermináveis pronunciadas pelo mandatário-mor dessa republiqueta.

Mas estava lá numa esquecida página dentro de um jornal paulista: “Com SUS, pretos e pardos alcançam brancos em longevidade em 22 estados.” A matéria ainda ressaltava que nesse quesito superava, em muito, os saltos obtidos em educação e renda, e que com a pandemia, a piora no acesso à saúde ameaçava os avanços constatados.

Não vi qualquer repercussão dessa notícia, mas só ela seria suficientemente autoexplicativa para demonstrar a importância de um programa social da magnitude do Sistema Único de Saúde.

A desigualdade provocada pela educação e renda, nesse país incrivelmente desigual, pôde ser compensada no quesito longevidade com um programa de saúde pública da importância do SUS.

Com trabalhadores do SUS, sabemos que 80% da procura das emergências são ocasionadas por doenças crônicas nas suas descompensações e são elas que interferem, diretamente, na longevidade de uma população. Se tomarmos apenas dois programas de grande importância que são oferecidos pelas Clínicas da Família em comunidade, os programas de hipertensão e diabetes, vemos que eles podem ter uma cobertura em mais de 70% da população adstrita, contribuindo de forma inequívoca para a saúde daquela comunidade. Com isso há uma redução nas mortes por diabetes e suas complicações, como amputações que implicam numa piora da qualidade de vida, e nas internações por acidentes vasculares cerebrais (AVC) e sua mortalidade e complicações igualmente incapacitantes. Quer dizer, só esses dois programas já são suficientes para introduzir um impacto muito grande na saúde da população.

Imaginemos então o impacto das campanhas nacionais de imunização, a puericultura, o pré-natal, prevenção de câncer de mama, útero, próstata, entre outros que podem identificar o surgimento de um tumor precoce, interferindo no prognóstico com um encaminhamento e acompanhamento responsáveis. O programa de acompanhamento à tuberculose tem tentado mudar a face de um problema de saúde que retorna aos grandes centros, agravados pela miséria.  Não esqueçamos de grupos antitabagistas ou meras atividades físicas acompanhadas por um educador, que são de extrema importância na saúde preventiva que essas clínicas executam. As Clínicas da Família recuperam o conceito de responsabilização de equipes de profissionais de saúde por uma comunidade específica atuando na busca ativa de casos na comunidade.

Então o SUS também é um programa social de extrema sofisticação que favorece a saúde das classes mais pobres permitindo que sua ação seja muito mais eficaz que alguns planos de saúde de segunda e terceira linha, disputados pela classe média. Uma classe média que se recusa a usar o SUS por achar que ele é um programa de saúde para os pobres e anseia por uma medicina privada que nunca alcançará o patamar da medicina oferecida aos ricos. E esse é um preconceito que faz a classe médica destilar seu ódio aos pobres na ilusão que se distanciará deles.

Como um tapa na cara do preconceito o SUS aparece como um elevador da longevidade das pessoas que são por ele assistidas. Até por isso, o desmantelamento do SUS é um projeto de direita para atingir seus beneficiários e o seu resultado que ameaça a desigualdade necessária ao neoliberalismo predador.

E essa ação política pode ser traduzida na desvalorização dos beneficiários que não mereceriam o cuidado e os gastos necessários ao sistema. Como se a saúde da população fosse despesa e não investimento para a reprodução da própria força de trabalho. Não é essa escala com que trabalha o neoliberalismo. O investimento tecnológico dispensa parte da mão de obra, e cinicamente o neoliberalismo predador não tem qualquer interesse na reprodução de uma força de trabalho dispensável.

Dentre os vários ataques sofridos pelo SUS (a começar pelo congelamento da PEC do fim do mundo, ao provimento de insumos necessários, desmantelamento de equipes, entre outros), um duro golpe foi efetivado com a terceirização da mão de obra. Com o fim de concursos públicos, a terceirização substituiu o servidor público de carreira pela insegurança trabalhista e com atração de funcionários sem a formação e a necessária militância dos servidores públicos das clínicas de família. Logo trouxeram para o atendimento alguns profissionais que tem interesses privados nos sistemas de saúde e com inevitável conflito com o sistema público que consagrou as Clínicas da Família.

Estamos convencidos que o ódio ao SUS (da classe média que não o usa e de alguns profissionais que nele trabalham e boicotam o sistema público para favorecer o sistema privado) é um ódio de classe. O SUS, muito mais que um sistema de saúde é um programa social que distribui direitos. E um deles, muito importante vimos surgir na matéria aludida: pretos e pardos alcançaram a longevidade dos brancos em 22 estados da federação. Isso não é pouca coisa, mas um atestado de eficiência que provocará o ataque de um governo francamente desprovido de quaisquer preocupações sociais.

E este desmantelo que atinge o SUS tem que entrar nas preocupações de uma oposição que vai às ruas tentando derrubar esse governo.

Lembramos ainda que o atraso proposital e criminoso do governo na aquisição de vacinas nesse momento de pandemia poderia ser ainda pior, não fosse a estrutura do SUS e sua capacidade de vacinação. Tivessem mais vacinas, vacinaríamos muito mais ainda.

____________________________

desenho: Vilé em Agência Sindical in: https://www.agenciasindical.com.br/sus-pode-ser-privatizado-com-publicacao-de-novo-decreto-de-bolsonaro/

5 comentários em “O ódio ao SUS é um ódio de classe

  1. Excelente! Não vi esta publicação na imprensa mas não tenho nenhuma dúvida de que este é o pensamento de grande parte de certa classe média e dos ricos. E os representantes do poder legislativo que na realidade ali estão defendendo seus interesses de classe são vigilantes destes interesses . No Rio de Janeiro a secretaria de saúde da prefeitura administra a rede nesta mesma lógica. Infelizmente .Até mesmo no meio daqueles que gritam “ Fora Bolsonaro “

    Curtir

  2. E ja falei uma vez. A ignorancia e muito grande. Mesmo os q desprezam o sus sao por ele beneficiados. Das sessoes de quimio do meu pai o bacen entrava com 2 eu com 1 e o sus com 12. Mas vivemos isso mesmo. O primado da ignorancia orgulhosa. Abs

    Enviado do meu iPhone

    Curtir

Deixe uma resposta para Bernardo Assis Filho Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s