A TRAGÉDIA DA COVID ENTRE NÓS. NÃO HÁ QUALQUER PLANO DE SALVAMENTO DO DESASTRE

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Não se sabe mais o pior que nos pode acontecer. Uma notícia ruim atrás da outra. Estamos abandonados à própria sorte ou azar no meio de uma pandemia sem limites. Nada foi feito para chegarmos apressadamente ao segundo lugar em vítimas no planeta. Atingimos um platô em que mil mortes em média acontecem todos os dias. Como se cinco aviões de duzentos passageiros caíssem todos os dias. E as pessoas nos aeroportos ainda querendo embarcar como se nada tivesse acontecido. A esperança é que acabem os aviões por uma imunidade de rebanho em que o vírus não ache a quem mais contaminar.

O negacionismo da pandemia proposto pelo presidente fez sucesso nas cidades como se não se acreditar na morte a faça desaparecer. O resultado é que esse negacionismo contaminou uma parcela importante da população. Em muitos lugares, o comércio, as ruas os shoppings, as praias, os bares estão cheios como se não houvesse pandemia ou não se quer acreditar que mil brasileiros são mortos por ela todos os dias. Incrível como não se faz a ligação entre esse comportamento e os números contados nas telas de TV todos os dias. O vírus é conduzido facilmente para achar sua reprodução por dois fatores: a quantidade de assintomáticos e sua circulação entre os vulneráveis. Testagens em massa são feitas em algumas ilhas de excelência, mas o país não tem uma política pública para medir a aceleração da epidemia entre nós. Todos concordam com a subnotificação de casos e que podemos já ser a liderança em casos da Covid no mundo.

O Ministério da Saúde está sem ministro efetivo há dois meses, em plena atividade da pandemia no país, e foi tomado por militares, expulsando de seus quadros técnicos competentes. Parece determinado, com a manutenção do militar interino, a ajudar o presidente na negativa de que a epidemia exista. Nenhuma campanha de esclarecimento sobre os riscos de contágio. Nenhum comando técnico do combate à pandemia. Nem a formação de um comitê científico numa tragédia sanitária que estamos vivendo. Profissionais de saúde abandonados nos seus postos enfrentando a pandemia com armamento ruim. Faltam EPIs e até o cúmulo da falta de anestésicos para que se faça um procedimento de entubar os pacientes. A sociedade chora seus mortos sem despedida. Nenhum alento aos familiares das vítimas. Nenhuma ação efetiva para ajudar os Estados e Municípios enfrentarem a crise na saúde. Nenhum pronunciamento sobre o que faz e até os parcos recursos da pasta foram criminosamente retidos não chegando ao seu destino, por não terem o orçamento executado.

E ainda assistimos ao incrível absurdo do Ministério da Defesa e dos militares das Forças Armadas ficarem ofendidos e exigirem retratação ou enquadramento na Lei de Segurança Nacional de um Ministro do Supremo que ousou falar de que o exército brasileiro estava exercendo uma função que não era a sua (planejar a Saúde) e com isso contribuía para um genocídio do nosso povo. Se as palavras do Ministro Gilmar Mendes foram duras, ninguém quer enxergar que é isso mesmo que está acontecendo. O controle da epidemia poderia ter evitado muitas das mortes desnecessárias e que parece ser o objetivo da necropolítica atual. Agora vem o vice-presidente, na defesa corporativa dos militares, dizer que não é hora de nomear um ministro efetivo, fazendo a defesa do militar interino na Saúde. Não há bom-senso em qualquer escalão desse governo ou conscientemente estão todos de acordo com o genocídio denunciado pelo Ministro do Supremo. E ninguém espera que sejam julgados num futuro por esse crime hediondo nesse país sem memória.

Desde o começo, quando classificou a pandemia chegada ao país de “gripezinha”, o governo tem agido como se tivesse feito uma parceria com a doença para condenar à morte os mais frágeis, os enfermos e velhos improdutivos e os pobres, obrigados a circular em transportes abarrotados, porque o governo não fez chegar nem à metade dos necessitados o ridículo “auxilio emergencial”, enquanto socorreu os grandes empresários em detrimentos dos pequenos numa confissão pública do Ministro da Economia. São os pequenos negócios que, obrigados a funcionar para não desaparecerem, suscitam os empregados para juntos arriscarem a vida porque foram abandonados por um governo perverso que pouco se importa com eles. “Nós vamos ganhar dinheiro, usando recursos públicos para salvar as grandes companhias; agora, nós vamos perder salvando as pequeninhas” – foi a fala de Paulo Guedes, onde o governo se desnuda na reunião tornada pública por força de lei, entre outros absurdos ali falados pelos componentes de um ministério desastroso, que objetiva apenas destruir, desregulamentar, e não oferece qualquer proposta construtiva.

Assistimos, felizmente, todos os dias organizações das comunidades para enfrentarem a Covid, conscientes que estão de que sempre foram abandonados e só podem contar com a solidariedade entre eles. Se o país é grandioso e desigual, algumas ilhas são salvas no mar da insensatez em que mergulhamos.

Mas, como um todo, somos uma nação de náufragos esperando que a maré alta da pandemia baixe por uma imunidade de manada (ou que a boia de uma vacina possa salvar alguns), enquanto se tenta resistir para não morrer afogado. Não há qualquer plano de salvamento. Já teremos muito mais de cem mil mortos.

O retrato do presidente no futuro deveria representar um governo que se associou ao vírus para fazer o darwinismo social nesse triste país.

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desenho: Gervásio

 

3 comentários em “A TRAGÉDIA DA COVID ENTRE NÓS. NÃO HÁ QUALQUER PLANO DE SALVAMENTO DO DESASTRE

  1. Excelente a análise do que ocorre nos dias atuais, a mercê da incompetência generalizada dos ditos governantes. Associa-se ao crime o Presidente da Câmara dos Deputados que engaveta, vergonhosamente, as solicitações de exame do afastamento do denominado presidente e ,por consequência ,de todos os militares incompetentes que esbanjam “autoridade” e não fazem nada que venha a beneficiar o povo brasileiro.

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  2. É isso, seu texto retrata isto que nos chega como um paradoxo : porque não nos importamos com a quantidade de pessoas que morrem todos os dias deste vírus ? Por que mecanismos chegamos a nos comportar perversamente como se não houvesse nenhum problema em convivermos todos os dias com tantos mortos por falta de assistência ? Talvez tenhamos que procurar as raizes disto tudo no fato de que no Brasil a vida vale muito pouco , um dia ouvi de Calligaris esta observação. Convivemos com a miséria absoluta com milhares de pessoas que vivem sem água, sem esgoto, sem comida, sem escola, como se assim fosse por uma espécie de natureza que deve ser aceita . E, ao lado deste universo triste, temos este outro Brasil que se alimenta dos sagrados bens do mercado onde é igualmente natural e até mesmo objeto de discussão jurídica se a patroa que descuidou da criança filho da empregada que desceu pra passear com o cachorrinho da casa cometeu ou não um crime . Parafraseando Levi autor do livro «  É isto um homem? » cabe nos perguntarmos : É isto um país? Não será este governo eleito a síntese mais verdadeira deste país ? É isto, de verdade, um país ?
    Hoje li em algum lugar que no Rio de Janeiro já é possível pensar que a epidemia se transforma em endêmica …

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  3. O que esperar de um governo neonazista? Por parte dele, a promoção da eugenia… De nossa parte, a rebelião e a denuncia… Sempre!
    Grande abraço, Edmar!

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