A PANDEMIA MORTAL PARA A HUMANIDADE NÃO É A COVID

Sinto-me cansado. Uma fraqueza moral me toma o corpo. Uma febre do pensamento aumenta a temperatura com as notícias que parecem comuns. Uma dor na garganta não me deixa argumentar contra o que não aceito, mas já não tenho forças para reagir. Uma falta de ar me impede de acompanhar os acontecimentos que parecem delírio de percepção. As notícias dos teles jornais me causam enjoo e náuseas incoercíveis. Estou doente, parece que contraí o vírus e não tenho mais defesas para enfrentá-lo. As células do meu corpo não resistem a uma invasão maciça de uma doença chamada barbárie. Não sei o remédio ou se tem vacina para um mal tão grave. O Brasil me faz mal. Mas no mundo não há lugar seguro.

Leio a inacreditável notícia de que no mundo atual 2.153 pessoas acumularam um patrimônio que corresponde ao que dividem 60% da população mundial. A Alemanha mandou fazer casulos com baterias solares para proteger do frio sua população de rua no duro inverno europeu. Sentimento de culpa para esconder que o neoliberalismo defendido, por esse e a maioria dos países globais, provoca essa situação absurda? Isso tem como dar certo? Enquanto duas mil e poucas pessoas usufruem uma quantidade da riqueza do mesmo tamanho do que é dividido na base da pirâmide por 5 bilhões de pessoas é impossível fechar uma conta civilizada.

As democracias só tinham sentido se impedissem uma discrepância tão enorme entre o topo e a base da pirâmide, se não o fazem não têm serventia. E agonizam em todo o mundo porque já morreram de autoritarismo da casta que manda no planeta. E essa casta quer mais. Quer a escravidão do trabalhador e a morte do exército de miseráveis que não são reserva de nada mais, como queria Marx para um capitalismo que iniciava uma caminhada para a barbárie, assim previu o barbudo. Nos alertou de que podíamos parar esse destino, mas não fomos capazes com a incompetência e impedimentos das experiências socialistas. Caiu o muro, ruiu o mundo marchando para a barbárie.

A pandemia que grassou no planeta parece ser um ensaio sobre a morte. Parece nos dizer da nossa inutilidade, quando ao invés de cuidar da nossa casa a transformamos em ruína ameaçando seus outros inquilinos. O vírus estava no seu habitat, nos seus hospedeiros de comum acordo, sem grandes ameaças no seu ensaio pela vida. O salto para os humanos sempre é dado quando nos aproximamos ameaçando outras espécies. Parece uma defesa da natureza contra nossa invasão bárbara. E quando adentrou em nossas células luta para se reproduzir e garantir a sua espécie num hospedeiro estranho. A sua letalidade não seria uma ameaça se fôssemos poucos, mas como excedemos no planeta, ele pode nos matar pois pode saltar a outro por perto com facilidade.

O vírus não foi uma ameaça inesperada. Os cientistas sabiam de sua chegada. Não lhe demos ouvidos e a pandemia está cumprindo sua ameaça já sabida. Fomos rápidos nas vacinas, mas são empresas que lucram com a morte que as têm e não os Estados em frangalhos, destruídos pelo neoliberalismo. Os ricos compram primeiro a sua proteção, os pobres ficam numa fila de espera cruenta. E o capitalismo parece aproveitar o vírus para que faça o trabalho das guerras que não mais existem em escala mundial pelo poder da nossa destruição total. A vacina pode prover o darwinismo social se deixar os desvalidos, e inúteis para o capital, por último. Pode terminar sendo uma solução de necropolítica para o neoliberalismo.

E aqui no nosso quintal temos a barbárie já escancarada. A mídia dispensou a democracia demonizando a política. Elegeu um ser desprezível como o “novo” na política, na promessa do neoliberalismo apressar as reformas do fim do Estado para tirar os direitos da população e garantir a exploração do capital com todos os direitos e sem nenhum dever. Para tal fim, permitiu-se o meio da destruição de conquistas civilizatórias por uma pauta de costumes que nos isolou de qualquer contato com um mundo onde resquícios da civilização ainda resistem. A ignorância evangélica distorcida tomou conta de ministérios, destruindo a cultura, a educação, os direitos de cidadania conquistados a duras penas. Enquanto a pauta econômica neoliberal nos tirava direitos, a pauta de costume nos destruía enquanto povo, nos desunia, além de afirmar que a terra era quadrada apoiada em tartarugas de uma burrice gigantesca. E nas bordas dessa terra quadrada, o criacionismo empurrou a ciência para instituir o orgulho de ser ignorante como direito de falar asneiras nas redes sociais.

