O PIOR ESTÁ POR VIR E DIZ REPEITO A TODOS NÓS

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“É tanta informação contrária, a gente fica sem saber direito o que está acontecendo. Parece que é coisa de política” (gerente de restaurante, sobre a epidemia)

Charles Rosemberg, historiador americano especialista em medicina, cunhou o conceito de “Dramaturgia da Epidemia”, estudando as doenças pandêmicas. Distingue três fases que acomete uma sociedade ao se deparar com a tragédia de uma epidemia. A primeira fase é a da “negação”, como se o que tivesse acontecendo no mundo não pudesse chegar até onde estamos. Depois que a epidemia apresenta suas primeiras baixas vem a necessidade de culpar alguém ou alguma coisa pela tragédia. Só posteriormente vem a fase da cooperação e solidariedade porque todos se sentem atingidos. E quanto mais rápida essa terceira fase chegar, mais fácil o fim do ciclo epidêmico.

Enquanto a pandemia chegava ao país, já com casos diagnosticados, ainda estávamos nos bares, restaurantes, em reuniões onde reforçávamos entre nós a negação do que chegaria a galope. E contrariados com uma quarentena inicial, as redes sociais foram inundadas de teorias conspiratórias, desde culpar o apetite de chineses por pratos exóticos até a inoculação da epidemia na China por soldados americanos no mercado de Wuhan. Nessa fase de culpa gastamos uma energia desnecessária.

Com muitos de nós em quarentena, o suposto presidente desta infeliz nação vai várias vezes a televisão negar a epidemia e convidar seu séquito à posição negacionista anterior. Ao mesmo tempo em que culpava a medicina por se recusar a dar cloraquina aos doentes da COVID 19. O Ministro da Saúde, que assessorado por profissionais do SUS e a da academia (Fiocruz à frente), tendo iniciado um eficaz discurso científico contra o jogo político do presidente, capitula para manter o cargo e titubeia na exigência da quarentena. A desobediência dos governadores ao presidente também num primeiro momento foi eficaz, mas a possibilidade de serem culpados pela crise econômica diminuiu a guarda para a quarentena.

Estávamos ainda construindo a rede de solidariedade e cooperação, quando fomos tragados de volta às fases anteriores descritas por Rosemberg e a população voltou às ruas. Ora nega a epidemia, ora culpa os médicos de não darem o remédio receitado pelo presidente e desfazemos a rede de solidariedade e cooperação recém-iniciada.

Estamos no meio da epidemia perdendo seu controle. No Rio já não existem leitos para ventilação de pessoas que chegam a estágio avançado da doença. O relato dramático de profissionais da saúde nas redes sociais fala da falta de equipamentos de proteção individual para os profissionais, ficando em risco de adoecerem; a escolha de paciente que devem ser socorridos para a ventilação, que agora já está em falta; e até o pedido dramático de uma senhora que clamava para que a matassem e a liberassem de tanto sofrimento.

A televisão, falando vinte e quatro horas por dias da doença, conversando com especialistas, mostra a necessidade de uma quarentena para conter a disseminação da enfermidade. Mas não mostra a angústia dos profissionais da saúde na linha de frente. As pessoas já não acreditam nas notícias. Tonaram-se banais. É necessário um choque de realidade. Numa curva de contágio de crescimento exponencial haverá um momento em que as pessoas que possam ser postas em quarentena já não interferirá no ritmo alucinante do crescimento. E seremos uma Itália ou Espanha na contagem de mortos, ao mesmo tempo em que nos tornaremos um Equador abandonando corpos pelas ruas.

E o chefe maior da nação, mesmo atenuado em seus poderes por velhos militares preocupados, continua a sair às ruas como um zeloso jardineiro da morte, alardeando que ela só atingirá os velhos e doentes. Parece disposto a liderar os mais capazes deixando o vírus fazer o trabalho das câmaras de gás do nazismo darwinista escancarado.

Não existe uma dicotomia entre preservar vidas e salvar a economia. A economia vai mal de qualquer jeito, o mundo prevê um PIB negativo de quase todas as nações neste ano trágico. Com o descontrole da epidemia esse custo econômico será maior. A não ser na cabeça de darwinistas sociais que o fascismo está construindo pelo egoísmo e açodamento de um presidente que deveria ser impedido. Não digo que é um insano, mas poderá levar a loucura uma sociedade desnorteada. A conta vai ser muito alta para os sobreviventes.

E a nossa gente simples está atordoada, sem saber o que está acontecendo e achando que é coisa da política, uma briga que não lhe diz respeito. O pior está por vir. E diz respeito a todos nós.

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Charge: 1000TON

 

7 comentários em “O PIOR ESTÁ POR VIR E DIZ REPEITO A TODOS NÓS

  1. Assisti ontem na tv da abrasco a entrevista de um epidemiologista apontando para o fato de que os primeiros casos aqui chegaram de viagens do exterior. Atingiram o alto da piramide. Renda mais alta. A base so comecou a ser atingida agora. O prognostico e tenebroso E a idiotice brincando

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  2. CONVID é um CONVIT para a morte. Belo artigo. Estamos ainda batendo cabeça, confusos, enquanto um nazi-presidente quer conduzir o povo para o matadouro. Não aceite, jamais, esse CONVIT. Fiquemos em casa.

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  3. Parabéns pelo seu texto , caro Edmar, tão importante neste momento pela lucidez da sua escrita. Se é verdade que é fundamental que deixemos de culpar um povo ou uma cultura, também é fundamental que possamos compreender este jogo de poder a que assistimos passar, seja pelos noticiários das mídias, seja pelos números assustadores dos diagnosticados e dos mortos pelo vírus . Estes números falam por si mesmos .E quanto aos jogos de poder, o espanto que fica é, para mim, a interrogação de como foi possível à direita deste pobre país ter se unido para levar à presidência da republica alguém que , vitorioso, não se incomoda em tropeçar em tantos mortos ! A imagem do horror é evidente ! E estes que manipulam e detém os rumos da economia do país são os que apostaram todas as suas fichas neste “homenzinho” capaz de assistir com sorriso à esta tragédia mundial que está levando a vida de milhares de pessoas . E isto também é assustador: Bolsonaro, o homenzinho resultado de um projeto perverso articulado pelos donos da economia do Brasil. Sim você tem razão, o pior está por vir !

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  4. Nada a acrescentar. Um retrato claro do passado, do presente, do futuro Quando se tem um Líder e se confia nele,de alguma forma V. se sente protegido.Não é o nosso caso. Jogados à própria sorte, só o destino é nossa tênue esperança.

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  5. Triste ! Seremos o Equador em pouco tempo.
    Dói saber, e ter os dois olhos bem sãos, nesta terra de cegos governados por caolhos…

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  6. Maravilhosa análise . A direita perversa joga o povo à morte. E os seguidores do Bozo tumultuam a sociedade, resultando em disseminação do vírus . Enquanto isso eu fico perguntando pela esquerda. Estamos correndo risco sanitário e político. A ultra direita no poder, receitando clandestinamente, a direita unindo-se aos militares, tentando neutralizar a ultra direita e a esquerda vendo a história passar. É hora de revolução popular. Vamos em frente, tal e qual fez Mario Soares em Portugal e Fidel em Cuba.

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