Querem tirar nossa imagem da foto. Que coisa feia!

Foto em que o camarada Trotsky foi excluído da participação no discurso de Lenin

Não costumo responder a tentativas de apagamentos da história, essa prática nojenta de se negar méritos a quem se discorda, até porque sei que eles são sempre desmascarados no futuro. Já sofri tantos e me calei, mas hoje não estou me contendo e peço desculpas antecipadas.

Uma tentativa de falar da Reforma Psiquiátrica no Engenho de Dentro me tirou do sério. Nesse período de comemoração da Luta Antimanicomial, o encontro “Endereços na Cidade: é o fim dos manicômios” provoca esse texto pelo apagamento além da conta. O endereço anunciado está errado porque tiraram a rua do mapa. Como se fosse possível emudecer o divergente sem direito a resposta. Tirar da foto, como fizeram as ditaduras mais escrotas (desculpem o palavrão). É revoltante. E não foi pouca coisa, foram quase dez anos de dedicação a uma proposta que resultou no livro “Ouvindo Vozes” (Ed. Vieira & Lent, RJ, 2009) hoje reconhecido por atores da reforma que está sendo atacado para anular sua existência. Por isso me manifesto. Só para afirmar que o livro existe.

Primeiro, lá, já naquela época, propomos o fechamento do manicômio, porque vidas não podiam esperar. Essa foi a nossa discordância com a Secretaria de Saúde da época, e por não aceitarmos recuar, saímos. Estávamos numa situação em que ou avançávamos ou recuávamos, não se podia ficar onde estávamos. Termino meu relato da experiência com o seguinte argumento:

“Talvez o objetivo desse depoimento, que é a apropriação indébita de outros relatos de pessoas que ajudaram na construção desses sonhos, seja tão somente contar para outras pessoas que esse sonho aconteceu. Mesmo que por pouco tempo, mas foi real. Não se pode apagar um sonho que aconteceu. E esse sonho não aconteceu no começo, nem no final, mas enquanto acontecia. Durante a travessia.”

E essa travessia, que nos custou dez anos de erros e acertos, querem apagar. Como se nada nesse tempo tivesse acontecido. Leiam o que escrevi, discordem do livro, argumentem, mas não tentem passar uma borracha de apagar a história. Momentaneamente, de preferência em tempos de autoritarismo, pode funcionar. Desculpem, mas essa é uma prática fascista. Que a história se encarregará de revelar o que de fato aconteceu.

Lá, há doze anos atrás, propúnhamos o fim do manicômio. Não aceito os cuidados para só agora ele ser anunciado. Quantas vidas tiveram alta para o cemitério? Nesses dez anos envelheci, poderia ter morrido e muito dos que cuidávamos envelheceram também, perderam anos que não se podem devolver ou, pior, morreram sem conhecer a terra que lhes foi prometida.

Tudo isso é absurdo, mas pelo motivo de que mais cedo ou mais tarde a história revela o acontecimento, não gastaria meu tempo lhes respondendo. O que mais me tocou foi a justa indignação de uma companheira. Numa mesa desse encontro, é colocado como se fosse natural a transformação do Hospital de Neuropsiquiatria Infantil (que nome!) Vicente Rezende no CAPSi Maria Clara Machado. Posso lhes garantir que não foi assim, apesar da mesa nem ter acontecido ainda. Foram anos de desconstrução desse manicômio de crianças para que o CAPSi pudesse ter nascido. Me admira os companheiros e companheiras que negam essa luta!

Sei que não leram o que escrevi. Mas a quem interessar possa, contei essa história com detalhes nas páginas do meu livro. Senão as pessoas vão pensar que os que carregavam a placa de mármore do tal Hospital de Neuropsiquiatria Vicente Resende onde quer que ele tivesse hospedado, almejando seu renascimento, fizeram o CAPSi sem resistência. Não foi assim. E chegar ao dispositivo substitutivo só foi possível pelo trabalho da camarada Patricia Schmit. Em nome da verdade.

Para quem quiser entrar no conhecimento da história disponho as páginas do meu livro. Contestem-nas, mas não as apaguem. No mínimo, é feio!

Um pedaço do livro Ouvindo Vozes, para os que queiram conhecer o que aconteceu e não se contentem com o apagamento histórico:

“Como já contei antes, o Engenho de Dentro foi, por décadas, a morada e a referência das crianças loucas. O Hospital de Neuropsiquiatria Infanto-Juvenil chegou a ter mais de trezentos meninos e meninas, em alas separadas por sexo, e enfermarias por diagnóstico. O único destino da criança que entrasse naquela casa de horrores era ir para o pavilhão de indigentes aqui no Engenho de Dentro quando fizesse dezoito anos. Isto se tivesse sorte. Pior era ser destinado à Colônia. Aí significava que o caso era do “sem-jeito” para onde iam os condenados à morte em vida. No abandono do serviço público, nos anos da ditadura, que desembocaria na crise da Previdência, aquele hospital de degradados foi-se degradando até ser condenado por risco de desabamento. Passa um rio subterrâneo por baixo de suas enfermarias. Nos anos da proliferação dos negociantes do infortúnio foi montado um inferno para crianças em Jacarepaguá. A clínica particular só agora sofreu intervenção pública, não interna mais, mas é preciso melhorar a sorte de quem lá ainda mora.

