BOLSONARO GANHOU A NARRATIVA SOBRE A PANDEMIA

Desde o começo, Bolsonaro negou a pandemia e se aliou à mortalidade dela decorrente para realizar a necropolítica de controle da sociedade. Não à toa elegeu-se dizendo que a ditadura deveria ter matado pelo menos 30 mil dos considerados inimigos e ameaçou metralhar petralhas se chegasse ao poder. A pandemia lhe deu oportunidade de ampliar – em muito – esse número e os inimigos a serem eliminados.

Primeiro, o conformismo com os que tinham de morrer. Velhos, doentes, índios, quilombolas, pobres da periferia, se morrerem ajudam na melhora dos indicadores econômicos, segundo seu raciocínio da necropolítica. Opôs-se precocemente aos fracos, medrosos, não usando máscara e desafiando o contágio, ou contagiando para separar fortes dos fracos. Mandou o recado explícito de que todos teriam contágio e que o uso de máscara era desnecessário.

Quando as mortes já passavam de muito mais do esperado, em países que enfrentaram seriamente a pandemia, soltou um “e daí?”, um “todo mundo vai morrer um dia” ou “não sou coveiro,” em atitude de cruel desprezo aos que morreram e aos seus familiares. Era um desabafo de que o plano vinha dando certo na concretização da necropolítica invocada.

Claro que o maior trabalho do governo Bolsonaro, em deixar a pandemia solta para agir e encontrar suas vítimas, foi em duas frentes: primeiro, minar o poder do Ministério da Saúde em coordenar as ações num país de dimensões continentais, desigual e com marcantes diferenças geográficas. Para isso demitiu um ministro, provocou a saída de outro e deixou o Ministério sem titular no meio da pandemia, para finalmente nomear o general interino num cargo burocrático e obediente, para o qual o general nunca teve aptidão. Essa desorganização planejada impediu o papel coordenador central da pasta da Saúde. Esse papel ficou nas mãos dos governadores que, pressionados por suas economias enfermas, foram contraditórios no fechamento e abertura das atividades. Nada substituiria um gabinete de crise a nível central, que nunca houve. O resultado foi um abre e fecha atividades, completamente descoordenadas e sob a pressão da economia combalida.

A segunda frente foi apostar na desinformação, na contradição de atitudes, na confusão das informações, justamente desorganizando a população para ações planejadas e esclarecidas de comportamento para o enfrentamento do contágio viral.

E aqui a narrativa de Bolsonaro foi vitoriosa e os opositores não conseguiram produzir uma contra-argumentação eficiente para contrapor essa narrativa. Pior, em algumas atitudes e argumentos a oposição foi cúmplice da narrativa que ajuda a disseminação do vírus e não sua contenção.

Quando concordamos em que o trabalhador, pressionado no transporte público em aglomeração forçada, tem o direito de aglomerar para sua diversão na praia e na balada, só reforçamos a confusão de informações sobre a pandemia praticada por Bolsonaro e colaboramos também para o objetivo da necropolítica. Giuliano Da Empoli, autor de Engenheiros do Caos, já chamou a maioria desses trabalhadores eufemisticamente conhecidos como “essenciais” por seu verdadeiro nome e papel: prescindíveis e descartáveis. Deveríamos centrar crítica a essa contradição. Concordar com o que sejam razões momentâneas de trabalhadores pressionados e sem opção só reforça a necropolítica e ajuda a disseminar razões para que a contaminação viral se expanda.

Uma coisa é compreender a situação por que passam esses trabalhadores prescindíveis e descartáveis e ajudá-los na compreensão da situação absurda a que estão submetidos, outra é concordar com razões alienantes intrínsecas a quem está sob a pressão dos descuidos propositais governamentais.

Um gabinete de crise, um ministério da saúde que coordenasse ações contra a pandemia, deveria escalonar atividades para favorecer o distanciamento no transporte público e nas atividades realmente imprescindíveis. Quem tem poder de pressão não se submete. Os peritos do INSS ainda não retornaram, deixando milhares sem condições de subsistência. Essa que é uma atividade essencial e vital é relegada, submetendo milhões de trabalhadores ao vexame de não serem periciados apenas para conseguir um direito trabalhista de sobrevivência. O poder egoísta de categoria se impõe ao direito de todos. E as filas se acumulam no INSS como uma fonte de contaminação dada a quem procura um meio de sobreviver. E são expostos por uma categoria essencial e que tem o dever de autoproteção e dar proteção aos demais.

