A DIREITA ASSUSTADORA NO “BRAZIL”

O tamanho do Brazil de direita é assustador.

Nos enganamos, por muito tempo, com a hegemonia que tínhamos – nós da esquerda ou próximo a ela, ou ainda mesmo uma direita esclarecida – nas instituições. Nas universidades, no serviço público – repartições, ministérios, nos órgãos da administração federal, municipal e estadual –, no meio artístico, mesmo nos órgãos de imprensa afeita a defender a elite, éramos representantes do pensamento hegemônico. Quase tudo que não trazia a marca desse pensamento hegemônico nos interessava e nem tinha voz, nem sua opinião discordante era levada em consideração.

O homem comum, a maioria da sociedade, não se atrevendo a opinar, parecia não existir. Achávamos que com as certezas do nosso discurso podíamos arrastar as multidões por encantamento, se não fosse por convicção. E por convicção foi muito importante o trabalho de núcleos de base do recém criado Partido dos Trabalhadores à época, abandonado quando o partido alcançou o poder.

Não contávamos com a rebeldia do discurso de uma direita pouco esclarecida que estava encapsulado, pois poucos se atreviam a enunciá-lo. Ainda não é possível localizar o momento em que se deu a ruptura. Mas não podemos duvidar que a demonização da política feita pela mídia, a acusação de corrupção aos políticos, que sempre houve, como se fosse uma coisa nova (como também aconteceu em 54 e 64) contribuíram para que o pensamento de direita ganhasse as ruas desavergonhadamente.

É bem verdade que nossa anistia recíproca deixou impune e não conseguimos eliminar o revanchismo dos militares linha dura que nunca aceitaram o fim da ditadura militar e aparecem agora aparelhando o governo de direita.

Também a inclusão dos miseráveis pelo consumo e desconsiderando a educação e formação política têm seu rastro na culpa. E de repente nosso pensamento deixou, como por encanto, de ser hegemônico.

E não podemos, de novo, nos enganarmos que a eleição de Bolsonaro trouxe consigo essa mudança que nos surpreendeu. Foi a mudança que acontecia na sociedade que elegeu o governo atual e deu-lhe autorização para executar um programa de extrema direita, que a nós surpreendeu por sua aceitação.

Também a manipulação das redes sociais por um gabinete do ódio produzido com auxílio de especialistas internacionais, que ajudaram a disseminar as ideias esdrúxulas de um Olavo de Carvalho e das teorias conspiratórias sejam responsáveis por uma aceitação que fez a direita sair do armário não explica, embora ajude. Havia uma predisposição. É preciso um terreno fértil que aceite a plantação e implantação de ideias. Por mais que nos pareçam inverosímeis, elas floresceram com uma rapidez estonteante.

A manada evangélica, desprovida de tudo, aceitou a condução do seu pastor por não ter onde colocar suas desesperanças que não seja em um milagre divino. As milícias cresceram na ausência deliberada do Estado para a proteção e cultivo do pensamento de direita. O velho já tinha nos ensinado que o lúmpen não possui consciência de classe.

Por outro lado, o próprio neoliberalismo tem implicações na subjetividade da sociedade fazendo com que o indivíduo raciocine na lógica de empresa, como um empreendedor individual sem instrumental para a consciência social. Temos um sem número de “empresários empreendedores” andando de carro, moto ou bicicleta numa corrida que jamais chegará a lugar algum.

As ideias de um pensamento coletivo morreram para em seu lugar nascer o individualismo meritocrático sem se perceber que na corrida para ganhar o pão os contendores não saem da mesma posição. Quem tem alguns corpos de desvantagem por educação e história familiar na pobreza, jamais ultrapassará os da sua frente. A exceção só confirma a regra.

Mas se antes os desprovidos de conhecimento traziam seus preconceitos, o conservadorismo e opiniões envergonhados, num determinado momento os exibiram desavergonhadamente, com orgulho até e com desinibição para os colocarem em pé de igualdade no discurso e desejosos de suplantar o conhecimento e seus conceitos.  

Ser de direita, conservador, defendendo mitologias contrárias à ciência passou a ser orgulho em exposição, que assustou até a direita mais esclarecida. E as manifestações misóginas, machistas, homofóbicas, racistas, explicitadas afrontando o avanço civilizatório passaram a transitar completamente desinibidas.

Saia da sua bolha e tente ouvir a opinião do vizinho, do seu parente que era calado, das ruas por onde andamos. Estamos no meio de uma pandemia. Temo que quando sairmos dela a direita estará mais rumorosa e pode nos deixar sem ambiente fora de nossa bolha.

O resultado desta pesquisa me deixou preocupado e a situação parece ser bem pior do pior que tínhamos pensado:

Opinião sobre temas atuais entre eleitores e não eleitores de Bolsonaro Imagem: Pesquisa A Cara da Democracia 2021 (INCT-IDDC)

O maior problema é que nossa direita não é esclarecida e a explosão de seus preconceitos e crenças nos deixam muito próximo a um autoritarismo de extrema direita. Se 20% da nossa população acredita que a terra é plana, é muito grave. Que quase 1/3 da nossa gente ache que a China fabricou o coronavírus significa que as teorias conspiratórias ganharam corações e mentes. Se quase 60% dos entrevistados supõem que os hospitais recebem dinheiro para declarar que há mais mortos por covid do que na realidade; e que mais de 30% acreditem que a cloroquina é um tratamento precoce para a doença, significa que o negacionismo é muito maior do que se podia imaginar. E essas três respostas podem nos dar uma ideia da gravidade da situação que nos encontramos.

Mesmo que Bolsonaro seja impedido de continuar ou derrotado nas urnas nas próximas eleições, o que chamamos de bolsonarismo – que emergiu antes dele e o fez seu representante – nos acompanhará por muito tempo ainda. E esse é um problema muito preocupante.

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ilustração: Gervásio

Um comentário em “A DIREITA ASSUSTADORA NO “BRAZIL”

  1. Excelente seu artigo caro Edmar ! Principalmente quando você aponta as «  ilusões » de nosotros de esquerda que nos acostumamos a olhar apenas a parte que nos conforta . Por outro lado você também chama atenção para uma questão fundamental neste momento : a direita brasileira não é esclarecida . Eu diria que ela é anti civilização ! Na verdade a compreensão e a defesa da coisa pública no Brasil não encontra sustentação. Muitas vezes até da própria esquerda quando, ocupando o governo por 12 anos não priorizou a construção universal da cidadania, cedendo ao neoliberalismo e promovendo mais consumo do que a conquista da cidadania plena, dos direitos universais ! Parabéns pelo artigo !!!

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