DOUTOR JAIRINHO E O CAPITÃO JAIR

“Sou um homem: nada do que é humano me é estranho” (Terêncio, 189 – 185 AC)

“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas” (Samuel Jackson, 1709 – 1784)

“Tira a máscara, caralho!” (Bolsonaro, ontem para seu ministro da saúde, em reunião com empresários que o apoiam)

A televisão, em busca de audiência, nos brinda em todos os telejornais com o comportamento incompreensível do Dr. Jairinho, médico e vereador/Rio, suspeito de ter assassinado a golpes que provocaram rompimento de órgãos em uma criança de 4 anos, seu enteado.

Os mesmos telejornais já estão se acostumando com a morte de quase quatro mil pessoas diariamente, vítimas da Covid, que está descontrolada no país e é negada diuturnamente pelo presidente de um “Brasil acima de tudo e com Deus acima de todos”.

O presidente, responsável por muitas mortes evitáveis desse total absurdo já perto de quatrocentos mil cadáveres de uma epidemia que tem entre nós o epicentro, confessa o crime discordando de uma CPI que o STF obriga o parlamento a fazer para investigar responsáveis pelo pesadelo: “não é hora de procurar culpados”. O mesmo argumento que o Dr. Jairinho tentou convencer o hospital para enterrar o garoto e não permitir que ele fosse para o Instituto médico legal para necrópsia.

E o mesmo país “acima de tudo” se escandaliza com o crime que é atribuído ao Dr. Jairinho e parece anestesiado com as quatro mil mortes diárias, número descontrolado que poderia ser bem menor se o presidente e sua atitude negacionista não incentivasse a aglomeração, desdenhasse do uso de máscaras e apelasse para um patriotismo de manter a atividade econômica, enquanto empurra a manada para a morte.

É que o infanticídio atribuído ao Dr. Jairinho e o genocídio, que tem que ser debitado na conta do Capitão Jair, tem uma ligação na formação psicológica, social e política dos dois personagens muito mais próxima do que podem imaginar os habitantes perplexos desse país e a situação absurda por que passamos nos dois casos, aparentemente distantes.  

O que a TV não mostra é que o Dr. Jairinho foi eleito pelo partido de nome irônico de Solidariedade, aliado da coligação que elegeu Bolsonaro. Na propaganda em que concorreu a vereador o cartaz alardeia suas “qualidades”: defensor da família, contra a ideologia de gênero, a favor da escola sem partido, fechado com Bolsonaro. Sintomático.

Os canalhas se refugiaram num patriotismo verde-amarelo meio idiotizado, numa religião regida por um Deus vingador, contra uma inacreditável mamadeira de piroca que provocaria uma mudança de gênero inventada, a favor de uma família conservadora inviolável, querendo uma escola que não discuta ideologia, que acharam na candidatura de um “mito” fabricado o representante ideal que promovesse a ignorância a ostentação e tirasse do armário antigos cães raivosos reprimidos pelo saber e envergonhados até então.

Claro que nem todos os que votaram em Bolsonaro tem esse perfil. Apenas foram contaminados por um discurso que destruísse uma “chatice” do politicamente correto, os que estavam incomodados com manifestações identitaristas, os que queriam desapear das estruturas e instituições os intelectuais tidos como pedantes que desprezavam os que menos sabiam, e ainda os que sentiam que não eram contemplados com a hegemonia da esquerda. E foram ainda afetados por uma campanha midiática antipetista, anti-esquerdista, que – como sempre na história – associava o poder de esquerda à corrupção.

Mas o núcleo duro do Bolsonarismo levou para a política canalhas que se faziam passar por patriotas; os que usam a religião para fabricar um deus, a semelhança deles mesmos; uma não discussão de gêneros para desinformar vítimas de suas taras; a defesa de uma família inviolável para esconder aberrações, que tem na deputada Flordelis o esplendor bizarro e criminoso; adeptos de um programa de direita para as escolas escamoteando o “sem partido” e incentivando delatores cúmplices; os que colocaram a ignorância num patamar de igualdade ou superior ao saber, incentivando o ódio a tudo que deles é diferente.

O Dr. Jairinho faz parte desse núcleo. E é filho de um deputado preso e libertado com dívidas com a justiça por ser miliciano e corrupto, o Coronel Jairo. Um episódio importante e que também não foi ligado ao caso atual de infanticídio: em 2008, quando uma equipe do jornal O Dia foi torturada por milicianos, uma repórter – apesar de encapuzada – reconheceu a voz do vereador Dr. Jairinho entre os torturadores milicianos comandados por um coronel.

Tudo faz parte de um câncer que tomou o Brasil. O discurso de extrema direita vitorioso depositou no capitão a feitura de uma destruição civilizatória que Bolsonaro nunca escondeu. Ele apenas foi o cavalo de Troia para militares ressentidos e saudosos da ditadura novamente ocupassem o poder e a ala ideológica de direita trouxessem para o governo as perversões dos canalhas para ditar uma normalização pelo comportamento perverso e não mais neurótico.

Revelou-se um Brasil perverso acima de tudo. E um deus corrompido e pervertido foi colocado acima de todos para normalizar a perversão como comportamento aceitável.

Doutor Jairinho e Capitão Jair são da mesma natureza. Psicológica, social e política, como muitos que ainda defendem esse absurdo governo.    

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desenho: 1000TON

2 comentários em “DOUTOR JAIRINHO E O CAPITÃO JAIR

  1. Excelente artigo!
    Parabéns Edmar ! Jairzinho e Jair são as duas faces da mesma obscenidade ! No sentido mais verdadeiro do obsceno é o que estes dois nos oferecem com seus sorrisos tristes do mal .

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  2. Tudo que está acontecendo no nosso país é absurdamente doentio, perverso, venenoso , cruel, desumano. Chega desse “desgoverno”. Até quando iremos ficar de braços cruzados! #ForaBolsonaroGenocida.

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