TÁ TUDO DOMINADO

“Primeiro, dizem os populistas, um líder honesto — que partilhe da opinião pura das pessoas e esteja disposto a lutar em nome delas — precisa galgar os altos escalões do poder. E, segundo, depois que esse líder honesto estiver no comando, precisa acabar com os obstáculos institucionais que o impeçam de cumprir a vontade do povo.” (Yascha Mounk)

Em “O povo contra a democracia”, Yascha Mounk chama atenção para “democracias sem sua face liberal”, ou, o contrário, “liberalismo sem democracia”. Liberalismo aqui significando avanços civicilizatórios em oposição ao conservadorismo[1]. Embora o autor examine os EEUU e a Europa Ocidental em contraponto com países do Leste Europeu e Ásia, muito nos serve os conceitos aqui em Pindorama.

Temos um presidente que arrota ser ele mesmo a Constituição e se diz defensor da democracia, desde que a democracia seja também ele mesmo. Quem duvidava que Bolsonaro não conseguiria governar sem Guedes e Moro – sua coluna vertebral econômica e caminho aberto na justiça lhe sendo favorável – deve ter sido surpreendido, como eu, pela habilidade que o presidente não parecia ter. Moro foi morto e enterrado na sua quebra de braço com o governo, de fazer inveja as oposições, a quem perseguiu para favorecer o governo. A Globo – que queria Moro como presidente – ficou segurando a brocha com a morte do seu candidato. Guedes, que se cuide se não tiver jogo de cintura para deixar o populismo de Bolsonaro ganhar corações e mentes dos miseráveis com programas sociais. Ele já notou que pode pegar emprestado o carro-chefe do oponente Lula e garantir as próximas eleições de fachada. E economistas que façam o malabarismo de tirar dos pobres e da classe média para agradar os miseráveis, sem tocar na bolsa da plutocracia, tem um andando em cada cem metros quadrado da Avenida Paulista que aceitaria o emprego de bom grado.

Portanto, Bolsonaro já partiu para dominar as instituições que poderiam garantir a vida da democracia. No parlamento reinventou o centrão para ter maioria e ressuscitou a velha prática do “toma-lá-dá-cá”, tão bem conhecida por ele em 30 anos no baixo clero. Nomeou um político habilidoso como líder do governo e quase não perde as votações que precisa para manter o parlamento na mão, sem qualquer rebeldia nos falsos espasmos do porquinho neoliberal, que finge uma oposição, mas vota com a plutocracia, sempre engolindo Bolsonaro, se preciso for. O presidente do senado, precisando dos votos de Bolsonaro para a reeleição vendeu-se facilmente, desagradando inclusive sua base empresarial.

No judiciário, acena com nomeações e favores a juízes sem escrúpulos, que deixaram de defender a democracia para cuidar de seus interesses imediatos. E é tão cínica e vergonhosa essa relação, que um juiz proibiu a poderosa rede Globo de falar sobre as rachadinhas de Flávio Bolsonaro no Rio, e outro magistrado mandou retirar de um portal jornalístico matérias que mostravam como o Banco do Brasil entregou ao BTG Pactual (banco ligado à família de Paulo Guedes) papéis financeiro por apenas 10% do valor de face – escândalo financeiro sem precedentes. Bolsonaro agride gratuitamente qualquer jornalista que discorde de suas ações, como a de não explicar “por que Queiroz depositou 89 mil na conta de Michelle Bolsonaro”. E o judiciário só ajuda a produzir um ambiente de censura, inadmissível numa democracia.

Na Suprema Corte estamos a assistir uma piora do que não se achava que pudesse acontecer. Da presidência apática e submissa de Carmem Lúcia, passamos ao Tófoli – uma invenção petista que parece ter sofrido uma lobotomia, como mostra cicatriz na testa de suas últimas aparições. Além de deixar aparelhar sua gestão por um militar para agradar o presidente, declarou – sem nenhuma necessidade, a não ser a de parecer servil – que não vê qualquer ameaça à democracia e ainda reconhece no golpe militar de 64, um movimento legítimo. Mais lambe-botas do poder impossível.

Entretanto, ainda podemos nos surpreender em piorar o que não parecia possível. Assume o cargo, Luiz Fux, um guitarrista meio riponga dos anos 70, frequentador das peladas nas praias do Leblon, lutador de jiu-jítsu e surfista, que fez amigos no meio artístico e esportivo e levou para posse amigos antigos, dentre eles, Raimundo Fagner, que desentoou o Hino Nacional nos tremores da voz nordestina acostumada a apoiar a direita, só pra contrariar os conterrâneos.

Fux, um adepto da meritocracia familiar e do compadrio, prometeu a José Dirceu “matar no peito” os processos contra o deputado, o que não cumpriu por adesão ao Lawfare que ajudou no golpe de 2016 tirar a presidente que o nomeou para o Supremo. Atitudes antiéticas na promessa e na traição. Recentemente pressionou para fazer desembargadora uma filha de 35 anos sem requisitos para o cargo. Alegou que era o sonho da filha e como pai tinha que atender. Simpático ao Lawfare que promoveu o golpe branco e afastou Lula das eleições com prisão, ficou conhecido pela confiança que a Operação Lava-Jato lhe depositou na frase em inglês de Dellagnol: “in Fux, we trust.” E toma posse defendendo a Lava Jato e dizendo que não será subserviente. Promessas desnecessárias: uma soa partidária, a outra em seu contrário. Ao Supremo basta defender e fazer cumprir a Constituição.

