VACINA É ASSUNTO DE SAÚDE PÚBLICA

Não bastasse o governo impedir ações de saúde pública para compra de vacinas, insumos e programação de um calendário para imunização por grupos, a ABCvac (Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas) anunciou a compra de vacinas para ser comercializadas pelas clínicas privadas. A ABCvac aproveitou a oportunidade “comercial” provocada pelo negacionismo governamental (com a cumplicidade das instituições que não impedem o absurdo em que vivemos) para transformar imunizante em mercadoria. Um outro absurdo: a ABCvac viu na impossibilidade de a imunização pública ser realizada, a oportunidade de vender uma vacina para quem pode pagar. Essa associação, que devia entender de vacinas (dado seu nome) revelou-se apenas uma empresa capitalista que achou uma oportunidade de transformar um bem de direito público em mercadoria do direito privado.

Realmente vivemos a era dos absurdos. Aglomeramos para a diversão, mas recusamos aglomerar para uma necessária ação política de deter um genocida na presidência (talvez esse movimento provocasse as instituições de um regime que esqueceu de ser democrata com três poderes republicanos). O presidente nega ação da vacina e insinua efeitos colaterais para uma população atônita. Já quase um quarto da população se recusa a deixar-se vacinar (se nem um mecanismo de indução for instituído, o aumento dessa parcela será inevitável). Com desculpas inacreditáveis o governo vai sabotando qualquer possibilidade de que tenhamos um programa de imunização. E agora, a tal empresa que comercializa vacinas aproveita o medo da parte sensata da população, o egoísmo individualista que caiu sobre nossa sociedade, e – entre esses apenas os que podem pagar pela mercadoria – prometendo uma imunização individual para um comodista egocêntrico e bem informado poder circular entre os portadores do vírus – os que propagam a doença e os que morrerão por não poder pagar.

Nada mais falso. A imunização numa pandemia (com um índice de letalidade dessa monta, como na de agora) visa deter a transmissão do vírus. Parar sua passagem de uma pessoa a outra. E isso é um assunto de saúde pública e não de uma medicina privada. Como toda mercadoria vendida no capitalismo a vacina individual vem com os problemas de toda vacina, escondida na propaganda enganosa, natural das mercadorias comercializadas.

Primeiro, não há vacina 100% efetiva e se você estiver fora dos 60, 80 ou 90% da cobertura prevista, você pode estar vulnerável e contrair a Covid (embora tenha se vacinado). Veja que o Reino Unido começou a vacinação e decretou o lockdown por todo o mês de janeiro. São medidas complementares para tentar imunizar apenas o grupo prioritário do momento. Não pense que você vai tomar a vacina e no outro dia sair serelepe por aí. Tem que observar o período entre as duas doses (quando existe) e dar tempo para que o corpo produza anticorpos específicos e que tenha uma resposta efetiva levando-se em conta as características da vacina e as idiossincrasias do seu sitema imunológico. Também no Reino Unido – que está utilizado duas vacinas – a pessoa não escolhe a vacina que vai tomar. É o sistema público que determina e também programa a interação entre os dois grupos vacinados para a imunização coletiva. Segundo, e muito pior, se a vacinação não para a transmissibilidade do vírus e ele continuar circulando é muito provável que ele tenha uma mutação e que não seja detido pela vacina que você tomou.

Como disse o escritor científico David Quammen[1], em recente programa de TV, o vírus que provoca a Covid tem uma excelente resolução biológica para sua reprodução. Ele consegue transmissibilidade antes da pessoa saber que está doente até por cinco dias. Significa que efetuando a missão de todo ser vivo[2] (que é se reproduzir), não importa se ele mata ou deixa vivo o hospedeiro. Em resumo, a boa resolução biológica para o vírus representa uma má notícia para nós hospedeiros.

Nós já temos ciência para deter a escalada biológica do vírus deixando de ser seu hospedeiro atual. Admite-se que ele fez um “derramamento” (spillover em inglês) do morcego para o homem – talvez usando um hospedeiro intermediário. Ele pode ficar no hospedeiro natural onde já convive harmonicamente. Nós entramos nessa jornada por provocação à natureza de outros seres vivos. Segundo o mesmo Quammen, a Amazônia com o desmatamento, agronegócio e pastagem é um excelente lugar para o surgimento de novas ameaças virais ao homem, como talvez tenha sido a China neste caso.

Pois é, já temos conhecimento para deter o vírus e deixar de ser seu hospedeiro em sofrimento. Mas é preciso acreditar na ciência.

E no Brasil é preciso banir os negacionistas do poder para que a ciência atue. Ou os sobreviventes verão a destruição de um país.


[1] Autor do excelente livro “Contágio”, ed Vestígio, 2020. O livro foi escrito em 2012 e os cientistas consultados pelo autor foram unânimes em prever a pandemia que enfrentamos agora.

[2] A bem da verdade não se pode considerar o vírus um ser vivo, mas um protótipo que tenta sua escalada na evolução biológica.

desenho: 1000TON

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