A PRAGA QUE NOS ATACOU

Repórter da Mídia alemã DW entrevistando a epidemiologista brasileira Ethel Maciel – Repórter alemão: “Como os brasileiros, com esse número de mortes, não se revoltam; não se insurgem?” Epidemiologista: “Eu não sei!”

A Praga resolveu nos matar com o vírus e nada em Pindorama é capaz de detê-la. No país já temos mais do que a população do Rio de Janeiro inteira contaminada pelo vírus. E mais de ¼ de milhão de mortos, e em crescente aumento, parece não mais importar. Os números que saltam do noticiário são frios. A população de Manaus, como peixes fora d’água, arfam suspiros patéticos sem oxigênio que não mais existe nos cilindros dos hospitais. Pacientes entubados são amarrados às camas por falta de sedativo e se desesperam frente uma morte dolorosa.

Leitos de UTI não mais existem em várias capitais do país. A cepa mutante de Manaus, assim como a situação caótica de sua rede hospitalar, são ameaças de espalhar o terror por todo território nacional. Governantes decretam toques de recolher inócuos, quanto é necessário o lockdown imediato. Vacinas não há. E só o lockdown conjugado com uma vacinação efetiva deteria o vírus. Mas a Peste não planeja interferir na virulência de uma doença devastadora, não existindo quaisquer ações conjugadas de um Ministério da Saúde. As secretarias municipais de saúde, sem um comando central, imaginam prioridades desconectadas que, na escassez da vacina, pioram o quadro já dramático. Espaço para o mau-caratismo, que floresce desavergonhado: furar a fila, desviar vacinas, aplicar vento na seringa sem o imunizante.

Hoje, até os jornalões fazem a previsão de um caos no país. Ninguém dá bola. Negacionistas se aglomeram em festas clandestinas, nas praias, com o intuito de levar o vírus do darwinismo social para matar seus velhos, seus doentes, os mais frágeis. Alguns jovens estão morrendo mais, algo que vem acontecendo com cepas mutantes. O discurso do Verme se impôs. No dia em que anunciaram a maior mortandade em 24 horas, quase 1600 óbitos por Covid, o Verme pouco se lixava e declarava que o uso de máscara tem efeitos colaterais. Que não as usa porque tem sua opinião. Opinião idiota que se opõe à ciência requisitando o mesmo direito de validade. A ignorância ostentação nacional acompanha o mito que elegeu para ter o direito de ser imbecil com orgulho. Há pouco tempo ouvi de uma senhora irritada: “toda morte é de covid? Estão inventando essa doença para prejudicar o presidente”. Se ainda vive, tendo escapado de sua própria negação, deve defender sua ignorância ainda com unhas e dentes.

Enquanto alguns países já sentem a queda da pandemia numa conjugação de isolamento social e vacinação, nós disparamos no número de casos e mortes. É uma segunda onda impulsionada com uma primeira que não foi contida. Já somos criadouros de cepas que podem resistir até à vacina que não temos. Enquanto ainda não conseguimos vacinar nem 5% da população com uma primeira dose, alguns países já pensam numa terceira dose para enfrentar a mutação.

O principal, neste caos que vivemos, é que o discurso negacionista do Verme ganhou a narrativa sobre a pandemia. Para tanto, o Ministério da Saúde foi inativado e um vassalo negacionista atrapalhado – colocado na função de ministro – retardou a aquisição de vacinas, indispôs o país com laboratório produtores, atrasou criminosamente o início da vacinação, interrompida frequentemente por falta planejamento de compra; não assumiu a coordenação do processo, deixando cada município com critérios controversos e em confusão. O ministro trapalhão chegou inclusive a trocar o quantitativo de vacinas entre o grande Amazonas e o pequeno Amapá. O especialista em logística militar não é versado em Geografia (não foi seu primeiro erro) e confunde a estação chuvosa do norte abaixo do equador com o inverno no hemisfério norte. A Venezuela (por incrível que possa parecer aos fãs do mito) nos socorreu com oxigênio no Amazonas, quando a logística militar nos deixou na mão. Sem efetivar qualquer medida no combate à pandemia, o ministro da saúde insistiu num ineficaz tratamento precoce – que negou cinicamente depois.

Com a necessidade de uma continuidade de um auxílio emergencial para quem não tem renda na pandemia, o governo propõe ao Congresso uma PEC que acabe com o teto obrigatório dos entes federativos para a… saúde! Propõe doar míseros pouquíssimos reais aos desvalidos para deixá-los morrer por falta de atendimento na saúde em plena pandemia. Proposta canalha e inominável.

Enquanto isso, os preços disparam atingindo violentamente aos mais pobres e levando novos habitantes para abaixo da linha de pobreza.

E os que tentam escapar de tanta miséria negam a realidade. Já não acreditam nos números da TV, numa doença que avança inexoravelmente para dentro da casa de cada um. E quem ainda escapa numa desesperança não quer acreditar que se adoecer não existem vagas nos hospitais. E os negacionistas preferem viver o tempo que lhes resta como se não houvesse amanhã.

Parece não existir um vírus mortal e um Verme que usa a faixa presidencial de uma nação que desistiu da realidade.

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desenho: 1000TON

2 comentários em “A PRAGA QUE NOS ATACOU

  1. Meu caro,todas as vezes que leio seus textos me emociono mais ,até às minhas entranhas , e sinto saudades do tempo passado.Não por ter sido jovem mas pela falta disposição física e destemor , próprios da idade .Hoje não consigo me ver correndo da repressão mas atirando bolinhas de gude ao chão para derrubar cavalaria que nos perseguia . Parabéns, texto magnífico!

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  2. Caro Edmar
    Seu texto é uma fotografia do que sinto também. Eu fiz um comentário aqui logo que li seu texto . Mas minha competência com os mecanismos digitais fez meu comentário desaparecer . Então novamente tento só para dizer a você que temos que vamos ter que tentar tirar deste pesadelo algum aprendizado já que ao que me parece as eleições de 2022 não vão mudar o quadro . Mas ainda espero que este gosto de derrota e nossa tristeza de ver este país desmoronando tenha algum fim caso a esquerda latu- senso consiga entender porque chegamos a isto … eu estou tentando . E no último «  rebeldes sempre » ouvi uma análise muito boa do Daniel Aarão Reis quando apontou a «  oportunidade histórica «  que perdemos de enfrentar ao longo do processo de democratização a questão das forças armadas , seu lugar e seu papel histórico no país … vale a pena pensar nisto . Grande texto caro Edmar !

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