A MORTE OU A SOBREVIVÊNCIA NO INFERNO

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Não. Essa não é uma situação com paralelo no planeta. Mesmo alguns erros cometidos pelas autoridades, como um primeiro negacionismo do governo da Itália ou do premier britânico, foram reparados a tempo enquanto a pandemia ocorria e os resultados da correção foram eficazes na Itália e estão sendo estabilizados no Reino Unido, mesmo porque o nosso descontrole atingiu a marca de um vergonhoso segundo lugar em mortes na face da terra, ultrapassando contagens mais antigas. Se o primeiro lugar, os EEUU, também já apresenta um pico em superação, nós ainda disparamos na ascensão ao topo da lista em contaminação, se já não somos – considerando a subnotificação e falta de testagem conhecidos.

Pior, não há qualquer sinal de que a epidemia dessa doença mortal possa ter algum controle no Brasil. Apenas algumas cidades, como Fortaleza – que era um foco que parecia descontrolado – ou Teresina, que nunca chegou a marcas preocupantes, fizeram ações eficazes. A primeira conseguindo parar o descontrole inicial da doença com isolamento e paralização eficientes das atividades. A segunda com medidas preventivas muito eficazes na propagação da enfermidade altamente contagiosa. Mas São Paulo e Rio, em descontrole gritante, como uma grande parte de nossas cidades maiores, desfazem o isolamento social – única medida eficiente – enquanto o número de mortes em 24 horas sobe assustadoramente. E a doença caminha célere para os rincões do interior, onde a assistência médica é quase nenhuma.

Falta o principal: um Ministério da Saúde ou um gabinete de crise que possa coordenar as ações para o país. Um ministro foi demitido, o outro se demitiu, enquanto o Ministério foi aparelhado por militares afinados com o discurso negacionista da presidência. Até uma alteração na metodologia da informação foi tentada para maquiar os números descontrolados. E o país segue entregue a uma doença, sem qualquer combate, assustando o mundo. Vários países interromperam voos para o Brasil.

E no nosso isolamento a mentalidade fascista de quase um quarto da população aplaude o mito do seu desejo, que por sua vez insufla seus seguidores para que saiam as ruas negando o isolamento e, inacreditavelmente, invadam os serviços de saúde para afrontar os que combatem o vírus seriamente e fiscalizar para o presidente se não há leitos vazios duvidando das informações hospitalares.

Nada mais nos é impossível de acontecer para assombro do mundo civilizado. Um protesto simbolizando um cemitério de covas rasas, nas areias de Copacabana, foi invadido por um bolsonarista, que destruía a performance retirando as cruzes enfiadas na areia, sob aplausos de negacionistas do bairro. Um mulato, quase preto, tomado de indignação – por ter perdido um filho aos 25 anos para a doença – saltou do calçadão para a areia devolvendo as cruzes retiradas para o lugar em que estavam. Esbravejava, mas era vaiado pelos que aplaudiram o outro. E a turba fascista ainda fazia uma inversão: a primeira ação de destruição era “democrática”, a outra não. Inversão clara de quem não tolera quem pense diferente dele. Mais simbólico do que isso? O país é a intolerância do fascismo nas ruas no meio da epidemia.

E o presidente grava um vídeo para as redes sociais conclamando seus seguidores a invadir hospitais para negar que a epidemia exista. Ele insinuou falsidade dos dados. Inacreditavelmente o presidente governa seus comandados como se estivesse em campanha contra setenta por cento da população inerte, com medo, recolhida. Assistimos a aliança da necropolítica com a pandemia para destruir parte do povo desse país no genocídio típico a de fascistas no poder. Já não caminhamos para o fascismo. Estamos vivendo a ditadura do pensamento único que destrói o que ainda resta de brasilidade no nosso povo. Embasbacados os analistas políticos não sabem explicar como chegamos até aqui numa rapidez assustadora e agora ajudada pela pandemia mundial. O Brasil está muito perto de ser banido do mapa das civilizações. Estamos isolados no meio de uma epidemia mortal e abandonados a nossa própria sorte. Os transportes abarrotados de negros ou quase pretos são levados ao trabalho como os navios negreiros que traziam os escravos. Muitos irão morrer na viagem. No navio, jogados ao mar; aqui abandonados nos corredores de hospitais sem vagas para tratamento dos mais graves.

Não temos a quem nos agarrar: as oposições estão traumatizadas e sem reação. As instituições, com medo dos militares, permitem que o fascismo avance sem precisar de um golpe. O Ministério da Saúde aliou-se à pandemia e não as equipes que labutam heroicamente para salvar vidas. E nem os órgãos de classe dos médicos que estão perdendo a batalha e achincalhados por um insano presidente, que declara guerra aos que tentam barrar a doença, respondem a uma provocação fascista. Apoiaram a besta e estão de mãos atadas.

O nosso destino é incerto. Temos a morte ou a sobrevivência no inferno como alternativas possíveis.

6 comentários em “A MORTE OU A SOBREVIVÊNCIA NO INFERNO

  1. Nada a acrescentar ao cenário descrito por você caro Edmar . Como eu moro num bairro onde pobres e classe média caminham juntas não por escolha certamente mas porque o L eme tem poucas ruas e não há caminhos para escolher numa rápida passagem pela principal rua do bairro para uma compra inadiável vi muitas pessoas caminhando sem máscaras e conversando animadamente como se não existisse uma pandemia . De um lado a estratégia do monstro que parece estar dando certo – traduzindo, é só uma gripe zinha . Do outro lado, como não há testes, os cálculos apresentados para “ abertura “ ( será que fechamos mesmo em algum momento?) são inúteis. Sim, já somos um país “sujo” para o resto dos países que , de algum modo, tomaram conhecimento de que havia uma pandemia !

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  2. Excelente texto complementado brilhantemente pelo desenho do 1000TON.
    Retrata realisticamente nossa lamentável situação.
    Fora excrementísssimo capetão Bozovírus Covard-17

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  3. É COMO SE ESTIVÉSSEMOS TODOS HIPNOTIZADOS. Não sabemos como agir. Nesta hora, a democracia que tanto defendemos, limita as nossas ações., Poderes constituídos que podem agir, se limitam a manifestações bufas. O presidente da Câmara, com inúmeros projetos em favor do impedimento, covardemente se omite. Lideranças políticas parecem estar esperando o sol nascer e incendiar o país, haja vista não terem como formar um grupo, com plano específico de impedir que desçamos as ladeiras e mergulhemos nos mares e rios da inconsequência política.

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