O CINEMA NUM TEMPO IMPOSSÍVEL

20200319_194044

Uma preciosidade o livro de Flávio Reis (Cenas Marginais: Glauber, Sganzerla, Bressane. Edição do autor, 2013, 2ª. Edição, Gráfica Harley, Ma/Pi). Pena que é um livro quase fora do alcance. Se ainda tivéssemos editoras nesse país, haveria de estar nas vitrines das livrarias.

Ganhei de presente das mãos do autor, que eu não conhecia, quando de uma vinda dele ao Rio. E digo que é precioso pela ousadia competente de falar de um cinema num tempo impossível pela lente de três cineastas que revolucionaram o cinema brasileiro, mas ficaram nas discussões acadêmicas e não serviram de fato para o que pretendiam. Precioso ainda pela “brincadeira criativa da utilização das falas, recriação de fragmentos e recomposição literária de cenas de três diretores fundamentais do cinema brasileiro.” Se é brincadeira esse propósito, tente imaginar como o autor pode ser competente em brincar com o cinema “épico-delirante” de Glauber, com o “realismo-avacalhado” de Sganzerla e com a “poesia imagética” de Bressane.

No meio de uma ditadura que calava os corpos e torturava muitos, o cinema se colocava num tempo impossível para falar da constituição do nosso povo e da nossa cultura. E essa fala da imagem tinha que ser enviesada pelo o que não podia ser dito. Ao mesmo tempo em que essa linguagem imagética enviesada se afirmava, ela mesma, para criar uma estética com a cara de nossa gente, emanando do caldeirão cultural que nos cozinhava naquele tempo. Mas longe de ser um cinema datado, ele nos esclarece – aqui já no futuro – do momento político que acontecia no tempo real das filmagens. É essa a viagem que Flávio nos permite fazer, no disco voador[1] do “Bandido da Luz Vermelha”, o primeiro filme que procurei rever conversando com o texto do livro.

As páginas dedicadas a Glauber são nomeadas de “Violência e Desrazão” e buscam compreender a “vinculação positiva entre messianismo, violência e revolução” nas três películas analisadas na “brincadeira” de Flávio. Em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” o misticismo e o cangaço desenvolvidos no sertão não levariam à revolução, a salvação de uma terra esquecida na alienação. Deus e o Diabo fazem parte da mesma dualidade em que Corisco e Antônio das Mortes têm sede da destruição e de morte. Nos momentos de violência a força do misticismo é fundamental. Este é o filme mais popular de Glauber e só anuncia a entrada de Flávio na obra do cineasta.

Em “Cabezas Cortadas” evidencia “um aprofundamento decisivo nos temas anteriores sob uma roupagem estética mais radical” e na “Idade da Terra” transporta o conflito épico messiânico para um plano mais universal, em que a história sai do particular para ser totalizada no caos. Aqui, Glauber desiste da “ilusão nacionalista” para afirmar que o poder é força e não diálogo. Mais não digo para não estragar a leitura de quem, por sorte, encontrar o livro.

“Quando a gente não pode fazer nada, avacalha e se esculhamba” é Sganzerla falando pela boca do “Bandido da Luz Vermelha”. O cineasta “representa um encontro radical com a tragicomédia do subdesenvolvimento”. O escracho de Sganzerla com o capitalismo captura sua periferia, a miséria, exploração e a criminalidade misturados num caldeirão que produz a escrota politica nacional-desenvolvimentista na boca dos políticos sem ética e de um povo que deve inventar para cumprir o seu destino. Em “O Bandido da Luz Vermelha” Sganzerla mergulha numa guerrilha urbana visionária – não dos que contestavam o regime politicamente, mas dos que contestavam num estilo avacalhado e esculhambado de ser. Aqui a estética é tropicalista. A colagem satírica e enlouquecida tira o enredo da história dos personagens para falar da história real que acontecia fora do cinema. Simplesmente genial.

Na “Mulher de Todos”, com uma Helena Ignez deslumbrante, assistimos “a eterna vitória da boçalidade, agora com o aprofundamento do autoritarismo de feição militar” é um filme sofisticado, com planos bem elaborados, “apesar da ser uma verdadeira ode ao mau gosto e à cafonice na cultura nacional” nas letras do autor. Em “Sem essa, Aranha” flerta com o modernismo de Oswald de Andrade por uma incessante busca do Brasil. O gênio de Sganzerla é liberado da garrava. Também do mais não carece dizer aqui.

Se em Sganzerla pode ser visto um excesso de informações escrachadas, com Bressane o que há é sonegação das informações para compor um poema imagético. Se em Glauber e Rogério, Flávio analisa três filmes de cada, em Bressane aparece mais um. “Matou a Família e Foi ao Cinema” é tratado como um duplo de “O Anjo Nasceu” (ambos de 1969). Nesse, a câmera não olha de fora, participa de dentro das ações de violência. Naquele “a rarefação discursiva” não é quem dificulta o fio da narrativa, mas a existência de “vários núcleos narrativos, sem centro”. Se no Anjo a violência está no marginal, no Matou a Família a violência é em ambientes normais e “saudáveis” – com as implicações deletérias que tenham essa falsa palavra.

Em “Rei do Baralho” (rei do barulho, rei do caralho) a homenagem a Sebastião Prata é explícita. Porque Grande Otelo representa o nosso herói da periferia. No filme “embaralham-se os planos e, como num jogo, as combinações possíveis passam para a visão e a intuição de quem joga”. Nada define tão bem este filme de Bressane do que essa frase. O que parecia difícil – descrever o poema imagético de Bressane – Flávio consegue.

O livro de Flávio Reis termina com uma descrição quase cena a cena de “Brás Cuba” de Bressane. “O problema a ser enfocado é a tradução de uma linguagem para outra” (Machado/Bressane). A leitura de Bressane se faz de muitas formas e por várias vias, diz Flávio, da condensação de capítulos a ampliação de detalhes. O que Bressane devolve em imagens é uma “espantosa combinação de dispersividade e unidade.”

Assistir novamente cada um desses filmes com o Flávio Reis é como reafirmar a genialidade que os fãs, como sou, viram em cada um desses filmes. E possibilitar a discussão sobre esses gênios do cinema nacional. Obrigado, Flávio Reis, por me permitir rever esse cinema acompanhado do seu texto nessa inevitável quarentena.

_____________________

[1] Se você não tinha percebido, é o mesmo disco voador que vai aparecer em Bacurau!

Foto: Edmar

Quase todos os filmes podem ser encontrados no You Tube gratuitos. Alguns tem no Now.

Quem quiser aporrinhar o Flávio para ver se consegue um livro, o e-mail dele é flamr@uol.com.br

2 comentários em “O CINEMA NUM TEMPO IMPOSSÍVEL

  1. Texto lindo de ler, caro amigo, nestes tempos tão inacreditáveis que estamos vivendo!!!!muiiiito obrigada e é claro que vou escrever para ele, quem sabe consigo !

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s