O QUE VIRÁ DEPOIS DA PESTE, APESAR DO VERME NOS ATACAR COM O VÍRUS?

contaminador-mor

Epidemiologia (do grego. epi “sobre” demos “povo” logos “estudo”) a ciência das epidemias, propõe-se a estudar quantitativamente a distribuição dos fenômenos de saúde/doença, e seus fatores condicionantes e determinantes, nas populações humanas.

A epidemiologia deve a John Snow, médico inglês, a sistematização do seu método investigativo. Seu livro clássico “Sobre a maneira de transmissão da cólera”[1] é uma boa leitura nesses tempos de quarentena para entender o estudo de uma epidemia e suas conclusões dedutivas de fazer inveja ao seu conterrâneo na ficção, Sherlock Holmes. No tempo em que vigorava as teorias dos “miasmas”, Snow estuda o rastro deixado da epidemia para concluir para a posteridade que a cólera tinha como causa a ingestão de água contaminada por fezes de outros doentes. Investiga os esgotos que contaminam o Tâmisa, o rio que corta Londres, e genialmente prova que um poço no bairro de Soho estava contaminado e produzia a doença nos operários que bebiam água durante as refeições, enquanto os operários que tomavam cerveja no almoço permaneciam sadios. Da próxima vez que for a Londres não deixe de conhecer a Cervejaria Snow no bairro.

A história das epidemias, em grande parte, produz mudanças substanciais na humanidade. A peste negra ou peste bulbônica, no século XIV, dizimou um quarto da população da Europa e abalou a crença na religião e no obscurantismo. O que sobrou da humanidade floresceu no Renascimento, que foi um período histórico profícuo nas artes, na cultura e na valorização intelectual que se opôs à Idade das Trevas, como o período anterior à peste é conhecido (lembrar que renascimento significa nascer de novo).

A varíola e o sarampo, chegando ao Novo Mundo em 1500  a 1530, matou dois milhões de incas e astecas no Peru e México. A epidemia de cólera, nos meados do século XIX, possibilitou o nascimento de uma ciência que iria mudar o curso das epidemias.

Recentemente o vírus HIV, hoje completamente sobre controle, desde o seu descobrimento, em 1982, infectou mais de 60 milhões de pessoas e fez 20 milhões de vítimas fatais. Lembram-se do preconceito que causou seu aparecimento nos grupos de risco?

Mesmo a Gripe Espanhola, que contaminou quase a metade dos habitantes do planeta e matou 40 milhões de pessoas, sendo considerada a maior pandemia até os dias de hoje, teve exemplos em que foi domada por estudos epidemiológicos, sendo o maior exemplo o da cidadezinha de Gunnison, no Colorado, que em levando o isolamento social recomendado à época de forma radical, não apresentou nenhum caso da temível doença. A gripe chama-se Espanhola, porque os jornais da Espanha, país neutro na Primeira Grande Guerra, chamou atenção para o que se queria abafar (para salvar a economia, para variar). Na realidade a epidemia começou nos EEUU, onde a pequeninha Gunnison, mil e poucos habitantes à época, resistiu bravamente fechando fronteiras, fazendo um isolamento social obrigatório.

Entretanto, na Filadélfia, contrariando os epidemiologistas da época, um desfile de rua tradicional foi mantido pelas autoridades locais e o resultado foi trágico: em seis semanas, 47 mil pessoas estavam doentes e 12 mil haviam morrido. Porque na transmissão pessoa a pessoa, só o isolamento social é eficiente para o controle da epidemia, sabemos disso há exatos 100 anos.

É da natureza dessa transmissão que enfrentamos agora a COVID19. Só a China e a Coreia dão sinais de uma calmaria agora, depois de três meses da origem da epidemia. No nosso primeiro mês tivemos, em número de óbitos, um número bem maior que a Itália e a Espanha, onde a epidemia é dramática com quase mil óbitos diários. Começamos uma quarentena tardia. Tivemos o primeiro caso confirmado em 26/02 e só começamos a quarentena em 15/03. O número de casos agora é consequência da contaminação naquele período. Mas estávamos fazendo o nosso dever de casa até a fala de nosso Contaminador-mor da República há cinco dias.

O Ministério da Saúde, que vinha fazendo um bom trabalho, titubeia para não contrariar o presidente. Os tradicionais epidemiologistas pregam o isolamento horizontal e o presidente teima com um isolamento vertical. Peças publicitárias do seu governo conclamam o povo às ruas. Já existem desfiles (em carros fechados, claro) de bolsonariastas reclamando para que o país volte ao “normal”.

E não se ouve a voz da razão porque não temos governo, mas um desajustado em insana campanha. Temo por nossa situação ser pior do que a da Itália ou Espanha por descontrole total da Autoridade Sanitária, que não mais existe.

Se não existe a razão dos epidemiologistas, existe o delírio de poder de um fascista no comando. E esse discurso é claro. Ele tenta levantar a massa fascista dos fortes contra os fracos. Ele prega o mesmo descontrole que tivemos na gripe espanhola para manter a economia – naquele tempo, de guerra. Hoje, do neoliberalismo. Ele prega claramente o extermínio dos doentes, dos fracos, dos velhos, para criar uma raça dos fortes, dos escolhidos por uma seleção natural do reino dos animais e não dos homens. Os que mandam no país incitam esse sacrifício insano contra a vida.

Querem que o povo se sacrifique pelo capital. Que sobrevivam os mais fortes, afinal temos um excesso de mão de obra e não tem emprego para todo mundo. Expõem os fracos ao vírus como Hitler fez com a câmara de gás.

Mas com o vírus não há um acordo tácito possível, sabem os epidemiologistas. Estamos apenas no começo dessa, que parece ser a maior epidemia da terra, ultrapassando em muito o estrago feito pela gripe espanhola.

Para a história parece que estamos mais perto da peste negra do que da gripe espanhola. O mundo sabe que haverá um encolhimento da economia necessariamente para salvar mais vidas. O modelo econômico, ele mesmo está em cheque. Hoje se sabe da necessidade de um sistema público nacional de saúde, de que não é possível manter o nível de desigualdade.

Talvez muitos de nós não vejamos, mas é possível que outro mundo seja possível. Que poderemos ter um outro Renascimento para um mundo mais justo. Se aprendermos a lição.

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Foto: Joedson Alves

[1] https://www.estantevirtual.com.br/raizeslivros/john-snow-sobre-a-maneira-de-transmissao-do-colera-2-ed-2104012136

https://www.infoescola.com/doencas/principais-pandemias/

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