COMO GADO AO MATADOURO

“Leve o boi e o homem ao matadouro. O que berrar é o homem, mesmo que seja o boi” (Torquato Neto) 

  

Há quase seis meses que entramos na pandemia da Doença do Coronavírus-19 (COVID19) e  já ultrapassamos as 120 mil mortes. Estacionamos num patamar em torno de mil mortes diárias projetando que nos meados de novembro, com seu começo dedicado a todos os santos e aos mortos, teremos ultrapassado as 200 mil mortes, disputando com os EEUU a ponta da tabela macabra de mortes no planeta. Lá não temos sistema público de saúde, aqui – teoricamente – teríamos. E isso nos devia diferenciar para salvar vidas de mortes desnecesárias. 

Como profissional aposentado do Ministério da Saúde, apesar de trabalhar em outra ponta, posso afirmar que o SUS, ainda que sucateado nos governos anteriores e atingido mortalmente pelo teto de gastos no governo golpista de Temer, tinha ainda potencial técnico para mudar o curso terrificante da epidemia que nos atingiu. 

Mesmo o primeiro ministro privativista do governo Bolsonaro ensaiou uma ação coordenada que poderia ter mudado nosso destino. Os quadros técnicos do ministério ainda tinham potencial para ações coordenadas para nosso território desigual. Só a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), com sua distribuição espacial em localidades distintas, nos mostra que as ações dos Estados e municípios poderiam obedecer a um enfrentamento coordenado.  

Já com o segundo ministro a tragédia era anunciada. Sem nada entender do serviço público, aceitou atabalhoadamente o aparelhamento do ministério por quadros militares. Encontrando-se totalmente perdido e pressentindo o desastre “pediu pra sair.” 

Bolsonaro combinou com o “estrategista” Pazuello manter a interinidade do general, graduado pela Academia das Agulhas Negras como oficial de intendência – sem nenhuma experiência na área da saúde. E para que a estratégia do governo fosse explicitada sem nenhum subterfúgio, o intendente, já com mais tempo no cargo durante a pandemia do que seus antecessores, aparelhou os cargos técnicos do ministério com militares carreiristas e cínicos (pois quem aceita ocupar um cargo técnico no ministério da saúde, no meio de uma pandemia, sem ser da área da saúde é, no mínimo, um cínico, um perverso, senão um assassino que deveria responder por seus atos – e isso, claro, incluindo o tal intendente).  

Portanto, a estratégia do governo parece ser a inativação efetiva do ministério da saúde, descoordenando os entes federados, num “cada um por si” que provocou a situação atual. Os estados do Nordeste, formando um consócio autômato, estão enfrentando um pouco melhor a tragédia. Mas nada pode substituir um verdadeiro Ministério da Saúde no controle: tem aeroportos, estradas, deslocamentos de difícil administração sem uma coordenação central; e a distribuição de insumos, testes e medicamentos, num território desigual, só pode ser executada por órgão central para determinar prioridades. Da mesma forma, numa pandemia é do Ministério da Saúde a palavra final para a programação de isolamento social e reabertura de atividades segundo indicadores seguros. O transporte público mereceria uma estratégia especial. 

A postura do ministro interino foi tão nociva, que se perdeu a metodologia de contagem de casos e óbitos e um consórcio da grande imprensa foi feito às pressas para computar os dados isolados das cidades, na tentativa de manter a informação. Além de deixar faltar insumos como equipamentos de proteção individual, respiradouros, leitos adequados e até na cruel falta de analgésicos para possibilitar a intubação de quem não consegue respirar e morre dramaticamente como um peixe fora d’água.  

E ontem passou da incompetência programada a galhofa: nomeou um veterinário para coordenar a vacinação em humanos. O tal profissional desonra a profissão, envergonha seus colegas e deixa-se colocar num ridículo histórico para o futuro. 

Enfim, o plano de Bolsonaro deu certo. Utilizou a pandemia para aliviar perversamente a economia: são os doentes, os velhos, os pobres, os miseráveis, os desvalidos, as etnias indígenas, quilombolas os que mais perecerão dessa enfermidade pós-moderna. Sobrarão os mais fortes, os mais aptos, nesse cínico darwinismo social. Um genocídio que dispensa as câmaras de gás e deixa o vírus agir a céu aberto. 

Mas a vitória de Bolsonaro é mais completa do que parece. E aprovada pela multidão ensandecida. A narrativa fascista, contendo todo o horror que o passado nos legou, se estabelece entre a maioria da população como o “novo normal”. 

Enganou-se quem, como eu, achou a princípio que teríamos de viver por um bom tempo recolhidos em isolamentos necessários, até que uma vacina pudesse ser efetiva ou se desse o tempo da pandemia. E que esse seria o “novo normal”. Qualquer pessoa bem informada deve saber que a gripe espanhola durou mais de dois anos até que a circulação viral diminuísse (e a segunda onda foi mais mortal). No caso atual, dado o conhecimento acumulado, os cientistas já estão perto de uma vacina que interrompa o ciclo descontrolado.  

Entretanto, os brasileiros, parece que na sua maioria, foram tomados pela narrativa fascista proposta pelo governo. O novo normal é o “e daí”. Deixar morrer quem tiver que morrer, como disse um prefeito outro dia para abrir o comércio de uma cidade do interior. 

As praias do Rio, fotografadas lotadas no último fim de semana na capa dos jornais, não mais parecia ser uma advertência na intenção, mas um anúncio do “novo normal”. As escolas também pressionam para a abertura, mesmo se sabendo que na França voltaram a fechar. E o que não se sabia lá, já se sabe agora: as crianças levam uma carga viral mortal para casa, apesar de não apresentarem quaisquer sintomas. 

E daí? Morram os que forem morrer e saúdem o mito. Os vantajosos benfazejos, os fortes, os aptos levarão das praias, das baladas, dos bares, das escolas o vírus que matarão os que devem morrer. Claro que terá um ou outro fora dos grupos de risco, que apesar de fortes também cairão. E berrarão, como previu o poeta, mesmo que seja boi na sua humanidade diante da morte. O resto é gado que não teme o matadouro.

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desenho: 1000TON   

PS. Peço desculpa pelo tempo que fiquei sem postar no blog. No meu refúgio para tentar escapar da Covid19 (sou do grupo de risco. Do grupo que, segundo o darwinismo social em vigor, deve morrer) fiquei sem internet por um bom tempo. Hoje vim ao Rio e aproveitei para fazer essa postagem dolrosa.    

2 comentários em “COMO GADO AO MATADOURO

  1. Bem-vindo de volta Edmar !
    O novo normal, o “ e daí “ como você assinalou, só pode existir graças à incomensurável injustiça social deste país , o que faz com que, de fato, seja possível àqueles que podem, dar as costas aos mil mortos que diariamente são levados pela pandemia.

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