CONTÁGIO VIRAL – UM RECADO DA NATUREZA


Quando criança no interior do Piauí, era muito comum aparecer, de vez em quando, galinhas gripadas. Dizíamos que a ave estava com gogo. A galinha goguenta expelia uma “baba” pelo bico, e muito parecida com uma pessoa gripada, mudava o piado e chiava.


E quando aparecia uma galinha com gogo o contágio era inevitável e logo todo o galinheiro era contaminado. Portanto, se fazia necessário sacrificar o animal, ou isolá-lo do grupo até que a gripe passasse. Quando abatida, a ave era enterrada ou incinerada, nunca consumida por nós.


Outro dia, lendo “Contágio” de David Quammen, aprendi que, como as gripes humanas, a aviária tem mutações também. E o mesmo Quammen esclareceu que o agregamento (tanto de seres humanos como nos animais) interfere na letalidade do vírus, quanto na capacidade de contágio.


Assim, aves soltas num terreiro ou quintal, por exemplo, o vírus tende a ser menos letal porque matando o hospedeiro, o vírus fracassa na tentativa de se reproduzir e desaparece com a vida do animal contaminado.


Já em criadouros de aves, com elas todas engaioladas muito próximas umas das outras há possibilidade de que um vírus muito letal possa aparecer, já que passa a outro hospedeiro pela facilidade da transmissão.


O autor do livro citado (escrito antes da Covid) anunciava que nosso modo de produzir alimentos (aves, bovinos, suínos ou caprinos) teria a facilidade de desenvolver vírus de alta letalidade com aumento da capacidade de transmissão. Anunciava ele que esse aprendizado de letalidade e transmissibilidade provocada pelos humanos facilmente provocaria um “spillover” (transbordamento) de uma espécie a outra, podendo nos contaminar.


Ora, parece que isso ocorreu com o coronavírus, que teria um reservatório natural nos morcegos, tendo pulado aos pangolins, que criados em cativeiros nos mercados saltaria aos humanos.


Pode ser que isso não tenha acontecido com o coronavírus, ainda é uma hipótese. Mas, preocupante foi o anúncio recente de um “spillover” de uma nova gripe aviária a um humano na China. Não se trata do grupamento tipológico que já estávamos acostumados. Foi um “spillover” de uma variante recente ainda dentro da tipologia HxNy.


As autoridades já correram para dizer que o caso foi único e ainda não há provas de que um humano possa contaminar outro. Lembrar aqui que a Gripe Espanhola de 1918 teve origem em suínos. A Asiática de 1957 e a Gripe de Hong-Kong de 1968 foram provenientes de aves.

As “fazendas” de criação de animais para o abate dão passos largos para reaproveitamento do investimento quase que tirando o animal completamente da natureza. E essas fazendas são propícias ao desenvolvimentos de novos vírus. Nosso agro negócio invadindo a Amazônia de forma descontrolada é um grande risco.


A preocupação dos cientistas da possibilidade de um novo vírus letal e de fácil transmissibilidade provocar um “spillover” para os humanos é assustadora. O coronavírus seria menos letal que um vírus vindo da nossa tecnologia em criar alimentos animal. E era esse o temor que David Quemmen transmitia no seu livro.


A gripe aviária em criadouros artificiais é cada vez mais mortal e muito diferente da galinha goguenta que convivi nos quintais de minha infância. E já deu mostras de que pode “transbordar” ao ser humano com o recente caso descoberto na China.


Parece que estamos só sendo avisados pela natureza que nós temos destruído. Como já disse Ailton Krenak, o planeta está avisando que pode seguir em frente sem o ser humano que tanto lhe faz mal.

____________________

Sobre o recente “spillover” de aves para humanos: https://brasil.elpais.com/ciencia/2021-06-01/china-detecta-o-primeiro-contagio-de-gripe-aviaria-h10n3-em-humanos.html#?sma=newsletter_brasil_diaria20210602

Um comentário em “CONTÁGIO VIRAL – UM RECADO DA NATUREZA

  1. O bicho-homem é o único predador do próprio habitat. Não merece o planeta em que vive. Vai desaparecer. E os que trata como irracionais é que vão cuidar dele.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s