UM CADÁVER NECESSÁRIO

cOMEMORAÇÃO 2

                                “A gente lia sobre o nazismo e pensava: quem apoiou um crime horrendo como esse? E a gente viveu para saber quem entre nós teria apoiado.”

(Milly Lacombe no twitter)

 

Muito cedo, numa manhã fria, o Rio é acordado com o trânsito parado. O sequestro de um ônibus está sendo transmitido ao vivo pela TV. Sabemos que um homem tomou o ônibus na travessia da ponte Rio-Niterói, atravessou na via e as imagens já nos chegam com um gigantesco cerco policial, com o trânsito interrompido nos dois sentidos, paralisando as vias nas duas cidades.

As notícias são completadas por mensagens de celulares que vazam de dentro do ônibus. Familiares ficam sabendo do sequestro pelos sequestrados. Um revólver, uma faca e algumas garrafas pets com gasolina são o armamento do sequestrador. A polícia negocia, o homem desce do ônibus várias vezes e conversa com os policiais. Sabemos posteriormente que ele tomou a iniciativa. Pediu para um passageiro escrever a frequência de um rádio que portava no vidro do ônibus para conversar com a polícia. Alguns reféns são liberados. Momentos de tenção. Psicólogos da polícia traçam um perfil psicótico para o sequestrador. A negociação é interrompida, supostamente pelo sequestrador. A polícia posiciona snipers. Pela última vez o sequestrador desce do ônibus, atira um casaco para os policiais, parece ter um revolver no bolso seguro pela mão esquerda (que posteriormente sabemos ser uma arma de brinquedo), quando tenta voltar ao ônibus é abatido por vários disparos. Segundo informações, disparos nas pernas, braço e antebraço, tórax. A multidão que assistia a ação, mantida longe pela polícia, celebra alegremente o abate quando o sniper faz sinal de positivo. O governador chega de helicóptero e numa ação espalhafatosa, ridícula e inadequada dá pulos no ar com punhos fechados como se comemorasse um gol. Parabeniza os policiais destacados e atiradores, e ali mesmo efetua promoções. Depois faz uma preleção religiosa aos sequestrados que foram libertos e pede que todos saiam pregando para que Jesus possa iluminar esses possíveis inadequados que ameaçam os homens de bem. Aquele que foi abatido em vez de receber Jesus padeceu, merecidamente, o castigo dos homens.

A cobertura da maior emissora de TV, no seu jornal matutino é um capítulo à parte. O sequestrador é tratado sempre como um monstro que ameaça a integridade física dos passageiros (o que mais tarde é negado por testemunhas, mas a imagem que se mantém é de um incendiário criminoso destruidor). A polícia é elogiada em suas ações, a imprensa concorda em ficar muito atrás do cordão de isolamento, longe sem poder registrar seu trabalho. Os apresentadores regozijam-se após o abate do monstro criado e induzem o alívio nos telespectadores por um final feliz. Mesmo mostrando de longe a cena do momento da queda do sequestrador, sozinho e sem ameaçar ninguém, tentando voltar para o ônibus, as palavras dos jornalistas não permitem qualquer chance ao extremo recurso da execução com seis tiros e não um tiro único de um sniper. A ação foi dada como necessária desde o princípio.

Pouco se falou do perfil psicótico do sequestrador, de sua família (que numa negociação deveria ser levada ao local), da descrição de uma testemunha de que ele falara que não faria mal a ninguém, queria ficar famoso e que no final todos os passageiros teriam muitas histórias para contar. Foi sempre tratado como um cadáver necessário.

Muitos comentaram da performance espalhafatosa de Witzel, mas não entraram em detalhes, nem quando ele tentou ligar o sequestrador solitário aos traficantes que são abatidos nas comunidades por sua expressa ordem, como se pudesse justificar a recente mortandade de jovens inocentes. Suponho, e posso supor conhecendo a intenção de legalizar a matança nas comunidades que o governador pretende, que toda a ação e seu desfecho de abate (como consta no vocabulário inadequado do governador) teve um efeito demonstrativo para convencer a população da necessidade da ação fascista que ele planeja.

E o que acho mais surpreendente é que no campo da esquerda, se todos concordam com a atitude de Witzel e suas pretensões, é quase unânime a opinião da inevitabilidade da eliminação do sequestrador. Aqui faço coro ao meu camarada Cid Benjamim que em recente artigo (veja aqui) defende que a polícia não agiu corretamente ao matá-lo com vários tiros. No ônibus sequestrado, levado à delegacia, podem ser observadas várias marcas de tiros, ao lado da porta e até na lanterna, indicando que foram feitos muitos disparos e não uma ação “cirúrgica”, como seria de praxe. Portanto, para nós foi precipitado o abate.

Sei que a maioria da população concorda com a ação da polícia e não concordar com a maioria pode ser incômodo para a esquerda. Entretanto, é triste lembrar que o fascismo vem tomando conta de nossas opiniões há muito tempo e é preciso resistir. Resistir a um cadáver, que no momento é necessário ao discurso fascista. É bom lembrar o que disse Roland Barthes sobre a linguagem fascista: “O fascismo não é impedir-nos de dizer, é obrigar-nos a dizer”.

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Ilustração: foto reprodução TV Globo

5 comentários em “UM CADÁVER NECESSÁRIO

  1. E já fica lá pra trás, no esquecimento, os 80 tiros de fuzil que atingiram o carro do músico Evaldo Rosa dos Santos, que morreu na hora. E quantos cadáveres nos morros, invisíveis para o asfalto? Na ponte, tivemos o cadáver visível! E grande parte, aliás a maioria da população, aplaudiu! Pudera, nazibozo e fuhrerwitzel, foram eleitos pela maioria dos brasileiros…

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  2. Para mim o pior é a falta de empatia diante da morte.
    Não é simplesmente o despreparo diante de uma situação extrema.
    Não só o governador, mas a população estava comemorando a morte do sequestrador.
    Quando um parente nosso é liberado de um sequestro, ficamos enormemente aliviados. Suspiranos, não ficamos vitoriosos, gritando de alegria com a eventual morte do sequestrador, sem julgamento.

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