NADA DE PÂNICO, MAS O SUS ESTÁ DOENTE TAMBÉM

pânico

“Um Sistema Único de Saúde forte, com acesso universal, gratuito, com capilaridade em todo território nacional, que promova a atenção integral à saúde é decisivo não apenas em momentos de emergência, mas continuamente, para que possamos falar de segurança e de soberania nacional. (Dayse Ventura – Saúde Pública/USP)

 

Se a pandemia mundial do Coronavírus, decretada hoje pela Organização Mundial de Saúde, servisse para demonstrar a necessidade de um sistema de saúde, como o nosso SUS, para o governo atual – que joga com seu desmonte – e mesmo a governos anteriores, que não o tiveram como a prioridade necessária, já teria valido a pena o susto e pânico por que estamos passando.

As endemias não têm uma história independente da divisão da sociedade em classes e do contexto social. Temos emergências em curso: a volta da poliomielite, do sarampo, o descontrole da tuberculose, a zica, o dengue, para falar de algumas. Recentemente o ebola e gripes asiáticas não provocaram tamanho pânico. Doenças nas comunidades marginalizadas, restritas aos mais pobres, pouco dizem respeito ao noticiário na mídia ou soa longínquo às classes médias que tentam uma identidade com as elites. A estas nada pode ameaçar sua zona de conforto em um mundo tomado para ser particular, que a desigualdade instituiu.

O coronavírus, que Slavoj Zizek chamou de subversivo por abalar mercados e extrapolar fronteiras nacionais, traz o paradoxo epidemiológico a tona – quanto maior índice de transmissibilidade, menor mortalidade (e vice versa: maior mortalidade, menor transmissão) – com uma nuance na taxa de mortalidade: mata, preferencialmente, velho com doenças pré-existentes. Grávidas e crianças são tão imune às suas complicações tanto quanto os jovens. E sua disseminação é assustadora. A previsão dos especialistas é que 50 casos no Brasil hoje (já temos mais de 60 comprovados) possam contaminar 4.000 em 15 dias e 30.000 pessoas em 21 dias. Quer dizer, em menos de um mês teremos já alastrado a epidemia no nosso território, se a epidemia se comportar aqui como aconteceu no hemisfério norte, claro.

O problema é que suas características faz com que ele atinja o topo da pirâmide e a classe média abaixo dela num primeiro momento. São os que viajam internacionalmente os condutores dos vírus e os velhos com doenças pré-existentes são os mais amparados por uma medicina privada e os que podem pagar. Claro que ele vai se democratizar com o tempo e chegar às periferias e nem sabemos como ele vai se comportar (no Irã, a taxa de mortalidade é muito maior que na China e na Itália). Mais o susto e pânico que ocorreu no mercado dizem respeito a essa preferência inicial.

Tomemos como exemplo um jovem secretário que foi numa viagem com seu patrão. Ele contrai o vírus, mas fica assintomático, indo a uma reunião com seu chefe na casa de uma liderança mundial. Os dois, seu chefe e o anfitrião, com mais de sessenta anos. Foi o que aconteceu com Wajngarten – secretário de comunicação da presidência – que foi com Bolsonaro a uma recepção com Donald Trump. Agora os dois velhos devem ser monitorados com suspeita de terem sido contaminados pelo coronavívus. O pânico de Trump, suspendendo os voos para a Europa, esbarrou numa reunião em que o vírus foi introduzido pelo jovem brasileiro, que deve ter sido contaminado na viagem ao país de Trump. Muita ironia junta.

E nos EEUU, por não ter um sistema público de saúde, nem sabemos quantos estão contaminados e qual a dimensão da epidemia por lá. Na Itália, mesmo com um sistema público razoável a curva de transmissibilidade não foi achatada de forma a ficar dentro da capacidade de atendimento. São rigorosas medidas de prevenção e quarentena que podem achatar a curva (diminuir a taxa de contágio). Uma boa rede de atenção básica pode ser eficiente nessa questão.

E o nosso SUS? Nunca teve os investimentos necessários. Após o golpe de 2016, a aprovação da PEC 95 (congelamento de gastos por vinte anos) provocou uma asfixia no sistema. Como nosso sistema único é descentralizado existem diferenças entre cidades pela administração municipal.

No Rio de Janeiro, o prefeito desmontou a rede básica, as Clínicas de Família e criou o caos nas emergências. Já não tínhamos um sistema que funcionava antes da epidemia. E ainda temos que dar conta do surto de sarampo e poliomielite que voltaram. Definitivamente, o Rio não tem suporte assistencial para enfrentar o problema.

De Brasília, o ministro Mandetta reclama que o brasileiro é indisciplinado às ordens da autoridade: “continuamos dando as mãos e nos cumprimentando com beijinhos” – diz o ministro. Se ele não tem autoridade nem para botar o pessoal da comitiva que foi aos EEUU em quarentena, que sistema ele pensa que tem à mão para enfrentar a epidemia?

Um governo que sucateia o SUS não tem moral para conduzir a árdua tarefa de enfrentar mais um problema.

O nosso parlamento teria que entender a necessidade do SUS e soltar as amarras financeiras que ele está sofrendo na sua desmontagem. Se o coronavírus contribuísse para deter a asfixia de um sistema de saúde público e de qualidade, até seria bem-vindo, apesar dos estragos que vai causar. Teremos outras epidemias a enfrentar pela frente. E temos que enfrentar as existentes, além do coronavírus. Mas a doença do SUS é o mais preocupante problema.

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Desenho: Gervásio

Um comentário em “NADA DE PÂNICO, MAS O SUS ESTÁ DOENTE TAMBÉM

  1. Isso. Fiquei engasgada com os comentários simpáticos que escutei de muitas pessoas sobre o ministro da saúde porque pelo menos ele dá entrevistas falando corretamente o português e demonstrando um pensamento “defensor do SUS “ que todos sabemos que ele não tem. Daqui a pouco teremos o comparecimento dos donos do mercado médico fazendo “ sugestões “ e se oferecendo para contribuir . O que não se diz é que a destruição e sufocamento orçamentário da atenção básica pode causar um resultado desastroso se está epidemia vier com a força que veio em alguns países ricos . Não teremos leitos que deem conta dos que necessitarão destes e tampouco teremos nossos agentes comunitários que seriam nosso posto avançado do SUS para evitar o pior . Triste país o nosso que de tão desastroso governo até sente alívio diante de um ministério da saúde que , decretada a epidemia , ainda não tem em caixa o dinheiro pra atender àqueles que precisarão das máquinas para respirar !!!

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