                “Nos anos oitenta funcionou num pavilhão horrendo, partido em duas alas, com muito menor espaço que o anterior, com sessenta almas. Quando o trabalho desta narrativa começa ele já estava num terceiro local, ocupando duas enfermarias, agora em cima e embaixo, com quinze meninos e o mesmo tanto de meninas. Os trinta leitos ficavam aos fundos de um vestíbulo onde existia um ambulatório. Havia ainda um centro de atenção diária para autistas, separado e independente deste conjunto infanto-juvenil. Mesmo com as mudanças de lugares, uma placa de mármore sempre acompanhou o serviço anunciando ser ali o Hospital de Neuropsiquiatria Infanto-Juvenil. E esta placa como que simbolizava o sonho desfeito. A equipe, quando assumimos a direção, reivindicava a recuperação do primeiro pavilhão neuropsiquiátrico.

                “Neste setor, antes do objetivo do desmanche, era necessário juntar as atividades com crianças sob um mesmo comando para, a partir daí, executar a proposta de desinstitucionalização. Esta palavra horrorosa e de difícil pronúncia quer dizer apenas que a desospitalização se faz ao mesmo tempo em que a construção de outros serviços que substituem o hospital. Nesse seguimento, completamente diferente dos outros, o substituto do senhor do castelo tinha que tomar o castelo para fazer de dentro pra fora sua destruição. O nome já indicava. Não era um diretor, mas um sub-gerente do projeto em execução, como os outros três. O nomeado implicou com o sub. Ora, o gerente era eu. Sub-gerente fazia o projeto se integrar como um todo. Para um conjunto harmônico que unificasse antigos reinos.

                “Começa mal, meu nomeado. Tinha procurado alguém da equipe que pudesse conduzir. Errei. O sub-gerente se comportava como diretor e alimentava uma idéia, que tínhamos a intenção de substituir. Escolhemos outro. Um de fora dos quadros e dos vícios da instituição. No dia da passagem do cargo, uma surpresa. Todos os funcionários vieram de preto, explicitando o luto pela saída do diretor. Parecia impossível qualquer mudança. Mas ali acertamos em cheio. Quando a nova sub-gerente foi embora, para um curso de formação nos Estados Unidos, todos choravam. E ela já tinha feito mais da metade da reforma proposta. Acertar na condução do processo é uma tarefa do gestor. E faz toda a diferença.

                “Na qualidade deste novo condutor do processo, podemos destacar uma, de sabedoria necessária a um bom gestor: mandar fazer o que sabe fazer. A sub-gerente tomou sob seus cuidados os pacientes mais difíceis, as tarefas mais banais. Foi um longo percurso e o desgaste de ser submetida a várias provas de fogo. Mas o final foi recompensador. Teve os acidentes de percursos. E, nesses, a explicitação da direção tem que ser tomada de imediato e sem titubeios. Em toda a cadeia de chefia, que o chefe de cima tem, sempre, que fortalecer o seu subordinado, tomando para si os problemas do outro, como se fossem dele.

                “Um episódio pode ilustrar um destes acidentes e sua resolução sem vacilo na decisão. Vitor era uma criança difícil, destes casos em que nossa intervenção pode mudar o destino. Tido como psicopata, e o hospício tende a chamar de psicopata ao que rejeita, um dia ameaça atear fogo com um jornal em chamas nas pessoas que estão esperando consulta no ambulatório. Claro que havia de ser tomado uma atitude imediata dos terapeutas, mas o médico responsável resolve chamar a polícia para conter o menino, naquela época com quinze anos. O interessante é que a polícia pergunta ao médico o óbvio: geralmente era chamada nestes casos para levar o paciente ao hospício. Já que estava no hospício deveria levar pra onde? Parece absurdo, mas o doutor queria o paciente no instituto para menores infratores. Se para lá fosse, o destino de Vitor seria inteiramente outro. Mais tarde abordaremos este caso. Naquela oportunidade, a sub-gerente pensou em afastar o médico. Tomamos esta resolução como nossa e fizemos a transferência imediatamente. Outras aconteceram, o que fortaleceu a chefia do seguimento e mostrou para a instituição que o poder do hospício, sempre do lado dos funcionários e contra o paciente, havia mudado de lugar. E as gentes boas e sérias que estavam trabalhando meio desacreditadas se colocaram na defesa do projeto apresentado e com a crença transmitida na supervisão. Isto foi importantes para o êxito alcançado. Na lavoura, eliminar a erva daninha é vital para o desenvolvimento da plantação. No hospício, geralmente o servidor que serve ao paciente está sufocado pelos servidores que servem apenas a si, acima de todas as coisas.

