UM GENOCÍDIO E SEUS CÚMPLICES

Quarenta países iniciaram a vacinação para Covid enquanto nos últimos sete dias batemos o recorde de mortes no planeta e sem qualquer plano de iniciar uma vacinação por aqui.

Enquanto Bolsonaro, por um capricho, esvazia a pretensão de Dória para ter a primeira vacina em São Paulo, o Ministério da Saúde inativado (como comentei aqui no último artigo) não coordena qualquer proposta e a especialista Margareth Dalcolmo lamenta o tempo que foi perdido e o aumento dramático de vidas sacrificadas.

A população, atordoada, prefere acreditar no negacionismo do suposto presidente que nos desgoverna e aumenta a quantidade dos que se recusam vacinar acreditando nos “malefícios” propagados pela ignorância ascendida contra a ciência.

Enquanto o Butantã defende sua vacina, a Fiocruz produz outra e a ausência de autoridade sanitária as vezes faz crer que Bolsonaro quer uma vacina melhor que a do Dória (se é que quer no seu negacionismo insano). Mais uma desinformação importante que coloca a vaidade dos dois políticos na frente do interesse público.

Ora, a imunização de uma população, com a densidade desigual espalhada por um imenso território, deveria obedecer a um plano de compra de vacinas de diferentes procedências para atingir o maior número possível de pessoas. As que requerem frigoríferos especiais para baixas temperaturas deveriam ser prioritariamente dirigidas a grupos de risco de grandes cidades com condições de conservar a vacina na temperatura exigida. As que se conservam em geladeiras comuns deveriam ser preferencialmente dirigidas aos lugares com mais dificuldades de acesso. Em nenhuma vacinação anterior, livre que estavam de uma disputa política mesquinha, se interrogou a origem da vacina. O que importa e atingir a imunização de uma quantidade de pessoas que impeça a propagação do vírus.

A imunização não é uma proposta individual. Ela só atinge seu objetivo se o vírus for impedido de circular. Portanto, imunização é uma proposta coletiva. Não muda nada epidemiologicamente se alguns ricos conseguirem uma vacina particular em clínicas privadas ou viajando a outros países (se for possível). Só a imunização coletiva é capaz de deter o vírus entre nós. No coletivo a eficiência e a eficácia da vacina perdem importância para a efetividade. Na vacinação individual é que a dúvida da eficácia é um problema, pois o vírus continua entre nós.

A prova disso é que o Reino Unido, fabricante de uma vacina, compra a de outro fabricante para ter um estoque que permita a rapidez da vacinação. Quanto mais rápido for a imunização da população, mais vidas serão poupadas com a interrupção da circulação do vírus.

Mas aqui em Pindorama todos os tempos foram perdidos para sermos campeões em mortes. Nem se anuncia um calendário para o início de um plano, já capemba, de vacinação. Seremos párias no mundo, parece que um desejo do chanceler terraplanista Ernesto Araújo. Pois no mundo capitalista, os últimos serão os derradeiros. Seremos os últimos a termos a vacina e a morte está conosco. Chegamos a uma situação inacreditável.

Inacreditável porque o legislativo, na pessoa do seu presidente principalmente, nem pensa num impedimento que detenha a sanha genocida do suposto presidente. Estamos numa situação em que o parlamento deveria deter o genocida por crime contra a saúde pública, por insanidade, incompetência, falta de governo ou mais um sem número de razões. A inflação já chega e nossa economia patina com grande parcela da população abaixo da linha da pobreza, um crescente desemprego e complicando para os empregados e aposentados. Um país não pode ficar nas mãos assassinas de quem goza com a morte do povo. Não há clamor que seja atendido por um parlamento inerte e conivente.

Inacreditável porque o judiciário deveria provocar mecanismo que a Corte Suprema impedisse que o suposto presidente cometesse tais crimes. Mas ao invés de exigir um plano de salvamento do povo, o presidente da Corte Suprema solicita prioridade na vacinação para os seus, como se fossem cidadãos de primeira categoria em relação ao povo. Eles são a prioridade. Inacreditável e vergonhoso.

Inacreditável também porque as entidades médicas não denunciam o crime cometido a olhos vistos. Essas entidades que apoiaram o golpe e a eleição de Bolsonaro ficam mudas e coniventes com o genocídio. No mínimo são cúmplices. E serão cobradas perante a história pelo abandono da ciência por conveniência com a ideologia de extrema direita. Com o acúmulo de 200 mil mortes, que um ex-ministro da Saúde estima em no mínimo 20% a mais, essas entidades se portam como os médicos assassinos que apoiaram e deram suporte aos crimes fascistas. O futuro bem que poderia criar um tribunal que julgasse tais médicos membros das diretorias dessas entidades (Conselhos, Federações, Associações) como cúmplices do genocídio que nos aconteceu em tempos de pandemia.  

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Desenho:1000TON

Um comentário em “UM GENOCÍDIO E SEUS CÚMPLICES

  1. As entidades médicas são hoje comprometidas com o poder e a eke subservientes ! Foi- se o tempo em que Eno interior de uma entidade sindical de médicos começou-se a construir o movimento que cresceu dando os primeiros passos em direção à concepção de um sistema único de saúde ! Tempos sombrios estes em que estamos vivendo !

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