Claro que para instituir a exploração neoliberal próxima à escravidão, os donos do dinheiro não se incomodaram com a pauta dos costumes. Daí regredimos à escuridão do passado com as correntes do escravagismo retornando presas aos nossos tornozelos. As tornozeleiras que alguns capitães-do-mato usam são morais sem nenhum peso de consciência a serviço dos donos dos escravos.

Qualquer sensatez e rechaçada pelo egoísmo, o individualismo que moldou o cérebro do trabalhador transformado em uma ilusão de ser empreendedor. E os que correram para ser “patrões de si mesmo” terminaram escravos da Uber, ou entregadores de grandes corporações em bicicletas alugadas sem quaisquer direitos porque não mais empregados, mas “colaboradores” enganados e abandonados à própria sorte.

O que antes chamávamos de discurso sensato, coletivo, humanista, político passa a ser pregação no deserto para ouvidos moucos de quem só tem a audição seduzida pelo falso profeta neoliberal que sequestra a ação política e oferece uma promessa de liberdade individual inatingível.

Em Pindorama a prefeitura de uma grande cidade mandou colocar pedras debaixo de viadutos para impedir que moradores de rua fiquem à sombra. Um bom padre pegou uma marreta e começou a tirar as pedras sozinho. De que adianta, se o coração das pessoas é que é de pedra?

E de repente você está muito diferente de tudo que está em volta, feito o padre e sua marreta solitária. E só. E se sente cansado, com falta de ar, e não consegue mais falar, convencer ninguém porque o vírus da barbárie está no ar contaminando a todos.

Sinto-me cansado. Uma fraqueza moral me toma o corpo. Uma febre do pensamento aumenta a temperatura de notícias que parecem comuns. Uma dor na garganta não me deixa argumentar contra o que não aceito, mas já não tenho forças para reagir. Uma falta de ar me impede de acompanhar os acontecimentos que parecem delírio de percepção. As notícias dos teles jornais me causam enjoo e náuseas incoercíveis. Estou doente, parece que contraí o vírus e não tenho mais defesas para enfrentá-lo. As células do meu corpo não resistem a uma invasão maciça de uma doença chamada barbárie. Não sei o remédio ou se tem vacina para um mal tão grave. O Brasil me faz mal. Mas no mundo não há lugar seguro.

____________________________

ilustração: 1000TON

5 comentários em “A PANDEMIA MORTAL PARA A HUMANIDADE NÃO É A COVID

  1. Caro Edmar
    Belíssimo texto que transpira tristeza e desolação diante do horror a que temos assistido nos últimos tempos . E sabemos que as razões pelas quais este horror permanece se devem não apenas a erros cometidos pelas esquerdas nestas terras mas também por mudanças de paradigmas que nos serviram de referência até pouco tempo atrás . E sabemos que não se trata para nós apenas de um estado d’alma da velhice . Trata-se de um trabalho lento e silencioso de produção de ideias que fizeram desaparecer as utopias, a esperança e com elas a perspectiva de que deveríamos retomar o trabalho ao qual nos dedicamos até pouco tempo atrás de construção de uma sociedade melhor e mais justa . Porque na financerizacao do mundo não existe mais sociedade . Só existem indivíduos . Destes, os poucos que tem lugar privilegiado na obscena cena contemporânea olham com desprezo a multidão que se afoga !!! Seguimos juntos mas sem perder a lucidez que nos resta é nos sustenta, seja como for !!!

    Curtir

  2. Me senti tristemente representada por seu texto. Admiro e invejo quem ainda tem forças. Gostaria de reencontrar a fé no ser humano, mas tá difícil pra caralho!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s