                “Passada a fase de capina, o projeto toma um rumo. A equipe se empenha, vários servidores identificados com os problemas dos pacientes aparecem. Eles sempre existiram, mas estavam sufocados. O ambulatório e o centro de atenção diária passam a fazer um trabalho integrado. Também aqui, mais percalços no caminho, mas já foram rompidos com mais facilidade. A enfermaria era um horror. Crianças ainda encarceradas como quando acontecia no pavilhão inicial. Muita criança internada ainda. Uns, já maiores, permaneciam ali. Um senhor com cara de criança morava na enfermaria infantil aos quarenta anos de idade! A saída só lhe fez bem. Hoje, com barba cultivada, morando numa pensão interna, já não tem aquele rosto juvenil que conhecemos. Kelly era uma paciente quase adulta trancada na enfermaria. Não podia sair. A sua história conto depois. Mas não esqueço de vê-la contida, eufemismo para uma amarração de braços, pernas e abdômen, cena comum do hospício, sendo alimentada por uma seringa com sonda, tão agitada estava que não aceitava alimentação.

                “A primeira providência era reduzir leitos. Procurou-se um outro espaço, mais com jeito de casa e fizemos o Hospital-noite Isabela Martins, que ficava perto do Hospital-dia. Isabela Martins foi uma paciente que, internada com febre e dores na emergência psiquiátrica, à noite, foi encontrada morta pela manhã. Tinha doze anos. Colocamos este nome no novo espaço para que ele não fosse esquecido, coisa natural no hospício. O Hospital-noite Isabela Martins tinha doze vagas, seis masculinas e seis femininas, não mais em alas, mais juntos, com um refeitório comum. A mudança de qualidade ficou muito evidente. A equipe ganhou em auto-estima. O ambulatório foi encaminhando os casos possíveis aos ambulatórios dos postos de saúde e continuou com os mais difíceis, aqueles casos que seriam mais bem atendidos em atenção constante. À época o antigo grande hospital já havia sido reduzido a doze leitos, um ambulatório pequeno, de casos graves, em passagem para o Hospital-dia. E um programa único e coeso.

                “Este formato durou cerca de três anos e meio. Após este período passamos à fase final do projeto neste seguimento. Numa casa no bairro da Piedade, fora do espaço hospitalar e em comunidade, foi inaugurado o Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil(CAPSi) Maria Clara Machado. Este serviço comunitário responde pela atenção de infanto-juvenil em saúde mental na área do subúrbio do Rio de Janeiro. No Engenho de Dentro foram encerradas as atividades de Hospital-dia, Hospital-noite e ambulatórios para crianças e adolescentes, ficando esta responsabilidade ao encargo do Maria Clara Machado. Se há necessidade de internação, que já quase não há, ela se faz na enfermaria de curta permanência do hospital psiquiátrico do Nise. Dele falaremos depois.

                “O que aqui se encerra é a assistência a crianças no antigo hospício. Acabou. Uma internação esporádica pode acontecer no hospital de agudos. Aqui não moram mais crianças e elas não vêm mais ao hospício. Lugar de criança é fora do hospício. O Maria Clara Machado, essa masculinização de mulheres fortes que não precisam do artigo masculino, é um serviço na comunidade que faz a atenção a crianças e adolescentes que antes tinham que entrar no hospício e, quase sempre lá ficavam. Círculo encerrado. Missão cumprida, e não tão longa, que a determinação, por vezes, é a mais rápida das ações…

                “Mas Vitor foi construindo seu caminhar. Deixou-se ser ajudado. Morou com outro paciente com muitas crises entre os dois. Depois foi para outra cidade morando numa comunidade religiosa. Na vida afetiva sempre procurou mulheres mais velhas para um cuidado que sempre faltou. Um garoto bonito, inteligente, com um curso de informática aprendeu algumas tarefas para sobreviver. Conseguiu construir uma vida que parecia impossível. Hoje tem uma companheira, da mesma idade, que lhe ajuda a suportar as perdas. Tem recaídas, que sempre acontece neste esforço de Sísifo. É o nosso trabalho. Mas desde que a pedra seja empurrada lá pra cima e não fique só cá embaixo, vale o empenho e a vida que não ficou soterrada no cemitério dos vivos. No caso de Vitor parece ter havido uma mudança completa num destino que parecia fadado à delinqüência. Se não fosse interrompido o “remédio terapêutico” para a casa de correção, como o diagnóstico de uma psiquiatria asséptica assegurara, Vitor poderia ter um destino trágico. E muitos foram os caminhos para a tragédia. Difícil o fio da navalha que o conduziu à vida. Mas o investimento foi recompensado.

                “Outro dia, chegando ao hospital, cruzei com Kelly na calçada indo para o CAPS. Quase não a reconheci. Uma negra alta, esbelta. Bem vestida de saia longa e blusa de malha. O cabelo com tranças “rastafari”, na moda. Em nada se parecia àquela imagem de quando a vi pela primeira vez. É muito bom ver uma vida se transformando assim. Impagável…

Um comentário em “Querem tirar nossa imagem da foto. Que coisa feia!

  1. Ler o seu livro, o “Ouvindo vozes” tendo vivido também tantas questões que nos rondavam naquela caminhada , foi uma emoção sem tamanho … pra quem está chegando agora , vai um verso da canção do Abel Silva que o Paulinho gravou: “ as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender …” Grande e bela caminhada, caro Edmar !

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