A DISTOPIA EM BACURAU E GOTHAM CITY

coringa vai a Bacurau

Dois filmes fazem sucesso de crítica e público. O brasileiro Bacurau (Kleber Mendonça e Juliano Dorneles, 2019) e o americano Coringa (Todd Phillips, 2019). Interessante momento do cinema num mundo em que a vitória do neoliberalismo e a retirada de direitos trabalhistas e sociais antecipam um futuro de desigualdade acentuada. E não mais na inevitabilidade dos desejos do mercado para a regulação da economia e da democracia, mas como uma eternidade imutável da perversão neoliberal, onde se aumenta a concentração de renda e a desigualdade, ao mesmo tempo em que a democracia dá lugar ao autoritarismo.

Enfim, os dois filmes parecem inaugurar uma estética da barbárie, que Brazil, o filme (Terry Gilliam, 1985) ousou mostrar (mas que foi pouco percebido), ou Brasil ano 2000 (Walter Lima Jr, 1969), ou mesmo Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967) já haviam anunciado.

Não falo de uma barbárie fictícia, tipo Mad Max, ou tecnológica, como Matrix, nem de dramas bárbaros localizados, reais e imaginários, que tanto o cinema gosta de mostrar. Mas da barbárie real e histórica que tem muita possibilidade de nos acometer pelo rumo que o mundo está tomando.

Se Bacurau nos mostra no futuro um mundo distópico, em que a única defesa requererá a união de uma comunidade com seus delinquentes para enfrentar o ataque externo; o Coringa dá indícios que a distopia foi construída no passado, quando nos esquecemos da origem dos bandidos para festejar os mocinhos que sempre defenderam os ricos e a ordem constituída.

O brasileiro Bacurau é essa nossa sociedade miscigenada, onde a lei serve para acalmar o pardo ou mulato que não se revoltam contra o pai branco. Esse pai branco que odeia e controla as manifestações dos seus filhos bastardos. Não somos cordiais, nem pacatos, nem agimos com o coração. Somos acuados filhos da puta, onde Gilberto Freire e a academia viram vantagem nesse estupro festejado. Bacurau é a revolta contra esse pensamento dominante. Como um aviso. Talvez no futuro, os Lungas e Pacotes serão chamados a formar batalhão na comunidade para defender contra os que “estão fazendo isso conosco” e nos atacando impiedosamente. Será uma luta pela liberdade ou a barbárie. Disso o futuro dirá. É a magia do cinema.

O americano Coringa é mais sombrio. Ele olha para o passado, na retaguarda onde ainda corríamos atrás das utopias. E é ali, pela década de 1970, onde o recontar da história nos mostra que a distopia já havia começado antes do que podíamos ter imaginado. O Coringa é filho da distopia real, quando ainda sonhávamos com a utopia. E só hoje sabemos que a origem do vilão foi por culpa da opção (e situação de classe) do mocinho, mesmo antes do herói existir. E, ironicamente, não menos por opção e origem de classe de quem lia os gibis. É a magia do cinema.

Os dois filmes tratam a barbárie como possibilidade real. E eles nos dizem que na barbárie não tem saída: quem acha que pode escapar de Bacurau vai terminar em Gotham City.

PS

Sobre o fabuloso desenho do 1000TON, que inspirou esse artigo: (1) Na visão utópica do otimismo, o Coringa se junta a Lunga e Pacote para defender Bacurau do inimigo e dos super-heróis. (2) Na visão distópica realista[1], não há saída, você esbarra no coringa se fugir de Bacurau.

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[1] Nada pode ser mais pessimista do que a distopia real em que nos encontramos.

3 comentários em “A DISTOPIA EM BACURAU E GOTHAM CITY

  1. Caro amigo
    Ainda não vi Bacurau, mas vou ver ! Falo sobre o Coringa . Há ali muita coisa Mas há sobretudo um momento em que todos os limites são ultrapassamos pelo gesto que mata. E não mata só porque não há mais limites, o que também é verdade . Mata pra não morrer. Mata porque já é apenas um alvo. Então mata, passado este ponto segue matando … Talvez seja este ponto que a lógica de um mundo sem limites nos leva a todos. Todos coringas não é ? Ou todos alvos !

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  2. Sensacional essa análise do Edmar. Fico muito contente, porque entendi ser muito pertinente. No meu caso, no papel de chargista, a minha ligação é direta com o mundo dos homens, seres bastante complexos e mesquinhos. Quando produzo, não analiso filosoficamente, talvez nem tenha capacidade pra isso, qual será o resultado final… Simplesmente flui quando “baixa o santo”, não sei explicar direito… Agora, pra mim é motivo de orgulho quando um profissional competente como o Dr. Edmar Oliveira, baseado no meu trabalho, desenvolve um pensamento, sem a gente combinar nada, que dá uma dimensão muito maior à minha arte. Notadamente quando escreve: “Nada pode ser mais pessimista do que a distopia real em que nos encontramos.” O que tinha na minha cabeça quando fiz esse CORINGA X BACURAU, se é que se pode chamar assim, eu estava pensando meio que num fundo do poço, exatamente o que está implícito, pra mim, na frase que citei do pensamento do Edmar. Valeu, pra caralho participar dessa “dobradinha”.

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  3. Excelente a sua análise. Tanto em Bacurau como no Coringa a distopia é o resultado inevitável da luta contra a opressão constante e cada vez mais dilacerante. No jogo de baralho, o Coringa é o “melé” que vale tudo e pode reverter a derrota em vitória. No filme se dá o mesmo, só que de forma trágica.

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