Como virou moda os recatados juízes de outrora saírem agora para as luzes incandescentes do  palco e que não falam mais apenas nos autos, estas características alardeadas na imprensa, que não incomodam o magistrado, podem prenunciar o que nos aguarda nos acordes dissonantes do magistrado com sua vontade de aparecer desde os tempos de guitarrista.

O judiciário, antigo guardião da democracia, das leis e da Constituição, jaz moribundo anulado como linha auxiliar de um governo autoritário.

Portanto, como diz o jovem alemão com ascendência de judeus-poloneses, Yascha Mounk, o povo já não consegue perceber a relação do seu voto e o processo democrático de uma nação. Acontece de nações com menor rito democrático garantir alguns direitos inalienáveis de cidadania[2], como muitas que se apresentam democráticas apresentarem viés autoritário que colocam a democracia apenas na fachada, como parece ser o nosso caso.

Lilia Schwarcz no último programa de TV Roda Viva foi profética: Bolsonaro não precisa dar o golpe. Ele é o golpe, que fala em nome de uma democracia sem direitos e de uma Constituição que é deformada dia-a-dia.


[1] “Neste livro, liberal é alguém comprometido com valores básicos como a liberdade de expressão, a separação de poderes ou a proteção dos direitos individuais.” – Adverte o autor. Embora não tenhamos concordância com a posição do autor, ele é estudado aqui por dois motivos: 1. Uma plêiade de jovens historiadores têm se debruçado a estudar a morte da democracia liberal e têm revelado aspecto bem interessantes (Conferir também: “Como as democracias morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt; e “Engenheiros do Caos” de Giuliano Da Empoli ; 2. Dado a desorientação de nossas esquerdas, procurar brechas para retorno ao estado de direito democrático e recuperar direitos de bem estar social, nos dias de hoje, já é um grande avanço e um bom motivo para as leituras.

[2] Mounk dá o exemplo de liberalismo sem democracia o Reino Unido: “As raízes antidemocráticas de nossas instituições supostamente democráticas estão expostas com clareza no Reino Unido. O Parlamento não foi concebido para permitir que o povo governasse; foi o acordo banhado em sangue entre um monarca encurralado e os escalões superiores da elite do país.”

Desenho: 1000TON

2 comentários em “TÁ TUDO DOMINADO

  1. Acho q esses estudos valem mais pra paises q consolidaram alguns desses valores ditos democraticos. Aqui no quintal a historia e sempre autoritaria e excludente. Brizolla no sul e rj e lula sao excecoes sem continuidade. O palhaco e o padrao

    Enviado do meu iPhone

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  2. Adorei sua descrição do Fux, um guitarrista meio riponga dos anos 70. Às vezes me dá uma pequena curiosidade de conseguir compreender como será que se consegue chega a ser juiz do STF . Não me parece que uma certa envergadura intelectual seja requerida . Lembro que na posse do Toffoli, quando ele chegou a este tribunal tão almejado, divulgou-se um vídeo onde o doutor fazia uma festa em comemoraçao a sua entrada neste tribunal na noite da posse . Muita musica, muita cantoria, muita alegria e muita dança . Estranho ? Não, nada de estranho . Na verdade os componentes deste tribunal não vivem no mesmo universo que nosotros vivemos . Vivem em uma galáxia imperial onde aos mil privilégios que acumulam se junta até mesmo o direito à escolha de vinhos considerados de excelência para o gosto do fregues, neste caso vossas excelências . Tudo isto sendo absolutamente legal . Sem que nenhum deles se sinta constrangido . O custo de cada um dos juizes, todos somados, talvez desse até mesmo pra construir um certo número de metros de rede de esgoto sanitário em algum lugar neste mesmo país onde as vossas excelências vivem. Não é â toa que chegamos à obscenidade tipo geleia geral onde estamos hoje. . Quem se importa? O fenômeno precisa ser melhor compreendido : sabemos que nada temos a esperar de nenhum deles nem de nenhuma autoridade diante do quadro de absoluta deterioração que descreve o Brasil de hoje. É tanta desinformação, é tanta alienação de tudo, é tanta superficialidade quando se trata de analisar o que aconteceu no país ao longo dos tempos que o Caetano Veloso conseguiu muita gente que o cita agora Como fonte de referência sobre as prisões no tempo da ditadura . Tantos documentos e publicaçoes sobre as masmorras do regime militar parece que foram esquecidos ou simplesmente ignorados. A infantilidade desta comoção que se produziu em tanta gente quando ouviu a história da prisão de Caetano é exemplo do quanto nos falta, a nós, brasileiros, pensarmos e analisarmos com seriedade e responsabilidade a história daqueles anos de ditadura militar . Em suma, parece que nada temos a esperar de nós mesmos que possa de fato mudar este cenário sempre tão inconsequente. A ditadura prendeu Caetano, ele mesmo contou como foi. Stuart Angel também foi preso mas não está aqui pra nos contar como foi…mas a história do Stuart não nos comove , não passou na TV…

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