AS REDES SOCIAIS QUE NOS CAPTURAM SÃO UMA AMEAÇA EXISTENCIAL

Não é a tecnologia uma ameaça existencial. Mas a tecnologia revela o pior da sociedade e isso é uma ameaça existencial. (Tristan Harris no documentário “O Dilema das Redes”) 

Se você está lendo esse texto, você também está nas redes sociais. Quase todos estamos. Parece uma realidade que não se pode mudar. Sou do tempo do fax, mas agora a gente já nem usa mais o velho e-mail. O whats app é muito mais rápido e cômodo de usar nos smartfones. Sou do tipo meio econômico: por hoje, o zap e o face me bastam. Não tenho Instagram, Twitter ou me deixei seduzir por outras capturas. Mas isso não tem a menor importância, uma captura, já basta. 

E todos estamos manipulados pelo algoritmo, essa invenção matemática que nos coloca onde desejam os empresários desses novos negócios virtuais. Uma das funções mais elementares e simples do algoritmo é nos manter nas redes. Não basta só a comodidade de podermos falar de dentro de nossas casas com “amigos” em qualquer outro lugar do planeta. O algoritmo massageia nosso ego deixando em contato imediato com quem curte o que postamos.  

Não se iludam. As pessoas não vêm espontaneamente à tua linha do tempo ou ver o teu Instagram ou Twitter por quaisquer méritos ou motivação de discutir determinado assunto. O algoritmo só permite que te vejam os “amigos” propensos a concordar com o que tu postas. Falando francamente, só estão na tua linha do tempo os que te lambem e fazem festa para tuas postagens, assim como você só aparece para eles se assim também proceder. Claro que há exceções por permissões calculadas, até para ajustar tuas postagens no sentido de que não te afastes muito da interação com as bolhas. Mas isso apenas para aprimorar a regra geral que te infla o ego e te mantem viciadamente nas redes liberando dopamina, como a recompensa pavloviana do rato de laboratório. 

Assim que consegue a tua adesão como um traficante que te oferece droga, vem o verdadeiro objetivo do algoritmo: vender. Conhecendo teus desejos e carências pelos teus procedimentos no botão de curtir (e hoje já é consenso entre os cientistas que a partir de uma certa quantidade de curtidas, o algoritmo te conhece mais do que teu parceiro mais próximo, podendo chegar a um nível – geralmente alcançado – que ele pode te conhecer melhor do que a ideia que fazes de ti), os produtos são disponibilizados para teu consumo. 

Quem nunca comprou o que a rede social oferece, baseada num conhecimento de tuas necessidades, desejos e até na criação de um desejo que ainda ias ter, que deixe o cartão de crédito desmentir.  

Mas até aqui, a manipulação algoritma apenas serve para a realização capitalista “normal”, digamos assim. Claro que a propaganda aqui ganha um plus no direcionamento exato ao consumidor e vale muito mais que a que passa na televisão, está estampada nos jornais e nas vitrines. O faturamento das redes sociais está entre os maiores do planeta. 

Mas esse efeito pode ser vendido como uma mercadoria que nunca existiu. O algoritmo, conhecendo as tuas fraquezas e tuas tendências políticas, pode te manipular para interferir nas eleições te vendendo fake News, destruindo reputações de adversários, como já foi provado que foi feito em eleições de vários países, inclusive aqui.  

E essa mercadoria ganha um valor incomensurável, que só campanhas políticas ou empresas financiadoras de candidatos e com interesses em manipular resultados podem pagar. O escândalo dos dados do Facebook-Cambridge Analytica, que envolveu a coleta de dados e informações pessoais e foram utilizados para influenciar a opinião de eleitores e ajudar políticos em vários países, pegou de surpresa o mundo que não possuía mecanismo para enfrentar esse ataque digital à democracia. 

Por outro lado, as redes sociais permitiram que posições extremistas, conservadoras, antivacinas, anticientíficas, entre outras aberrações, ganhassem um status que não tinham há muito tempo no mundo ocidental. Até então, os meios de comunicação, dentro dos países democráticos, possuíam filtros que não permitiam que esses movimentos – mesmo que existentes em guetos – tivessem a repercussão pública que agora têm.  

Daí, temos que o que parecia ser democrático, se apresenta agora como uma ameaça à democracia. O que parecia ser uma rede social, pode se tornar uma rede de intrigas, de intolerância, se tu deixares a tua bolha. 

Ainda é mais preocupante quando descobrimos que não existem bolhas coletivas que “socialize” um grupo por afinidades. A bolha a que tu pertences é única. Lembra-te que a rede social está programada para te manter na rede e para isso te deixa em contato com quem te curte ou é muito semelhante a ti. Se parece que, por afinidades, tu e eu estamos numa mesma bolha, pelas regras do algoritmo podemos ter alguns amigos em comum, mas por idiossincrasias de nós dois, nunca temos todos os amigos em comum, portanto a minha bolha é diferente da tua. E assim é única para cada um de nós que está na rede. 

Portanto o que era para ser social ganha o cunho individualista que caracteriza o neoliberalismo econômico e a sociedade competitiva a que pertencemos. Além de não ser democrática, o que parecia intenção, também não é social, apesar do nome. 

No documentário “O Dilema das Redes” temos a confissão de vários nerds que participaram da construção dessas redes. Todos perceberam que criaram um monstro, que tem vida própria e não pode mais ser controlado. 

Pelo menos, se não abandonamos as redes, devemos ter consciência de seu poder de manipulação e devemos estar vigilantes, embora raramente vençamos a disputa. Pagamos o preço de gado que vai ao matadouro, se quisermos pertencer a essas redes. Ou as abandonamos, se for possível deixar de pertencer ao mundo pós-moderno. 

Estás preparado?  

___________________

Para mais informação: “O dilema das redes”, filme de Jeff Orlowski, 2020, Netflix. “Rede de Ódio”, filme de Jan Komasa, Polônoa, 2020, Netflix. “Engenheiros do Caos”, livro de Giuliano Da Empoli , Ed. Vestígio, 2020.

Desenho: 1000TON

4 comentários em “AS REDES SOCIAIS QUE NOS CAPTURAM SÃO UMA AMEAÇA EXISTENCIAL

  1. meu amigo fiquei encntado com o que vc escreveu vi o documentário dilema das redes adorei…

    se vc puder veja milada, sobre um militante theca, que sofreu os horrorres do nazismo e depois do comunismo, na forma como se instalou naquele belo país..

    abraços estou em teresina desde março agarrado ao médici.. chico ________________________________

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  2. E também é interessante lembrar que todos estes dispositivos se retroalimentam … Quando , como e o que cada um escreve seja o que for em qualquer um deles revela seus modos de ser permitindo assim que logo comece a operação de mudança ou de reforço nos seus modos de pensar, de viver, de amar .

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