POPULISMO DE DIREITA OU NÃO VIMOS O INIMIGO AO NOSSO LADO

“Os defeitos e vícios dos líderes populistas se transformam, aos olhos dos eleitores, em qualidades. Sua inexperiência é a prova de que eles não pertencem ao círculo corrompido das elites. E sua incompetência é vista como garantia de autenticidade. As tensões que eles produzem em nível internacional ilustram sua independência, e as fake news que balizam sua propaganda são a marca de sua liberdade de espírito.” (Giuliano da Empoli)

Em “Engenheiros do Caos” (Editora Vestígio, dezembro de 2019) Giuliano Da Empoli faz um levantamento da máquina montada na Internet para eleger populistas de direita em vários países, desde Trump nos EEUU, Boris Johnson no Reino Unido, Orbán na Hungria, entre outros, até o nosso improvável Jair Bolsonaro. Disseca cada um dos gênios do caos, que na internet manipularam os algoritmos para aparecer artigos sobre a “terra plana” numa busca sobre planetas e sistema solar ou do “movimento anti-vacina” se você procura por temas de saúde. Mostra como o conservadorismo tomou corações e mentes de frequentadores do espaço digital, usando dados das redes sociais para encontrar o público-alvo. No livro, as revelações da manipulação da informação, com a criação de fake News disparado por robôs, comprovam como as eleições estão sendo fraudadas e a democracia atacada em todo o planeta por ação deliberada e orquestrada pelos engenheiros do caos.

Mas não quero fazer aqui uma resenha do livro (embora o recomende aos preocupados com o tema), mas usar esse gancho para comentar alguma coisa sobre o que nos surpreendeu aqui na eleição de Bolsonaro.

Primeiro lembrar o equívoco que foi quando vários partidos achavam (inclusive os de esquerda) que Bolsonaro seria o mais facilmente derrotado numa disputa do segundo turno. Estávamos todos cegos para o fenômeno mundial que já tinha ocorrido em vários países e não foi percebido a tempo: Bolsonaro fazia parte do novo populismo de direita que estava acontecendo e da parte dele não escondeu nada, mostrando uma afinação com Trump na campanha e os filhos acompanhados de Steve Bannon, um dos engenheiros estudados por Empoli. E também não se viu a manipulação eleitoral orquestrada pelos engenheiros dessa direita que aqui assessoraram a candidatura sabe-se lá a que preço. Descobrimos as fakes News de forma retardada e como um fenômeno local. Não foi. E a ameaça de uma CPI sobre o fenômeno esbarrou na desinformação.

Da eleição pra cá, o fenômeno não foi totalmente percebido, sequer foi estudado e nem nos preparamos para enfrentar a reeleição da liderança populista entre nós. Além de ser uma estratégia difícil de ser enfrentada, porque as esquerdas não podem disputar espaço na mesma moeda, também não se preparou um forte movimento de denúncias e esclarecimentos aos eleitores do tamanho da manipulação.

De certo modo também fomos pegados de calças na mão. A esquerda no poder não foi capaz de fazer uma reforma política que tirasse ela própria do pântano em que se enlameou deixando o eleitor pensar que a elite política era a mesma independente de partidos. De certa forma preparamos o terreno para a primeira constatação do escritor italiano: a inexperiência de Bolsonaro e seu ostracismo no baixo clero foram entendidas por seus seguidores como não pertencente ao círculo corrompido das elites. Colou o discurso de que não era corrupto e não foi levantado contra ele as suspeitas que se tornam verdades agora.

A forma bronca do ser, os absurdos que disse e diz o tempo todo, a incompetência de lidar com qualquer tema da política ou da economia assegura a segunda característica lembrada por Empoli: posa de autêntico político que representa o homem comum. As tensões que ele provoca por ataque ao meio-ambiente nas relações internacionais representam sua independência na defesa do país (“eles destruíram o meio-ambiente deles e agora querem controlar o nosso”), com diria Giuliano sobre como os adeptos veem o mito. Cada mentira ou negação a respeito de consensos construídos pela evolução da civilização parecem com a liberdade de espírito que o aproximam do homem comum. As fake News já fazem parte de sua comunicação com o seu público.

Portanto, Bolsonaro é fruto dessa nova forma de fazer política, é um populista de direita pareado aos populistas mundiais e não um azarão que ganhou as eleições. E essa nova política, que mudou o cenário mundial para um conservadorismo extemporâneo, ameaça a democracia no planeta.

É necessário que encontremos uma maneira de enfrentamento dessa questão. Não é o Bolsonaro, mas o populismo de direita que coloca a democracia em risco no planeta. Estamos perdendo o tempo de abordar a questão.

Tentar recolocar a disputa eleitoral nas bases anteriores, negando o óbvio que nos envolveu, é perder novamente por não disputar a narrativa atual.

Sobretudo agora, quando na realidade interna o populismo de direita toma a proposta do Bolsa Família para fazer da Renda Brasil um miserável consumidor às custas dos pobres, sem tocar no bolso da plutocracia. Não será o não-cidadão carente que fará a diferença entre as propostas da esquerda e da direita.

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desenho: 1000TON

2 comentários em “POPULISMO DE DIREITA OU NÃO VIMOS O INIMIGO AO NOSSO LADO

  1. Muito bom caro Edmar ! Esta identificação do brasileiro «  comum » com o Bolsonaro, com os valores conservadores que ele colocou na sua vitrine eleitoral foi um elemento fundamental para sua vitória !
    Acho que um dos problemas que as esquerdas têm é de entender que está na hora de buscar construir uma estratégia que considere as causas e as consequências da eleição desta direita, Passou da hora de ter coragem e sair da bolha, parar de falar para “ dentro”, Um triste exemplo desta cegueira narcísica, apenas para citar o caso do PT, está na candidatura de Benedita à prefeitura do Rio . Vi o triste debate na Bandeirantes e fiquei envergonhada com a fala da Bené. Sem nenhum preparo, Bené não sabia o que dizer . Acho que se olharmos os candidatos nas cidades politicamente mais importantes para as eleições nas prefeituras, vamos nos defrontar com um cenário de completa alienação das esquerdas a respeito deste novo “ mundo’” que se abriu com a vitória desta “ nova” direita que, de verdade, já esteve no poder e no século XX levou o mundo â segunda guerra, para ficar num só exemplo… Haja otimismo pra pensar que as coisas vão melhorar em 2022!

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  2. É isso, Edmar! Precisamos, urgentemente, construir um novo projeto civilizatório levando em consideração essa nova realidade, a virtual! Ela determina, a vida dos sujeitos, tanto quanto outros marcadores sociais.

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