LIÇÕES DO CHILE: NOSSOS FILHOS SERÃO SACRIFICADOS PELO NOSSO MEDO?

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Foi sob a ditadura Pinochet que um grupo de jovens economistas chilenos implantou um modelo novo de liberalismo, que foi chamado de “Milagre do Chile” pelo festejado economista americano Milton Friedman. Uma década depois Margareth Thatcher aplicou as medidas no Reino Unido e espalhou esse liberalismo mundo afora. Desde a década de oitenta do século passado o capitalismo em todo o mundo abandona o estado de bem-estar social para regular a economia pelo mercado e colocar o estado a favor da concentração de renda e não para quem precisa. A cada crise cíclica do capitalismo, para salvar o capital o neoliberalismo ataca os direitos dos trabalhadores.

No Chile de Pinochet, os “Chicago Boys” sob o comando do Piñera, irmão do atual Piñera presidente, acabou com os direitos trabalhistas, privatizou as aposentadorias, implantou a universidade paga, entregou a saúde a empresas capitalistas e empobreceu o povo para crescer o capital. Isto é, protegidos pela violenta ditadura de Pinochet, os economistas transformaram o estado de bem-estar social de Allende numa economia de mercado cruel. A concentração de renda – com o fortalecimento do capital – foi o milagre festejado por Friedman.

Cabe ao atual Piñera lidar com os efeitos provocados pela política econômica do irmão no passado. Subir as passagens em míseros centavos de dólar foi a gota d’água que transbordou o poço de insatisfação dos chilenos. Décadas são necessárias para que o povo – que sofre para sobreviver, é manipulado pela mídia do baronato e não tempo de perceber o que lhe aperta o calo, sempre doendo mais – tome consciência da realidade. Essa é a revolta que tomou o Chile. As pessoas foram destituídas de todos os direitos e envelheceram trazendo a miséria para suas casas, suas famílias. Alguns velhos não aguentaram a crise e cometeram suicídio em desespero.  Agora os jovens se revoltaram. Estão dando um basta.

Claro que a repressão – digna da ditadura de Pinochet – está assassinando os revoltados chilenos. Mas uma frase trazida ao campo de luta é explicativa: “nos tiraram tanto que nos levaram também o medo”. E é disso que o capitalismo tem medo: da falta de medo da força de trabalho não aceitar a exploração em demasia. Há um limite. Leva tempo, mas ele chega. Os avós tinham algum bem-estar fornecido pelo estado; os pais empobreceram nos direitos que foram tirados; os filhos não vêm no futuro qualquer esperança; todo o sacrifício só aumentou a concentração de renda para os mais ricos, ainda mais ricos; e os pobres cada vez mais pobres; a revolta eclodiu. Oxalá os latino-americanos vejam nos seus governos de direita e sua política neoliberal o futuro que já aconteceu no Chile. E reajam já, antes que tenha que sofrer por décadas.

Não por acaso entre nós o Guedes serviu ao governo Pinochet e trouxe o que foi implantado lá para que nos atinja agora. O modelito é o mesmo: ninguém mais se aposenta com o que ganha e terá um pouco se fizer uma previdência nos bancos privados, sem saber se conseguirá sobreviver; a CLT – uma proteção trabalhista desde Vargas, que nem a nossa ditadura teve coragem de mexer – foi rasgada para que o trabalho seja negociado no mercado: se o escravo era vendido, você agora será alugado; a universidade pública será privatizada, em prejuízo de quem não pode pagar; o SUS será um plano limitado para os pobres e quem não tiver um plano de saúde morre a míngua.

O Chile tá mostrando que pode levar algum tempo, mas a revolta será necessária. O neoliberalismo colocará na pobreza quem se julga hoje classe média, e pobres serão colocados novamente abaixo da linha da miséria. Os ricos ficarão mais ricos. A recuperação da crise do capitalismo é a miséria da base da pirâmide. Os jovens reagirão porque conhecerão a história.

Ou você luta hoje ou condenará seus filhos ao sacrifício da luta amanhã. Porque quando nos tirarem tudo, só restará tirar o medo dos nossos filhos e netos.

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