HISTÓRIAS DESOBEDIENTES

 

Histórias Desobedientes em manifestação

‘Somos filhas biológicas desses genocidas, mas repudiamos o que nossos pais fizeram’, diz Paula, cujo pai trabalhava para a polícia secreta argentina.

Passou quase desapercebida uma notícia que nos chegou da Argentina sobre filhos que se descobriram de pais torturadores durante a ditadura militar. São tristes histórias torturantes de dramas familiares inimagináveis em Pindorama.

São filhos de torturadores condenados pela justiça Argentina, que nunca antes imaginaram quem eram seus pais, e que ao descobrirem a história verdadeira rompem laços familiares para se colocarem ao lado da história, a favor dos torturados por seus pais.

Na reportagem publicada pela BBC Brasil dois dramas se desenrolam nos detalhes. Uma moça visita o pai na prisão, incrédula com as acusações que lhe foram feitas. A princípio ele nega, mas em continuidade, dado a questionamentos da filha de detalhes nos processo jurídicos – baseados em relatos de torturados – o pai acaba por confirmar a verdade. E aí começa o drama da filha. Aceitar a verdade, romper com irmãos e familiares que apelam para a fragilidade do prisioneiro atual, ouvir o que dizem as “abuelas de la plaza de Mayo” e os dramas expostos em outros processos, recordar um pai amoroso que nunca apresentara quaisquer sinais de ser o que era. A moça afirma que só a companhia de outras “Histórias Desobedientes”, como se autonomearam e ficaram conhecidos esses filhos rebeldes, pôde sustentar suas convicções de que essa história de desobediência era necessária para que pudesse continuar a viver com a consciência tranquila.

A outra moça fala que só conseguiu romper com o pai depois da morte da mãe e que a terapia sustentou sua decisão: “ele é uma pessoa horrível, e eu não quero alguém assim na minha vida. Ele sempre repetiu para mim que havia feito o que precisava ser feito, que agiu corretamente, que os crimes foram necessários. Ah, e ele não chamava de crimes, é claro. Ele chamava de ‘ações’…”, desabafa.

Os que expuseram suas “Histórias Desobedientes” se encontram, alguns por redes sociais, e mantêm a coesão necessária para enfrentar o rompimento com histórias familiares. Numa das histórias contadas o pai deserda a filha rebelde. É preciso coragem para sustentar uma posição que desmancha uma relação familiar harmônica baseada na mentira de papeis históricos. Porque, como diz a história, os canalhas podem ser bons pais e bons maridos. Tudo que é do humano não devia nos assustar.

Mas a coragem desses filhos rebeldes, desses nomeados desobedientes é admirável, apesar da dramaticidade torturante vivida por esses jovens. A ditadura Argentina acontece mais tarde que a brasileira. Esses torturadores são da minha geração, uns estão ainda presos, outros carregam a marca de uma condenação da democracia e muitos ainda estão lúcidos para lembrarem as atrocidades que cometeram. Talvez sua maior pena seja a revolta dos filhos desobedientes. Carregam a pena de serem condenados pelos próprios filhos. Essa inusitada cobrança da história, materializada em outra geração filha da democracia, certamente serve para diferenciar a recuperação da democracia argentina da nossa.

Na nossa recente democracia, nomeada Nova República, mais fomos uma concessão dos militares, que deixavam voluntariamente o poder, do que uma conquista – apesar da euforia com que a recebemos. A imposição de José Sarney – um político alinhado com a ditadura – como vice e a morte um Tancredo – filho de uma oposição consentida – ainda mais que facilitou a continuidade. Collor foi certamente uma tentativa de retorno precoce das elites que se beneficiaram com a ditadura. A social democracia que virou direita já executou as privatizações que os militares nacionalistas não permitiram. Lula foi a conciliação possível em tempos de vacas gordas internacionais para atender os mais pobres. Dilma já chega no tempo das vacas magras e, sem habilidade, foi facilmente golpeada para nos colocar na extrema direita de agora, surpreendendo a própria direita.

E nesses tempos de consentimentos e conciliações evitamos a punição de nossos carrascos da ditadura por uma anistia recíproca equivocada. Perdoaram-se os algozes e as vítimas. Ninguém foi condenado pela perversão de uma ditadura que torturou, assassinou quem ousou fazer frente ao Estado policial criminoso.

Ora, se nem a sociedade condenou as ações criminosas dos nossos torturadores, seus filhos não foram também cobrados pelo comportamento dos pais. Em alguns deles até foi louvada a coragem de agirem diferentes dos seus pais. Assim não tiveram o drama de consciência e a torturante realidade dos jovens argentinos. Foram poupados pela história que também poupou a nossa jovem democracia de se afirmar com mais força e convicção.

Talvez por essa diferença a democracia argentina se afirme com mais força e convicção de que a luta tem que ser travada sem tréguas. Até no embate entre pais e filhos que pensam diferentes a respeito dela. A história é por natureza desobediente.

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Matéria da BBC Brasil: https://www.bbc.com/portuguese/geral-51398365

 

 

Um comentário em “HISTÓRIAS DESOBEDIENTES

  1. Muito oportuna a publicação dessa matéria. Nossos fantasmas ainda estão guardados num armário macabro. Ou no casarão do NAO EXISTE PRETÉRITO PERFEITO.

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