TRABALHO ALIENADO E PRÁTICA EM SAÚDE MENTAL EM TEMPOS DE PRECARIADO. OS “DOENTES DE BRASIL”

A imagem pode conter: 1 pessoa, barba, texto e atividades ao ar livre

Desde Marx, sobre o conceito de alienação, o trabalho alienado “não é uma potência e a confirmação de si, mas um sacrifício e mortificação” do trabalhador. O velho já apontava aí para os efeitos do trabalho no sistema capitalista para a saúde mental dos trabalhadores. Robert Castel, ao analisar a alienação do trabalho no capitalismo moderno, quando ainda vingava o Welfere State, arrancado à duras penas pela luta dos trabalhadores, categorizou os trabalhadores em integrados, vulneráveis, assistidos e desfiliados.

Aos integrados ao sistema, Castel coloca os trabalhadores estáveis, servidores públicos e os beneficiados de protetora legislação trabalhista. Os vulneráveis seriam os trabalhadores precários; nos assistidos teríamos os que estão sob proteção do Estado; e os desfiliados, os excluídos do sistema. Claro, que fora os integrados, os outros poderiam desenvolver algum “sofrimento social”, conceito atual para se estudar a relação do trabalho com o sofrimento mental e físico. Mas completamente diferente da situação de agora.

Vejam que nos conceitos desenvolvidos por Castel no Welfere State a categoria que ele chamou de integrada não tinham porque desenvolver um “sofrimento social” (mesmo que desenvolvesse problemas de ordem individual e derivados da situação da divisão do trabalho e doenças profissionais). O estágio de sofrimento social era possível de aparecimento nos vulneráveis, mas estes ainda poderiam ser remediados como assistidos pela proteção estatal, com consequente diminuição do sofrimento. O seguro desemprego, ou mesmo programas de renda mínima, em alguns países, permitiam um equilíbrio do trabalhador até voltar a um trabalho vulnerável, ou melhor, a um estável. O verdadeiro “sofrimento social” capaz de transtornos psiquiátrico ficava quase que exclusivo aos desfiliados, seja por falta de qualificação profissional, seja por formarem guetos de excluídos nas periferias urbanas.

Só recentemente os desfiliados de Castel encontraram explicações na interseção da psiquiatria e sociologia para definir cuidados em saúde. Por muito tempo essa questão social foi tratada como caso de polícia. O programa “De Braços Abertos” da Prefeitura de São Paulo foi uma experiência interessante na interseção das disciplinas e cuidado em saúde. Pena que as cracolândias já retornaram a ser “caso de polícia” na política atual.

No estágio de neoliberalismo em que nos encontramos, a classificação de Castel perde o sentido. O atual estágio do capitalismo liquidou o Walfere State e com ele os programas de proteção social aos trabalhadores, eliminando a categoria de “assistidos.” Esforça-se agora para desregulamentar toda a estabilidade que continha os incluídos, pelas reformas trabalhista, previdenciária, administrativa e fiscal. Ao trabalhador resta a precariedade do trabalho, enquanto o estado neoliberal trabalha para liquidar a categoria de “integrados”. Alarga-se assim dois campos: precarizados e “desfiliados”.

Enquanto os precarizados esforçam-se numa competitividade insana baseada numa meritocracia improvável por não considerar a desigualdade, os desfiliados são levados a se culparem pelo “fracasso” em que se encontram. Aqui o tal de “sofrimento social” estudado pelos acadêmicos se confunde com os diagnósticos psiquiátricos de depressão na maioria das vezes.

Essa situação que nos acomete agudamente foi o que levou o jovem psiquiatra Fernando Tenório a desenvolver o conceito de “doente de Brasil” para os seus pacientes que procuravam nas drogas psiquiátricas resolverem um problema de exclusão do sistema. A felicidade da elaboração do conceito a partir de observações de sua clínica diária parece ter respondido a uma questão que dissolveu os limites entre o diagnóstico psiquiátrico e a realidade social.

Numa anamnese bem feita os profissionais de saúde devem evitar a medicalização das questões sociais. Confesso que numa medicina com é feita hoje, onde apenas os sinais e sintomas são precariamente recolhidos e muitas das vezes o médico não procura saber se o paciente está empregado ou desempregado, nem tem tempo e formação para avaliar situações que creem ser do campo da sociologia, isso se faz impossível. Mas é preciso um esforço para o entendimento dessas questões. O esclarecimento terapêutico da situação, muita vezes, funciona melhor que a receita de um antidepressivo.

O olhar de Ângelo, o chileno que alegremente com um cartaz chama atenção para o que lhe aconteceu, pode ser a melhor ilustração do que eu quis aqui dizer. Sua participação no movimento chileno, que ele chama orgulhosamente de revolução, lhe devolveu a vontade de viver. E como para afirmar sua “autocura” proclama que não é brincadeira o que está dizendo.

No momento em que vivemos, para lidar com os “doentes de Brasil” é preciso MAIS POLÍTICA E MENOS FLUOXETINA. Como a fotografia de Ângelo, que ilustra este artigo, parece gritar com seu cartaz.

___________________

Ilustração: foto da internet sem referência de autoria

Dedico essa conversa aos amigos Patricia Cavalcanti e Fernando Tenório com quem discuti esses assuntos.

 

2 comentários em “TRABALHO ALIENADO E PRÁTICA EM SAÚDE MENTAL EM TEMPOS DE PRECARIADO. OS “DOENTES DE BRASIL”

  1. Que belo artigo! Fico pensando, após o lindo exemplo de Ângelo: com tirar do lixo toda a dignidade desse grande exército de desassistidos? Só com resgate da saúde mental, esta também jogada no lixo pelas políticas neoliberais excludentes, isso será possível!

    Curtir

  2. Muito bom seu texto caro Edmar !
    Sou uma admiradora do nosso grande Castel e acho que o que ele deixou para nosotros no campo conceitual foi um alerta de que o capitalismo de mercado é uma mudança de paradigma . Acho que uma certa esquerda ainda não entendeu ou não quer entender e continua pensando nos termos do espírito do welfare state. Não vai dar certo de novo porque o mundo é outro . A medicalização do sofrimento é um processo de grande fôlego que tem atrás de si não só os conglomerados farmacêuticos . Tem muitos tentáculos . De todo modo Castel nos deixou enormes pistas para pensar sobre porque esta direita tão elementar é admirada e aplaudida em tantas partes do mundo . Parabéns !

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s