ANTES QUE SEJA TARDE

Monero Rape

“Solteira de paradigmas, a esquerda é uma donzela perplexa que, terminada a festa, não consegue encontrar o caminho de casa.”

(Frei Beto)

O diabo saiu da garrafa no voto do Deputado Jair Bolsonaro para o impeachment de Dilma. O louvor a um torturador famoso, que tinha prazer em colocar ratos na vagina de suas vítimas e que afrontava a Constituição ficou sem resposta coletiva de um Congresso que queria tirar a presidente eleita a qualquer custo. Pouco importava o método, a falta de motivos. Jean Wyllys respondeu com uma cusparada na face no fascista sua indignação solitária e que, paradoxalmente, quase lhe custou o mandato. Ali foram liberados os saudosos da ditadura, os conservadores, a extrema direita que estava amordaçada nos armários de uma história mal resolvida que nunca puniu quem torturou e matou em nome do Estado.

E os vimos surgir muito perto de nós: parentes, vizinhos, transeuntes que pareciam inofensivos, na barbearia, cabeleireiros, nos bares, no trabalho, colegas tão próximos, pessoas de quem nunca suspeitávamos, artistas consagrados, a voz do povo e a voz de Deus.

Este crescente assustador e inesperado nos fez sentir pertencentes a uma bolha muito pequena. Nós que achávamos ter a hegemonia de um discurso que, descobrimos, era pouco entendido. E, ainda assim, a esquerda que disputava a eleição achava melhor um embate com um Bolsonaro que só arranjou um partido às vésperas da disputa. Perdemos para o crescente assustador fundamentalista conservador e facilmente capturado pelo fascismo.

O slogan do presidente eleito citava explicitamente o “Deutschland über alles” da Alemanha fascista, mas nós víamos um paspalho trapalhão e não acreditamos no que ele dizia. Deus acima do “tudo” parecia amenizar o que, realmente, só piorava a montagem fundamentalista de um estado capturado pelo autoritarismo. Fiávamo-nos (e continuamos a nos fiar, talvez, perigosamente) num parlamento e judiciário que sustentaram o golpe e a fraudulenta eleição, mas que não deixariam o governo descambar para uma ditadura porque perderiam o poder e suas benesses. Também não quisemos entender que os militares que sustentam o governo são da extrema-direita do regime militar que queriam sua continuidade e não a distensão que permitiu a volta dos civis. Preferimos ver um bando de velhinhos de pijamas (sem querer enxergar os cadáveres debaixo de suas camas).

O recente ato da ópera-bufa, preparado pelo diretor de teatro e titular da pasta de Cultura Roberto Alvim, tendo combinado o script com Bolsonaro, revelou as intenções de um governo fascista por simples pesquisa numa rapidez estonteante. Exagerando na encenação, o diretor teatral não resistiu em copiar frases de Goebbels e colocar a trilha sonora preferida de Hitler, além dele próprio (um péssimo ator) encarnar o fascista original com gomalina no cabelo, gesticulação, entonação e cenário, muito próximos da tragédia que inspirou a farsa. Uma jornalista pesquisou no Google parte das frases e chegou no Goebbels. Na sequência, imediatamente, toda a farsa foi revelada. O exagero do diretor teatral lhe custou o cargo. Tivesse sido mais discreto, assistiríamos a mais um ataque a democracia sem reagirmos.

Poderíamos dizer que o psicopata não resiste ao que considera genial e assim pode ser descoberto.

O problema somos nós. Reagimos à forma, o babaca foi demitido, mas o conteúdo? Ora, o que Alvim revelou foi um plano macabro de liquidar com a cultura, contrapondo uma arte nacional fundamentalista com valores morais(?)  ao que eles consideram “arte degenerada” (lembram do Queer Museu? por ex.).  O plano de Alvim que foi discutido com Bolsonaro continua em vigor. Seja a velhinha namorada do Brasil ou qualquer outro, o roteiro está escrito.

Esse era um bom motivo para a sociedade e as instituições serem mobilizados para nos livrar desse perigo fascista. Bolsonaro e seu governo fascistoide deveriam ser defenestrados. Mas parece que as oposições preferem assistir o que acham ser o desgaste do Bolsonaro e se prepararam para o jogo eleitoral. Apostam suas fichas num jogo que pode não ter. Vale terminar essa reflexão com uma citação de Juan Arias do jornal El Pais:

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.”

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desenho: Monero Rapé, cartunista mexicano.

4 comentários em “ANTES QUE SEJA TARDE

  1. Uma reflexão objetiva claro, didática.
    Onde estão aqueles que constitucionalmente devem defender o país?
    Assistimos a investidas estrategicamente preparadas para a eliminação do que resta de Democracia.
    A Sociedade Civil continua anestesiada e tomara consiga despertar desse pesadelo.
    Contudo, enquanto o fascismo se alastra, a “esquerda “, ainda acredita que alguma coisa pode mudar.
    Quando não há reação, somos presas fáceis para tantos predadores .

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  2. Muito bom artigo, amigo véi. Só quero lembrar que a “esquerda” está atônita não apenas aqui em Pindorama. No mundo inteiro estamos levando bola nas costas. Como enfrentar essa selvageria rentista, onde 1 por cento detém a mesma riqueza dos 99 por cento restantes? Navegar é preciso, refletiñr e lutar tambem.

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  3. O Estado Brasileiro (Poder Executivo) está todo aparelhado pelo neonazifascista. A bola da vez é o aparelhamento do Conselho da Amazônia.

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