O ASSASSINATO DA MENINA ÁGATHA E A PROTEÇÃO DA “GENTE DE BEM”

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No mesmo momento em que o Deputado Freixo derrotava o absurdo da tal lei que prevê um “excludente de ilicitude” do projeto de Estado Policial do Sérgio Moro, no Grupo de Trabalho da Câmara Federal, a perícia que investigava de onde partiu o tiro que matou a menina Ágatha, no Rio, firmava o veredito de que não se podia concluir com qualquer indício que apontasse para os policiais. O Projeto Anticrime de inspiração fascista ainda vai a votação em plenário e a vitória de Freixo no grupo de trabalho pode ser anulada pelos deputados para agradar o governo. Mas o aparelho de Estado na conclusão da perícia decretou na prática a “lei” de “excludente de ilicitude” para os policiais que dispararam no carro que conduzia a menina assassinada. O Estado já age excluindo a ilicitude de seus agentes.

Apressadamente, ainda com o Rio de Janeiro perplexo por um crime absurdo, a perícia concluiu que o projétil que atingiu a menina tem formato “adequado a armas de fogo do tipo fuzil”, mas não está em condições de ser comparado às sete armas apreendidas com policiais militares que estavam trabalhando na noite em que a menina foi morta. Ainda, coincidentemente ao Estado Policial que vivenciamos atualmente, o governador suspende a gratificação para policiais que reduziam mortes em ações da Polícia Militar, reforçando assim a autorização para matar.

A morte da menina Ágatha gerou uma comoção e revolta nas redes sociais, chegando a sensibilizar parte da mídia que resguarda e incentiva a matança nas periferias, na desculpa da inútil guerra às drogas. Guerra que agora foi  exacerbada por uma ação policial feroz e colérica, quase sempre letal para inocentes nas comunidades em que o combate se dá. O governador comemora a diminuição de homicídios dolosos na cidade revelando o real objetivo da operação policial agressiva: controle ostensivo da população da periferia como forma de proteção do “cidadão de bem”. Transforma assim, indiscriminadamente, os moradores pobres da periferia em potenciais e perigosos criminosos, tirando-lhes o direito de cidadania e criminalizando as comunidades em que reside a maior quantidade de trabalhadores menos privilegiados das cidades.

Como se pode desejar uma legislação que exclua atos ilícitos de representantes da lei, senão num Estado fascista, que considere excluída de cidadania parcela de sua população? A infame distinção do “cidadão de bem” exclui o outro que não se enquadra nesse conceito como suspeito à priori e sujeito a violações nos direitos básicos de cidadania. Afinal, para o fascista, os direitos humanos são para os “humanos direitos”, os que concordam com o Estado Policial que cresce assustadoramente nesse instante.

Ágatha era uma menina de quem a família esperava um alento no futuro. Não era de uma família muito pobre para os padrões da comunidade em que vivia. Estudava em escola particular, tinha aulas de balé e xadrez. Os pais da menina deram entrevista num programa de televisão e falaram do medo que sentiam com as incursões policiais e de quando foram vitimados por uma delas. Talvez a comoção tenha sido ampliada porque a família não se diferenciava da “gente de bem” para o público quando foi trazida às câmaras de TV com o drama que acontece quase sempre longe das vistas do público que apoia a política do governador.

Aquela mãe desesperada, que de forma dramática relata o acontecido como uma obrigação de falar pela memória da filha; conta a rotina de medo e de cuidados que aqueles moradores têm de praticar para enfrentar aquela realidade cruel. Aquele pai em prantos pedindo em desesperada aflição que o governador mude essa política porque nem todo morador de bermuda e chinelos ou andando de moto é o bandido que eles estão procurando. O tiro foi disparado, segundo versão da polícia, para deter um suspeito numa moto que passou frente ao carro onde estava Ágatha e sua mãe.

Qual a razão da suspeição de uma pessoa de bermuda e chinelos numa moto pelas ruas de uma comunidade da periferia? E isso ser razão para provocar um tiro que vitimou a menina, segundo relato de testemunhas no local?

Seria bom que a classe média amedrontada com a violência da cidade pudesse ver gente boa e igual nas comunidades que estão sob o fogo irracional de um Estado Policial que mata inocentes e também mata policiais despreparados para uma guerra insana. Porque a família de Ágatha está mais próxima da realidade dessa classe média empobrecida do que essa classe média imagina. E se equivoca pensando ser possível ascender a uma elite que mora em mansões inexpugnáveis ou no exterior. Mesmo que tenha um carro blindado, que more num condomínio na Barra da Tijuca, que viaje ao exterior uma vez por ano, pedindo para o dólar não subir. O medo de ficar pobre alimenta o desejo e o preconceito.

A classe média se presta ao papel de cão de guarda de uma elite que provoca a cisão social para reinar absoluta. O Estado Policial visa apenas o controle da população negra, parda e pobre que reside em guetos abandonados pelo poder público. A classe média dissemina a opinião de que a violência do Estado Policial diminui a violência de que ela tem medo.

O falso conceito de “gente de bem” apenas provoca uma desconfiança entre iguais e interessa ao fascismo para fabricar o inimigo: comunistas (seja lá o que diabos seja isso hoje em dia), socialistas, humanitários, intelectuais, artistas, homossexuais, feministas, negros, pobres, enfim uma diversidade a que todos pertencemos por sermos um mesmo povo com suas diferenças. O Estado Policial pode atacar a todos nós para proteger os seus donos (pequena porção de nossa gente comprada pelos interesses da elite internacional).

Não há como não comparar esse texto com uma cena do filme de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles: não pense que você pode escapar do cerco que o inimigo faz a Bacurau apenas porque você tem um carro e conhece a estrada que chega até onde a elite está abrigada. Ela não não vai deixar você chegar lá.

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ilustração: 1000TON

 

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