A confusão, no retorno as aulas, também ajuda na narrativa bolsonarista sobre a pandemia. Há parâmetros claros reconhecidos pelos epidemiologistas: abaixo de 5 novos casos de infecção por 1.000.000 de habitantes temos um risco mínimo e calculado para retornar as aulas presenciais. Estamos em torno de 160 novos casos por 1.000.000. Discutir o quê? Qualquer retorno, nesse patamar, significa espalhar a pandemia e aniquilar os vulneráveis, ajudando na necropolítica defendida pelo governo.

As cidades estão se comportando como se não houvesse mais pandemia. Nos acostumamos com uma doença que mata quase mil pessoas diariamente, numa “estabilidade” em pico pouco vista. O ex-ministro Mandeta diz que trabalhava com a expectativa de 30.000 mortes numa previsão otimista, avaliou em 80 mil uma projeção realista e achou que poderia chegar aos 180 mil numa suposição alarmista. Hoje acha que ultrapassaremos as 180 mil mortes e acusa Bolsonaro pelo negacionismo que provocou esse descontrole.

O que se pode afirmar é que a narrativa bolsonarista sobre a pandemia e seus efeitos foi vitoriosa. Além de não produzir uma contra-argumentação que combatesse essa narrativa, a oposição às vezes se comporta como uma linha auxiliar ao que pretende o governo.

A tolerância com aglomerações e volta das atividades normais numa “estabilidade” de pico que mata quase mil pessoas todos os dias é inadmissível. Discussões sobre o retorno de aulas presenciais nesse patamar absurdo, de mais de 160 novos casos por 1.000.000 de habitantes, é não se importar com a vida dos vulneráveis. Crianças carregam uma carga viral altíssima sem sintomatologia. A escola será um foco irradiador de contaminação. Deixar os segurados do INSS sem perícia para proteger uma categoria privilegiada que deveria ser verdadeiramente essencial não é razoável. Os trabalhadores das filas espalharão o vírus como um agente transmissor ativo. Morrem os indígenas com a invasão de suas terras pelo garimpo, os madeireiros, o agronegócio, o fogo e o vírus. Morrem os pretos pobres da periferia sem a mínima condição de medidas sanitárias para se afastar do vírus e abandonados por políticas de proteção. Morem velhos, doentes e vulneráveis da saúde, que já não encontram assistência médica para as doenças que já carregam.

Será tarde, se não mudarmos nosso comportamento tolerante, quando o vírus atingir nossos familiares ou a nós mesmos. Precisamos de uma maior firmeza no combate a necropolítica até ser possível uma vacina que mude o curso da epidemia descontrolada em nosso país.

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Desenho: 1000TON

2 comentários em “BOLSONARO GANHOU A NARRATIVA SOBRE A PANDEMIA

  1. A oposicao continua martelando na necessidade do isolamento , de um auxilio digno para as pessoas, criticando o desmantelamento do estado que tem implicacoes graves sobre o combate a pandemia. Agora, um governo genocida como esse e que conta com apoio irrestrito de 1/3 ou mais da populacao, hegemonico no capital financeiro e armado vem conseguindo fazer valer seu projeto. Com um agravante. As ruas sao dominadas pelos negacionistas. Pelo gado

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  2. Concordo absolutamente com seu texto! As chances de reverter este quadro em 2022 são mínimas por muitas razões mas principalmente, a meu ver, pelo atordoamento das esquerdas . As vezes parece que estamos demorando a compreender porque de fato chegamos a isto tudo. Por exemplo, agora com a subida da “popularidade “ do presidente: porque a grande maioria da população não reconhece o absurdo que foi a política do governo durante a pandemia . Quem sabe vamos ter que aceitar que a grande maioria das pessoas – portanto os pobres- de fato não consideram que o Estado devesse ter feito diferente … Olhemos o absurdo da fila de 750 mil pessoas aguardando a perícia de INSS … assim funciona o Estado brasileiro!

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