OS MISERÁVEIS MODERNOS

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 “A história é sempre a mesma. Essas pobres criaturas, carecendo de apoio, de guia, de abrigo, ficam ao léu, quem sabe até, indo cada uma para seu lado, mergulhando na fria bruma que absorve tantos destinos solitários, mornas trevas onde, na sombria marcha do gênero humano desaparecem sucessivamente tantas cabeças desafortunadas.” (Victor Hugo em Os Miseráveis)

“Não há nem ervas daninhas nem homens maus. Há apenas maus cultivadores” (Victor Hugo)

 

Ladj Ly, cineasta nascido na França filho de pais malês, em seu primeiro longa-metragem, depois de vários prêmios, já disputa um Oscar como melhor filme estrangeiro. O filme, derivado de um curta do próprio Ly, retrata conflitos num subúrbio pobre de Paris, onde o cineasta e co-roteirista nasceu.

Ly leva nossos olhos para longe da Paris glamorosa, frequentada pelos turistas, e mostra a crueza da periferia, onde indesejáveis migrantes negros, árabes, refugiados de várias etnias do planeta, abandonados pelo estado de bem-estar europeu, vivem em conflitos entre si e com a polícia – quase a única presença do Estado em Montfermeil (onde Ly nasceu e local das filmagens), perto de Clichy-sous-Bois, onde em 2005 estourou uma revolta urbana, depois que dois adolescentes foram mortos eletrocutados, enquanto fugiam da polícia.

Mas não é dessa revolta que o filme fala. Na ficção Ly inventa um pretexto, pois qualquer pretexto serve, para que o instável equilíbrio da periferia seja quebrado. Ladj Ly declarou em recente entrevista: “durante cinco anos, filmei tudo o que acontecia no bairro, sobretudo os policiais. Eles chegavam, eu pegava minha câmera e registrava, até o dia em que filmei um verdadeiro confronto”. É sob tensão da câmera  de Ly, retratando ações de bons atores no longa-metragem, que o espectador é levado a participar do conflito. E é inevitável um soco no estômago.

Como também é inevitável a comparação com o que acontece na periferia das grandes cidades do Brasil ou de qualquer outro país distante do que nossos olhos conhecem da Europa. Parece que a onda de migrantes em terras europeias trouxe um pedaço do terceiro mundo para o isolacionismo do “berço da civilização”, garantido na exploração histórica de suas colônias pelo mundo.

Porque foi possível tornar as nações ricas e civilizadas nos costumes a partir da violenta exploração de nações submetidas ao barbarismo do colonizador impiedoso, cruel, saqueador e violador dos costumes de quem eles tratavam por bárbaros. Como se projetassem no colonizado a sua dominação desalmada. Em Mali, onde nasceram os pais de Ladj Ly, o idioma oficial é o francês imposto. Língua na qual o cineasta vai reclamar as dívidas de seus ancestrais numa pátria, que mesmo lhe tendo parido não quer ser sua: “os subúrbios são barris de pólvora: há clãs e, apesar de tudo, tentamos viver juntos para que não aconteça o caos. É o que mostro no filme, como cada um administra seu dia a dia para seguir adiante”, reclama Ladj na mesma entrevista em que revela ter sido revistado pela polícia quando tinha 10 anos.

A violência da escravidão, do colonialismo, da exploração e rapinagem cruel do passado e o fomento da indústria bélica que permite as guerras atuais na periferia produziu uma massa de refugiados que mudaram a paisagens das cidades “civilizadas”. É desta cobrança – que tanto a direita tem medo – que a câmera de Ly vai nos fazer testemunhar como mudou o cenário europeu elegante, glamoroso e “civilizado”.

Vemos então algo próximo as nossas milícias, lá até fomentado pelo Estado; divisão do espaço entre gangs e a exploração do território; polícia corrupta e adaptada para manter o equilíbrio instável; violência explodindo para o cidadão de segunda classe.

Chamado de “Spike Lee Francês” o jovem franco-malês sabe onde coloca a câmera e desnuda uma Paris que não se queria mostrar. E fala dos miseráveis de Victor Hugo da periferia de Paris do século XIX e seus movimentos de barricadas que lhe fizeram a história. Só que agora os miseráveis são os migrantes que os franceses exploraram na periferia do planeta. O retorno do recalcado na escuridão do continente africano ameaça a iluminada cidade luz.

Um filme excelente. Por se tratar disso, mas nada disso é explícito no filme. É um “já dado”. Então começa a história da qual nada contamos aqui.

 

2 comentários em “OS MISERÁVEIS MODERNOS

  1. Excelente Seu comentário ! Eu achei um filmaço também ! E a frase final do filme, Vitor Hugo quando diz que o que existe são maus cultivadores é a síntese do modo como também – e mais ainda – aqui no terceiro mundo – são tratados os jovens pobres . Gostei especialmente quando vc se refere a todo este cenário como o retorno do recalcado . Muito bom!

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  2. Excelente comentário. As feridas, nenhuma metrópole gosta de mostrar. O massacre das populações de pele diferente dos branquelos de olhos azuis é evidente. Os imigrantes, legião de miseráveis vítimas das guerras sangrentas, criadas pelos mesmos países que não os toleram, vão morrendo na fuga desesperada. Aqui no Rio, o repugnante prefeito assassino impõe um genocídio cruel, a céu aberto, a pretos e pobres. E os que se salvam da barbárie, morrem, ou de fome, ou nas filas quilométricas dos hospitais.

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