AS REDES SOCIAIS E SUA REALIDADE VIRTUAL NÃO IMPEDEM A MATERIALIDADE REAL DO FASCISMO

Eff fernando Caldas

O neoliberalismo caminha para desprezar a democracia. Não está nos planos da acumulação rentista qualquer discussão de sua necessidade de destruição da propriedade produtiva nacional, de eliminar qualquer direito do escravo moderno, da desregulamentação de quaisquer mecanismos de proteção social. A crueza dessa etapa da barbárie capitalista transforma os estados nacionais em lacaios do capital internacional e desmancha qualquer ação protetiva do aparelho de estado para sua população mais necessitada. O flerte com os políticos de direita, ou mesmo de extrema direita é inevitável.

Entretanto, com o atual nível de desenvolvimento tecnológico e o aparente descontrole das redes sociais para se dizer o que se quer, o clássico modelo ditatorial – que vivemos recentemente – é descartado. Dominam-se os canais de organização presencial e mantêm-se as instituições de representação democrática sob estrito controle dos interesses do capital. A impressão de que elas estão funcionando serve a uma montagem de farsa burlesca de que a situação é normal.

Os canais das bolhas nas redes sociais, do nosso lado, criam uma realidade virtual que não tem qualquer impacto na vida real. Falamos entre nós, para nós, não somos ouvidos fora da bolha e não interferimos em nada na realidade, apesar de aparentemente exercermos nossa indignação catártica entre iguais. Assumimos, sem querer, a criação de um mundo virtual sem qualquer impacto na realidade. Podemos escolher os dados da realidade que nos interessa e construirmos ideias de “representação virtual” sem materialidade real.

Por exemplo, dado os vazamentos de conversas das redes sociais dos procuradores da Operação Lava Jato, podemos construir uma ideia na bolha de que Lula foi condenado injustamente e sem provas, numa clara manifestação política do judiciário para manipular o resultado da eleição. Faz sentido pra você? No mundo real, Lula continua preso, as pessoas que manipularam a falsa condenação (para nós) continuam intocáveis, exercendo suas atividades, como se a denúncia feita só existisse no nosso mundo virtual. O caso Marielle tem as mesmas consequências. Na nossa bolha queremos a confissão de quem sabemos mandou matar a deputada militante. Na realidade, para as instituições, chegar aos assassinos foi perigoso para a família mandatária no poder e barrou-se a continuidade da investigação. Para a grande maioria da população ou não foi morta, foi acidental ou precisava mesmo morrer.

Na realidade a pós-verdade (tá bom, criamos entre nós também esse conceito) se impõe como se o que acreditamos não fizesse o menor sentido. Nem para maioria da população, nem para as instituições que deveriam velar pela nossa democracia. Enquanto a democracia parece cada vez mais destruída para nós, se impõe como inabalável, apesar de todas as emendas que já foram feitas para deformar a Constituição Cidadã de 1988. Ela se alterou sem nenhuma grita no real, embora esbravejemos na nossa bolha – não a reconhecendo mais como garantidora de nossa democracia. Sim porque o que pra nós é desmanche, aparentemente no real é apresentado como necessariamente corrigida. E aí começamos a falar em línguas diferentes.

São incontáveis os exemplos de versões conflituosas. E podemos continuar a exercer nossa indignação no mundo virtual, enquanto o mundo real não nos reconhece e nem se importa com a nossa existência. Cada vez mais somos retirados do mundo real para as conversas virtuais abespinhadas, verdadeiras revoltas sem consequências.

Só a ação política pode nos levar de volta ao mundo real de onde fomos despejados pela maioria intolerante. Um amigo já disse que o governo da maioria não é democrático. A imposição da maioria é fascismo. Democracia, diz esse mesmo amigo, é o governo da maioria CONSTRANGIDA pelas minorias. Esse papel de incomodar na realidade não estamos exercendo e somos, cada vez mais, impedidos pelo fascismo de praticar o constrangimento necessário à democracia. Esse exercício nas redes sociais – como também estou fazendo aqui – não muda em nada a situação real. E o fascismo se implanta com mais facilidade e nenhuma resistência.

Por outro lado, o neoliberalismo desmancha também o conceito que tínhamos de sociedade para contrapor os indivíduos às empresas. O desespero da competição provocado por indivíduos é também usado pelo fascismo para enfraquecer a revolta e forçar o indivíduo a defender o establishment, ou seja, a ordem fascista – econômica, política, ideológica e legal das instituições que garantem o neoliberalismo.

Só a política, os partidos políticos podem aglutinar interesses que possam se contrapor ao fascismo. Daí também a criminalização da política, dos políticos, dos partidos.

Ou os partidos de oposição encontram uma saída para o imobilismo e apresentem uma forma de canalizar nosso inconformismo no real para enfrentar o fascismo, ou teremos a espera por Bacurau: a revolta de nossa gente que se recusa a não mais existir e desaceita ficar fora da geografia econômica. Porque estamos sendo atacados e a gente que mais sofre não compreende porque eles estão fazendo isso…

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desenho: ÉFF – Fernando Caldas em https://muitoquadrinho2.tumblr.com/tagged/%C3%89FF

4 comentários em “AS REDES SOCIAIS E SUA REALIDADE VIRTUAL NÃO IMPEDEM A MATERIALIDADE REAL DO FASCISMO

  1. Excelente artigo para reflexão, amigo véi. Que bom que eu faço parte da sua bolha. Bom demais. Bem, em parte é verdade que falamos entre para nós, para nós. Porém, esses nós, muitas vezes desatam! A bolha explode! E que bom que ela exploda! Exemplos? Vários! SYRIZA / PODEMOS (Esp) / WALL STREET! O que antes eram bolhas nas redes sociais, espocaram nas ruas e nas praças desse mundão. Resultados? Bem, muitos acham que foram pífios. Eu sou daqueles que acham positivas essas manifestações. Há que se cuidar, no entanto, das fake news. Bolhas gangrenadas na pele de Christopher Blair, o criador da “America’s Last Line of Defense”, a última linha de defesa da América. A contaminação não tem limites. Essas, devem ser sempre combatidas!

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  2. Passada a perplexidade sobre a realidade política nacional, restou uma esperança pra quem acredita em milagres, e um vazio, pra quem percebe que todo esse modelo social, econômico e principalmente político partidário está falido, e nada poderá ser aproveitado, isto é, começar do zero…do -1… sei lá…
    Lelê Fernandes

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  3. Muito bom seu texto, caro Edmar. Sobretudo porque neste mundo virtual as coisas se transformam rapidamente mesmo antes que pudéssemos comprehender que em algum momento muitos de nós de dentro da bolha convenceu-se de que falar no mundo virtual nos agrupa … Vai ser difícil mas temos que reaprender a furar a bolha antes que ela nos engula inteiramente! Bravo !!!

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