A FENDA NO TEMPO

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”

Antoine de Saint-Exupéry

Outro dia, depois de saber da maravilhosa notícia do fechamento do Juqueri, paquidérmico manicômio paulista, fiz uma provocação nas redes sociais, perguntando se o Hospital do Engenho de Dentro não tinha inveja do que aconteceu ao seu homônimo paulista que tomou a dianteira terminado sua existência.

Deixem-me fazer um parêntese pra quem não sabe: O Engenho de Dentro é o herdeiro do Hospício da Praia Vermelha, o primeiro hospício da América Latina inaugurado em 1852 e transferido para o Engenho de Dentro na década de 1940. Nele trabalhei por vinte e cinco anos, sendo seu diretor pelos nove últimos anos em que lá estive.

Nestes anos de direção, uma fabulosa equipe com quem trabalhei elaborou um projeto responsável de desinstitucionalização, com desmonte do paquidérmico complexo asilar, resultando em quatro CAPS II para transtornos mentais, um CAPS ad, um CAPSi, paridos das entranhas do velho hospício. De lá ainda saíram as primeiras RTs (residências terapêuticas) da área programática e o fechamento da emergência psiquiátrica especializada e sua incorporação à emergência geral do PAM Del Castilho. Todos os pacientes moradores tiveram o status de residentes individualizados numa preparação, ainda nas dependências antigas transformadas arquitetonicamente, para a definitiva saída residencial em apartamentos comunitários. O Museu da Imagem do Inconsciente e o Acervo Histórico que conta parte importante da história da Psiquiatria no Brasil planejou-se devolver ao Ministério da Saúde por sua importância nacional (o complexo hospitalar havia sido municipalizado em 2000). Preparou-se no ano de 2009 a extinção do antigo manicômio, separando suas partes com independência, mantendo um pequeno hospital de agudoS de 90 leitos fora do antigo complexo desativado, para sua substituição definitiva pelos serviços substitutivos, tão logo fosse possível.

Todo esse processo está descrito exaustivamente no meu livro “Ouvindo Vozes” (Vieira & Lent Casa Editorial, RJ, 2009), onde também me apropriei das histórias de vidas soterradas que aprenderam a voltar a viver durante o processo de transformação que acontecia (obs. Vidas Soterradas e Voltar a Viver são dois capítulos chaves para o entendimento do que motivou o processo de tentativa de superação do asilo).

Mas não concluímos o nosso sonho. Por injunções da política fomos impedidos de concluir o processo. E, na época, sabíamos que ou avançaríamos para a superação do manicômio ou ele retrocederia e não suportaríamos o retrocesso (quem se der ao trabalho de ler o livro entenderá essa angústia).

Ainda bem que tive a sorte de documentar essa experiência para que ela não caísse em esquecimento. Tantas vezes recomeçamos algo sem ligar para a experiência anterior. Se ela está documentada pode ser utilizada para se entender os erros e acertos para correção e acertar no refazimento.

E se fracassamos por não concluirmos a desativação do hospício, fomos vitoriosos enquanto acontecia o processo. Assim terminamos o relato:

Talvez o objetivo deste depoimento, que é a apropriação indébita de outros relatos de pessoas que ajudaram na construção destes sonhos, seja tão somente contar para outras pessoas que este sonho aconteceu. Mesmo por pouco tempo, foi real. Não se pode apagar um sonho que aconteceu. E esse sonho não aconteceu no começo nem no final, mas enquanto acontecia. Durante a travessia.”

***

Voltemos então à provocação que fizemos no início. Nos responderam que o processo que segue hoje “está vivenciando um processo muito responsável, ético e cuidadoso, a despeito do contexto de retrocessos e desesperanças que assolam a sociedade brasileira e o mundo” e sou informado que dos duzentos moradores que lá deixamos só restam vinte para encerrar as atividades do antigo Hospital de Engenho de Dentro.

Fico feliz da retomada do processo, mas preocupado. Do ano que escrevi meu livro para hoje, já se passaram onze anos. Se em nove perdi vidas que não pude recuperar e lamento isso profundamente nas páginas do meu livro, quantas outras já mais velhas não se foram nesse tempo?

Uma das muitas angústias que me afligiram nesse trabalho foi com as mortes silenciosas do hospício. Dedico alguns capítulos a tratar delas. No hospício a morte silenciosa abocanha vidas soterradas que não tiveram importância. Mesmo que tivéssemos uma fenda no tempo encontraríamos vidas adormecidas num passado imóvel, para usar uma figura do filme The Longoliers de 1995 de uma adaptação de um conto de Stephen King[1].

Portanto preocupa-me a velocidade do tempo que é a mesma que nos viaja na vida e os moradores de hospícios são geralmente muito mais velhos que os técnicos. Dez anos são perdas irreparáveis.

Comprimento aos que insistem no projeto de não deixar o hospício ceifar vidas que restam, mas lamento os que não tiveram oportunidade de serem agraciados em voltar a viver.

E falo com um aperto no coração, pois mesmo muitos dos que habitam como figuras vivas as páginas do meu livro, muitos já não estão entre nós. O tempo é cruel.

Pelo menos deixaram um pouco de si e levaram um pouco de nós.


[1] Em um voo rotineiro de Los Angeles para Boston algo extraordinário acontece, pois dez passageiros, que dormiam, ao acordarem constatam que são as únicas pessoas no avião. Todos os que estavam acordados sumiram e eles descobrem que entraram numa fenda no tempo para o passado onde tudo vivo desapareceu.

4 comentários em “A FENDA NO TEMPO

  1. Hoje eu não consigo dizer nada,desculpa.A leitura me levou ao Engenho de Dentro – na época, sinônimo de hospício,lugar para onde eram levados os que desafiavam .Eu tive um parente que foi “tratado” ali. Nos dias de consulta/tratamentos com eletrochoques , retornava todo urinado e até com os lábios sangrados .Um horror!

    Curtir

  2. Belíssimo depoimento, caro Edmar .
    E sempre permanece uma interrogação sobre aqueles que ficaram pelo caminho… um pouco parte do que fizemos ou quisemos fazer …

    Curtir

  3. Relato breve, mas contido da emoção provocada pelos sonhos e pesadelos vividos…toda experiência deveria ser registrada para não se perder e em homenagem aos que dela participaram.
    História de amor e de luta pela liberdade !
    Parabéns

    Curtir

Deixe uma resposta para anaszapiro Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s