SE PERDERMOS A ESPERANÇA, MORREMOS

MILTON FASCISMO

“Você não derrota um inimigo tirando sua coragem. Você o derrota tirando sua esperança” (Adolf Hitler)

É bom parar. Chega de interpretações psicológicas para entender Bolsonaro. Chega de achar que ele é um insano no poder. Chega de achar que ele é despreparado, ignorante, burro para o exercício do poder. Assim não se compreende a realidade que estamos vivendo. Exatamente porque já nos achamos sem esperança, parece que queremos delegar ao campo da psicologia a explicação do pesadelo que nos atingiu.

A desmoralização da política e da democracia, não vamos aqui culpar ninguém – se bem que essa ainda é uma discussão necessária, tirou fascistas enrustidos de dentro do armário. A surpresa foi que temos uma população de cerca de ¼ de brasileiros que são canalhas, escravagistas, misóginos, homofóbicos, violentos, armamentistas, autoritários, atributos compatíveis com a ideologia fascista. Cerca de vinte e cinco por cento de nossa população ativa e adulta, de votantes, possuem essas características. Essa parcela de fascistas criou um “mito” para chamar de seu e esse discurso capturou cerca da maioria dos votantes que elegeu Bolsonaro.

Portanto esse personagem, que agrada os que com ele se identificaram está no campo da política e não da psicologia. Nada de tentar explicar suas ações pela psiquiatria, como se fosse doente mental. Não tem doença nessa história, tem política.

E ele segue seu ideário de que a ditadura – que ele enaltece e recuperou – teria que ter matado uns trinta mil inimigos. Outro atributo do fascismo é tratar como inimigo quem não lhe é igual. Não é para se estranhar que bolsonaristas acusam os que deixam de sê-lo de inimigo e atualizam a lista de “comunistas” com os que deixam o governo. Bolsonaro não enganou ninguém, ele faz o que sempre disse.

A novidade agravante foi a pandemia. Enquanto nos trancou dentro de casa com medo de uma doença desconhecida, Bolsonaro se aliou a ela para executar o seu plano macabro. Provoca uma falsa briga entre economia e saúde, propondo o sacrifício dos CPFs para a salvação dos CNPJs. E pretende deixar a covid fazer o trabalho de eugenia da sociedade. Sinaliza claramente que a doença só vai parar quando contaminar 70% dos brasileiros. Com uma taxa de mortalidade entre 2 a 4 % teríamos no cálculo presidencial entre 3 a 6 milhões de mortos. Como se metade da população do Rio de Janeiro morresse, ou uma Fortaleza inteira desaparecesse do mapa. Felizmente, por sempre errar nos seus cálculos, nem todo o mundo chegará a essa marca absurda, esperamos. Mas já estamos na metade dos trinta mil que ele queria fuzilar, e seguimos procurando a ponta da tabela mundial em número de mortos.

E quem seriam esses mortos nesse plano macabro? Os inúteis para a economia do país na sua maioria: os velhos, os doentes, os vulneráveis, os miseráveis improdutivos, a força de trabalho que pode ser reposta imediatamente com o desemprego que há muito nos atinge. Claro que morreriam pessoas jovens, produtivas, inclusive das fileiras bolsonaristas, mas nada que não seja necessário para a guerra que está sendo travada com a ajuda da pandemia. Quem está preparado pra guerra são eles, nós estamos com medo.

Por isso os fascistas fazem carreatas, trancados em seus carros, com máscara e álcool gel. A ideia é que os trabalhadores, que movimentam a economia (e de quem a mais-valia que produz riqueza é tirada) arrisquem a vida nas aglomerações dos transportes públicos e no chão das fábricas. Nessa parcela do pensamento herdado da sociedade escravista, o engenho não pode parar, independente de quantos escravos morram. E cinicamente esbravejam que são eles, os CNPJs, que sustentam os CPFs, quando é exatamente o contrário. São os que vão morrer que geram a riqueza acumulada pelos donos dos meios de produção. Se eles só dessem o emprego, ganhando só um pouco com isso, poderiam viver do seu capital paralisado. Mas eles sabem que não podem e são cínicos e impiedosos.

Portanto a pandemia está sendo usada para o plano eugênico do bolsonarismo. Já não se sabe se já não é tarde para deter essa necropolítica expressa. Até porque já saíram dois ministros da saúde em pouco menos de um mês e estamos sem ministro no momento, com um general comandando a pandemia. Nesse darwinismo social planejado teremos uma sociedade muito pior, certamente. E um campo fértil para o fascismo. O atleta, o cultor do corpo, a melhora da raça se verá livre dos inúteis para prosseguir o ideário. Se a pandemia não fizer o trabalho completo, o inimigo pode ser facilmente abatido ou vai ocupar os guetos sem esperança.

Bolsonaro nos atinge na esperança de futuro. E sem ela estaremos derrotados por um tempo muito longo.

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desenho: 1000TON

6 comentários em “SE PERDERMOS A ESPERANÇA, MORREMOS

  1. Excelente artigo, ou poderia chamá-lo de “alerta”. Os facínoras nos desafiam à luz do dia. Deixaram de ser sombras enrustidas dentro de um armário. E nós? Vamos reagir? Pior, será que ainda dará tempo?

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  2. Perfeito caro Edmar! E “as esquerdas” , ao menos algumas, seguem em sua prepotência , ao invés de articularem-se com suas diferenças na produção de um coletivo potente para barrar esse avanço da extrema direita , tendo como horizonte uma vida decente!

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  3. Disse tudo neste artigo maravilhoso! OS q não morrerem da doença morreäo com a aplicação indevida da cloroquina …e assim segue o plano dos 30.000 do fascismo..Mto triste tudo isto.

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  4. Mais uma vez seu texto lúcido nos faz companhia neste momento difícil que nem sabemos quanto vai durar. Talvez dure o tempo necessário para que possamos refazer o trajeto percorrido desde o modo como pusemos fim â ditadura, os erros que cometemos, o comodismo em que nos estabelecemos , a omissão quanto a passar tudo a limpo, de verdade. Isto não feito, os generais voltaram. Agora acho que vai levar tempo para que se encontre a saida mas, como você disse, só com esperança e coragem.

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  5. Perfeito! É no campo da política e do ideológico que Bolsonaro deve ser combatido. E parabéns também ao Milton pelo expressivo desenho.

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