ANCESTRALIDADE

MEUS AVÓS PATERNOS

Hoje recebi de parentes a foto de meus avós paternos.

Ela, vó Bebela, mulher forte. Lembro dela sangrar um porco sob seus pés. Ele, vô Sessé, homem cartorial representante da lei: dos homens e de Deus.

Vó, doce infantil na sua fortaleza, me tinha sob o rabo da saia como o neto predileto. Lembro de duas primas, Neusa e Mirian, que juntos e separados disputávamos seus préstimos de preferidos. Mas eu sabia que era eu. Até a prova, no dia em que deixei as concorrentes indignadas.

Vó deixava chocar ovos de patas em galinhas porque segundo ela, na sua sabedoria sertaneja de quem nunca duvidei e prestava atenção, galinhas eram mais cuidadosas do que patas e assim a ninhada “vingava” mais. Galinhas chocas com seus pintinhos e patinhos andando no terreiro eram muito comum.

Um dia, enterrei uma gamela para parecer um lago e botei água. Os patinhos enfiaram-se em nadar, os pintinhos ficaram fora. A galinha, coitada, desesperada em ver seus falsos pintos n’água arrodiava a gamela temendo pela vida dos descendentes em um desespero de galinha choca bicando que interferisse ali.

Minhas primas me acusaram de maldade (e era! toda criança é), Minha vó, demonstrando a preferência, apenas dizia que eu sabia separar patos de pintos…

Seu Sessé, tabelião e pastor, ditava as leis dos homens e de Deus. Nunca duvidei delas. Admirava suas histórias do evangelho que me davam medo. Toda vez que ele lia que o anjo segurava a espada de Abraão para que ele não imolasse seu filho, temia a possibilidade de que meu pai, Moisés, viesse a ser testado comigo. Só perdi o medo quando separei Abraão e Moisés na linha do tempo bíblico.

Mas Sessé era um sábio. Tinha resposta pra tudo. Uma vez perguntei porque ele não usava bigode, moda na época, usada por meu pai e tios. Ele, prontamente, me esclareceu: bigode retinha a sujeira da comida. Concordei. E não foi só essa. Todas as vezes, suas respostas eram bem maiores que minhas perguntas. Me sentia seguro. Um bom homem.

AVÓS MATERNOS

Este casal de sertanejos, arrodeados da parentada numa fotografia desfocada pelo tempo, são meus avós maternos. Lembro da casa de pau-a-pique em que moravam, com um enorme quintal que entrava no rio Parnaíba com canoas amarradas ao barranco que servia de ancoragem em cordas que as amarravam nos pés de pau da beira do Rio.

Pedro Solano era magarefe, matador de bodes, e roceiro em terras do Maranhão que ficavam no outro lado rio. Quando minha outra vó Bebela me deixava ficar com eles, acordava cedo para ver Pedro Solano exercer sua arte.

Manhã ainda escura serenando, numa cerração de esconder os matos do quintal, passava um café num fogo feito para lhe acompanhar durante toda a tarefa. Numa chaleira de ferro fundido esquentava água com um café preto e forte, sem coar, que tomávamos em canecas de alumínio. Ele cuspia o fumo que mascava junto com o café e eu aproveitava para imitar o gesto de jogar aquele café amargo mais fora do que engolia (o ato era para acompanhar o avô e crescer homem, mas o café – lembro ainda, apesar de perdido no tempo – era intragável).

Depois ele matava o bode (vou poupá-los dos detalhes do meu atento interesse). Mas tirar o couro do cabrito era de uma arte invejável e depois espichá-lo em talos de cocos esverdeados para que o couro secasse sem quebrar os espetos que o mantinha esticado durante o processo (a casa do meu avô tinha alguns couros de bodes fazendo vez de tapete).

Os cortes do cabrito já eram separados segundo as encomendas dos fregueses, depois colocados num jacá de talos entrançados para transportar a carne ao mercado (não ia com ele, mas mais tarde atravessámos o rio e ia com ele no roçado, acompanhar pedaços da queimada, da plantação em covas de enxada e a colheita de milho e feijão).

Depois da arte do velho ia ter com vó Maria para tomar o café de verdade, que ela preparava num bule de esmalte verde com flores de alto-relevo encarnadas. Dessa vez, café coado, já adoçado no bule e misturado ao leite quentinho e borbulhante com muita nata. Acompanhava uns beijus grossos feitos num forno no quintal ou cuscuz de arroz feito num prato, amarrado com um pano e virado de cabeça pra baixo na boca de uma panela para cozer no vapor.

Vó Maria, que meus primos que moravam do outro lado do Rio tinham o privilégio e exclusividade de chamá-la Mãe Velha, logo depois ia preparar a boia do almoço num fogão de lenha naquela cozinha esfumaçada. Morava mais com vó Bebela, mas tenho maior lembrança da casa de taipa, coberta de palha, com piso de terra batida dos meus avós maternos. As histórias de assombração na noite, à luz de lamparinas, me acompanham até hoje.

***

Na foto destaca-se tio Romano, que certamente já morava no Rio de Janeiro e os visitava (para o pessoal psi esse é o pai do inesquecível primo Jorge Romano – o Joe); atrás dos pais, meu tio Manel que nunca saiu do interior, tinha lábio leporino, que se recusava operar e morreu novo; tia Laudete querida, ainda menina e uma prima dos meus tios. Minha mãe não está na foto. Fomos cedo morar em Teresina e meus avós paternos também foram. Os sertanejos avós maternos nunca se adaptaram à cidade grande. Há um bom tempo voltei a Palmeirais e vi a casa deles, com algumas modificações, mas reconhecíveis. Deu saudade.

Ah, e outra nota para os psi que me leem: creiam que a matança do bode não me deixou qualquer trauma, nunca nem sonhei com ela como gostaria. A rememoração tem um gosto de saudade e despertam singelos afetos às vidas sofridas dos meus conterrâneos. Marcaram em mim mais o sofrimento humano do que o do bode, carne que aprecio com gosto de infância.

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textos publicados no Facebook em 25 e 26 de maio de 2021

Um comentário em “ANCESTRALIDADE

  1. Meu irmão querido Edmar,
    Nem imagina o quanto eu viajei nas suas lembranças, como se fossem as minhas, tão próximos estamos em nossa bela realidade nordestina.

    Você, que já leu as minhas lembranças que reuni no meu “Perfume de Resedá” e sobre ele fez generoso comentário, pois você tem substância e combustível de memória de sobra pra fazer um perfume ainda mais cheiroso com as SUAS memórias, perfumadas com as histórias das gentes do seu bem-querer.

    Abraços. Eu não o perdoarei se não me abastecer regularmente dessas lembranças que constituem, ao final, o que somos. E pressentem o que seremos. Ou o que um dia já fomos.

    Sabe o nome disso, irmãozinho? Pois aprenda: é…vida! Vida sim, porque tudo o que juntamos é nossa história. Ou seja … Nossa vida.

    Abraços.

    Saudades do

    Paulo José Cunha ( lá do Diocesano, lá da grama da Frei Serafim, lá de onde surgiu um certo jornalzinho despretensioso que venceu o tempo e já virou história)

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